No dia 26 de março passado, a comunidade descendente de antilhanos, mais conhecida como “Os Barbadianos”, que vieram para Porto Velho trabalhar na construção da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, se reuniu e prestou homenagem a embaixadora de Barbados no Brasil senhora Tonika Sealy – Thompson que atendeu convite da doutoranda Cledenice Blackman também conhecida como Cleide.
A festa foi regada a muita música caribenha e algumas iguarias da culinária antilhana. Um dos momentos de grande relevância no encontro, foi quando as famílias presentes, passaram a relatar a história de seus antepassados. O cantor Ernesto Melo – Poeta da Cidade participou, acompanhado pelo seu irmão Ênio Melo (violão) e Sílvio Santos (percussão), contando parte da história de Porto Velho através das letras de suas canções.
No final do evento, conversei com a Cleide sobre a possibilidade, de ela nos relatar, sobre seu trabalho de mestrado e doutorado, com a história dos Barbadianos em Porto Velho.
Cleide nos recebeu acompanha da senhora sua mãe dona Lió em sua residência, no bairro Aponiã e nos concedeu a seguinte:
ENTREVISTA
Zk – Vamos a sua identificação?
Cledenice Blackman – Sou conhecida como Cleide mais meu nome é Cledenice Blackman, sou descendente de barbadianos, dos negros e negras que vieram não somente para trabalhar na Estrada de Ferro Madeira Mamoré mais também, em outras frentes de trabalho como a extração da borracha. Nasci em Porto Velho na maternidade Darcy Vargas, bisneta de Preston Blackman e Constância e neta do Helton Blackman conhecido como Caetano que além de ser ferroviário era boêmio, tocava banjo.
Zk – Há algum tempo você vem estudando a história dos barbadianos em Porto Velho. Fala sobre essa pesquisa?
Cledenice Blackman – A gente começou esse trabalho desde 2004. Sou egressa da Universidade Federal de Rondônia - UNIR fiz história de 2003 a 2006 e la, comecei um trabalho de pesquisa sobre a questão dos barbadianos em Porto Velho e escrevi o texto: “OS BARBADIANOS E AS CONTRADIÇÕES DA HISTÓRIA REGIONAL” e elenquei vários trabalhos de memorialistas e historiadores. Do que eles diziam sobre barbadianos, assim também, como fontes documentais (jornais), que encontrei no Centro de Documentação do Estado; entrevistas dos próprios barbadianos que nasceram na primeira geração em Porto Velho e juntei todo esse material e comecei a analisá-los e vi os contrapontos entre eles, percebi que na verdade a nossa história era construída por pessoas, como diz José de Souza Martins que é um autor que fala sobre essa questão; que é construída pelo outro, pessoas que não vivenciam que não fazem parte da comunidade. Entendo que sou a primeira descendente da quarta geração, que vem escrevendo sobre os barbadianos, usando o termo afro antilhanos.
Zk – Outras fontes?
Cledenice Blackman – Na dissertação intitulada “Do Mar do Caribe a Beira do Madeira – As Contradições da Historiografia Regional” a gente fez um trabalho de reconhecimento, através de fontes documentais como Passa Porte, Ficha Funcionais, Entrevistas dos próprios pioneiros como Norman Jhonson e Raimundo Winter dentre outros, que conseguimos juntar no Centro de Documentação. Confrontamos novamente o discurso da história e o discurso do grupo e percebemos que os barbadianos, alguns, não se consideravam com a nacionalidade barbadiana: Eles diziam, “não, eu não sou barbadiano eu vim de Granada em 1929”, bomo Norman Jhonson. Foram essas pequenas nuances que a gente começou a juntar e fazer uma análise de contraponto e percebemos, que o grupo era formado por pessoas oriundas de várias ilhas. Na realidade, consegui descobrir a nacionalidade de 29 antilhanos e negra antilhanas que vieram de Barbados, Granada, Trinidad Tobago, Guiana Inglesa, Jamaica, São Vicente e outras ilhas e aqui viveram no Barbadian Town onde a historiografia trata de uma forma preconceituosa denominando-o como “Alto do Bode”