Após seca histórica, rio Negro se recupera, mas ritmo de subida preocupa



Após a seca histórica registrada em 2024, o rio Negro continua em processo de recuperação, mas o ritmo de subida tem apresentado variações nos últimos dias. Embora o nível do rio tenha ultrapassado o do mesmo período dos últimos dois anos, a elevação diária tem perdido força, levantando questões sobre a regularidade da cheia deste ano.

Nos últimos dias, a elevação do rio tem sido mais moderada. Na quinta-feira (30), o aumento foi de apenas 4 cm e, na sexta-feira (31), 3 cm, atingindo a cota de 22,20 m. Na sexta-feira da semana anterior (24), o rio Negro subiu 9 cm, marcando a cota de 21,77 metros, o que representa um aumento de nível de 43cm em uma semana.

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O coordenador do Sistema de Alerta Hidrológico do Serviço Geológico do Brasil (SGB), Artur Matos, explica que a bacia amazônica passa por processos de cheias e estiagens todos os anos, mas fatores climáticos anuais determinam a intensidade desses eventos. Segundo ele, o enfraquecimento do El Niño e o resfriamento das águas do Pacífico podem estar contribuindo para a melhora das condições de chuva na região.

Em Manaus, o rio deve continuar subindo até o meio do ano. Com essa recuperação, o nível do rio já apresenta valores próximos à média histórica para o período, com possibilidades de se manter próximo à média até o meio do ano, caso não ocorram grandes mudanças nos fatores climáticos, projeta Matos.

“Nos últimos quatro anos, tivemos duas cheias severas e duas secas severas. Em 2021 tivemos a maior cheia, em 2022 a quarta maior cheia, em 2023 a segunda maior seca e, em 2024, a maior seca da região. Isso em um horizonte de 122 anos de dados históricos na estação de monitoramento do nível do rio localizada em Manaus. Esse padrão reforça a necessidade de acompanhar com atenção o comportamento hidrológico da Amazônia”, afirma o coordenador.

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Efeitos do La Niña

A chegada do fenômeno La Niña pode ter um impacto significativo no ciclo hidrológico. Em 9 de janeiro de 2025, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) confirmou a atuação do fenômeno. Apesar de ser previsto para ser fraco e de curta duração, o La Niña pode favorecer o aumento das chuvas na região Amazônica.

Os efeitos da La Niña sobre as chuvas e temperaturas na região devem começar a ser percebidos a partir de fevereiro. Além disso, as anomalias de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) no Oceano Atlântico Tropical Norte, mesmo enfraquecidas, ainda podem influenciar algumas áreas da bacia, detalha Vergasta.

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O prognóstico de chuvas elaborado pelo LABCLIM-UEA para os meses de fevereiro e março é de que as precipitações devem ficar acima da normalidade na faixa centro-norte da bacia Amazônica, incluindo as regiões do alto, médio e baixo Solimões, rio Negro, Içá e Japurá, segundo Vergasta.

Para Matos, o monitoramento contínuo é essencial para entender o comportamento do rio e seus possíveis impactos nas comunidades ribeirinhas e atividades econômicas. Ele reforça que os eventos extremos registrados nos últimos anos – como a maior cheia em 2021 e a maior seca em 2024 – já podem ser considerados indícios de mudanças climáticas.

Vergasta complementa que o aumento das temperaturas globais tem provocado alterações na evaporação e precipitação, impactando diretamente o ciclo de cheias e secas. Além disso, ele alerta para os impactos do desmatamento e das mudanças no uso da terra, que comprometem o balanço hídrico da Amazônia.

As mudanças climáticas podem impactar significativamente o ciclo de cheias e secas no Amazonas nos próximos anos, intensificando a variabilidade hidrológica da região. Projeções climáticas indicam que eventos extremos, como secas mais prolongadas e cheias mais intensas, podem se tornar mais frequentes devido ao aumento das temperaturas globais e às alterações nos padrões de circulação atmosférica, conclui Vergasta.

Influência de outros fenômenos

O doutor em meteorologia e pesquisador do Laboratório de Modelagem do Sistema Climático Terrestre da Universidade do Estado do Amazonas (LabClim/UEA), Leonardo Vergasta, destaca que a recuperação do nível do rio Negro foi influenciada pelo enfraquecimento das anomalias de Temperatura da Superfície do Mar (TSM) no Oceano Atlântico Tropical Norte, no final de 2024, o que favoreceu a ocorrência de chuvas.

Isso resultou em mudanças no padrão de circulação atmosférica sobre a Amazônia, favorecendo o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) para latitudes mais ao sul e a ocorrência de episódios da Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), aumentando a instabilidade termodinâmica e contribuindo para um incremento gradual das chuvas na região, explica Vergasta.

Vergasta ressalta que, apesar da recuperação gradual, o cenário ainda requer atenção. As chuvas apresentaram um padrão irregular, com volumes abaixo ou acima da média em diferentes localidades da bacia amazônica, e ainda é cedo para afirmar se o rio Negro atingirá níveis semelhantes aos registrados em anos anteriores, como 2021 e 2022.

Incertezas

O cenário ainda é de incerteza, e a evolução do nível do rio Negro dependerá não apenas das chuvas sobre a bacia do rio Amazonas, mas também das contribuições provenientes do rio Solimões. Por isso, especialistas reforçam a necessidade de monitoramento constante para entender os impactos da atual cheia e projetar seus desdobramentos nos próximos meses. 

 

fonte acritica



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