1964 EM RONDÔNIA - A louca disputa entre os Cutubas e Peles Curtas | Noticias Tudo Aqui!

1964 EM RONDÔNIA - A louca disputa entre os Cutubas e Peles Curtas

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Durante mais de 20 anos dois grupos políticos se revezaram no poder no Território, numa disputa quase fratricida, entre 1946, quando aconteceu a primeira eleição para deputado federal até 1967, quando o pluripartidarismo foi substituído pelo bipartidarismo – a ARENA, governista, e o MDB ou, como também foi chamado, “oposição consentida” que garantiram a ideia do bipartidarismo no Brasil.

E como começou tudo: Desde que o presidente Getúlio Vargas criou o Território do Guaporé em 1943, juntando uma pequena parcela de terras do Amazonas, e mais de 90% de Mato Grosso, teria começado ali um grupo que não queria aceitar isso, ainda mais que a capital ficou em Porto Velho, porque os comerciantes e outras lideranças do vale do Guaporé, que em 1937 tentaram convencer Getúlio a criar o Território só com terras de Mato Grosso não gostaram da decisão.

Esron Menezes tinha outra teoria, de que tudo começara quando Aluízio decidiu deixar om governo e sair candidato a deputado federal. Definida a candidatura Aluízio teria ido embora para o Rio de Janeiro, esperar penas o resultado da eleição, o que deixara irritadas algumas pessoas, incluindo o funcionário Abnatal Lima, pai do historiador Abnael Machado do Lima e o médico Osvaldo Piana, pai do único governador do Estado nascido em Rondônia o também médico Osvaldo Piana.

O grupo decidiu lançar uma candidatura diferente e o escolhido foi a maior liderança que o Guaporé tinha, o comerciante Paulo Saldanha, que perdeu a eleição, ou foi “tomada”, como afirma seu sobrinho Paulo Cordeiro Saldanha e dizia o historiador Abnael Machado de Lima, logicamente negado elos partidários de Aluizio, como Esron e o músico Walter Bártolo, que em entrevista concedida ao autor, em companhia do historiador Francisco Matias e o poeta Adaídes – Dadá – dos Santos, garantia que a eleição havia sido limpa.

Mas a briga entre cutubas e peles curtas só apareceria bem mais tarde, a partir da eleição de 1954, quando o ex-apadrinhado de Aluízio, Joaquim Vicente Rondon ganhou a disputa e se tornou o terceiro deputado federal do Território. Li se teriam formado as duas correntes, a “aluizista” e “rondonista”. No período duas correntes se formaram no Território, uma liderada pelo coronel Aluízio Ferreira, grupo chamado “cutuba”, e outra pelo coronel Joaquim Rondon – depois pelo médico Renato Medeiros, grupo chamado “pele curta”. Não havia uma justificativa para os apelidos dos dois grupos. “Cutuba”, diziam os peles-curtas, seria a junção de duas palavras de uma língua indígena da região. “Tuba”, significaria “doce”. A sílaba antecedente teria o significado ficando ao gosto do freguês e, juntando os dois....

Já o epíteto “pele-curta” seria em razão dos membros desse grupo não poderiam sorrir, porque deixaria sair pelo cóccix os chamados “dejetos humanos”.

Foi uma época em que era o deputado federal quem indicava o governador – como dizem atualmente fazendeiros rondonienses, o ganhador levava tudo, “de porteira fechada”. Quem perdia a eleição ficava no ostracismo social e político.

A Justiça era representada pelo único juiz e um promotor, às vezes, poucas vezes, dois de cada. Não havia o que hoje se chama de “direitos”, até porque qualquer apelação tinha de ser mandada à Segunda Instância, até 1961 no Rio de Janeiro, e, depois, em Brasília, o que continuou até 1982, quando foram criados o Poder Judiciário e o Ministério Público estaduais. Literalmente vigorava a lei do mais forte – às vezes não só politicamente.

Quem viveu aqueles tempos lembra: Disputa eleitoral no Território era um combate sujo, porque o ganhador teria nas mãos o direito de nomear governador, os dois prefeitos, remanejar funcionários, por exemplo, transferir o marido ou a mulher para Tabajara, no Rio Machado e um dos dois para Costa Marques, destruindo a família.

A passeata da vitória era um inferno para quem perdia. A professora Sandra Castiel, na biografia de sua mãe a professora Marise Castiel, narra que em 1958 os partidários de Aluízio Ferreira apedrejaram a casa da família, porque o casas Rafael/Marise Castiel fizeram campanha para o candidato derrotado Renato Medeiros. A passeata dos vencedores era fato comum, e naquele dia os partidários de Aluízio tentaram invadir a casa da família. “Meu pai pegou um revólver, foi para a janela e fez vários disparos para o ar. Só assim a turba foi embora”. Isso foi apenas um dos muitos episódios.

Das seis eleições para deputado federal, no período, os cutubas ganharam quatro (1946, 1950, 1958 e 1966) e os pele curta duas (1954 e 1962). Aluízio era uma espécie de “soba”. Cair em desgraça com ele era querer sofrer. Mas nas vezes que os adversários ganhavam a eleição, como aconteceu em 1954 ou 1962, era dado o troco, apesar que muitas vezes o grupo de Aluízio conseguia dar um jeito. Em seu livro “Professora Marise Castiel e Rondônia – Educação, Política e Cultura” a escritora e acadêmica Sandra Castiel, conta que seus pais eram amigos de Aluízio, mas quando passaram a apoiar os adversários, houve retaliações, também contadas pelo aluizista Esron Penha de Menezes que por apoiar os cutubas ele foi transferido para a região do Rio Machado e a esposa, dona Vitória, ficou trabalhando em Porto Velho.

Em 1958 Aluízio foi eleito para seu terceiro (e último) mandato aos 61 anos de idade. “Aluízio entrou na disputa parecendo apenas para provar sua liderança política”, diz o historiador Anísio Goraieb, “e provou isso”. Em 1962 os cutubas lançaram candidato, indicado por Aluízio, o ex-governador Ênio Pinheiro, contra o médico Renato Clímaco de Medeiros, ex-aliado político de Aluízio, então líder dos peles-curtas, que foi eleito. O jornalista Euro Tourinho, em conversa com o autor, afirmou várias vezes que a vitória de Renato teria sido facilitada devido ao episódio conhecido por “Caçambada Cutuba”, na noite de 26 de setembro de 1962, quando uma caçamba da prefeitura invadiu um comício de Renato e causou muitos ferimentos. Alguns eleitores cutubas teriam então mudado seus votos, o que desequilibrou, conforme Euro, a balança a favor da oposição.

O gráfico Zé Paca contava que sentiu na carne o que era ser oposição. Indicado para fiscal de um partido político na eleição de 1958, Zé Paca foi para uma vila na margem do Madeira. Chegou sábado, havia um festa patrocinada pelo seringalista, amigo de Aluízio. Paca ficou na festa pouco tempo e não aceitou o convite para jantar na casa do dono da casa, foi bem cedo para onde a urna estava. “Passei o dia lá, em cima da urna, não fui almoçar e depois de fechar a urna fui dar uma mijada numas bananeiras; depois a viagem toda de volta sem pregar o olho”. Na hora que abriram a urna, uma surpresa: “Nem meu voto estava lá. Foi tudo do coronel Aluízio. Tinham emprenhado a urna”. Em meu livro “A Cesta Página de um Repórter” conto algumas dessas histórias (ou estórias?). Por exemplo.

Urnas ao Rio – Contar os votos da eleição era demorado no tempo dos cutubas e peles curtas. Muitas urnas demoravam tanto a chegar, trazidas em lombos de burros dos distantes seringais, que nem serviam mais para o resultado final.

Num desses casos a comitiva vinha de um seringal na região de Vila Rondônia, mas quando chegou na travessia do Candeias encontraram outra, indo para lá. Pararam para tomar uma pinga e o que ia com as urnas perguntou aos outros: “E aí, como está a eleição”. Ao saber que “o nosso lado ganhou”, o perguntador mandou jogar as urnas no rio “porque não servem pra mais nada”. E retornaram.

Falha ao emprenhar – Qualquer urna impugnada tinha de ser mandada para ser aberta na sede do Tribunal, no Rio de Janeiro até 1960 e daí em diante a Brasília. Era o ano de 1954. Um funcionário da Justiça levava a urna e toda a documentação, acompanhado de fiscais dos dois candidatos, Aluízio Ferreira, que tentava seu terceiro mandato, e Joaquim Rondon. O avião pernoitava em Cuiabá e os dois fiscais dos candidatos ficaram no mesmo hotel do condutor.

Quando a urna foi aberta, estava como saíra de Porto Velho. Na volta o funcionário explicou: “Eu “tava” abrindo a urna e alguém bateu na porta. Fechei tudo e só levantei na hora de pegar o avião”. Segundo quem me contou, a urna teria sido impugnada pelo candidato perdedor, e a diferença de votou foi re3sultado da urna impugnada.

O depósito “inviolável”– As urnas eram guardadas numa casa da Prudente de Moraes (onde depois foi instalado o museu da Justiça Eleitoral). Acesso só pela frente. Ninguém entrava nem saía. Mas o dono de uma das casas laterais era cutuba. Contava o jornalista Rochilmer Rocha que à noite uma pessoa tinha acesso por trás, entrava no local onde as urnas “dormiam”, fazia o emprenhamento e depois saía pelo caminho anterior.

Na frente, noite toda a guarda era feita pelo Exército, que nem permitia passar na calçada e do outro lado da rua, partidários dos dois lados faziam o “velório” até que o juiz chegasse e a contagem dos votos fosse iniciada, mas aí.....

Lúcio Albuquerque, repórter, email: jlucioalbuquerque@gmail.com
(Consultoria historiador Abnael Machado de Lima e pesquisador Anísio Goraieb)


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