Meia noite de hoje, dia 09 de maio, na Upa da Zona Leste
- Não vou atender! Respondeu rispidamente o Dr. Ivair ao pai de um menor que apelou pelo filho e aguardou por 8 horas e 30 minutos a uma consulta. O jovem chegou na Upa da Zona Leste com um quadro de febre, vômito e diarreia.
- Já mandei avisar que não vou mais atender ficha verde. Não estou dando conta das amarelas, completou e encerrou a conversa diante de um pai estarrecido e indignado. E mentiu, não havia mandado avisar a ninguém.
Minutos antes
O pai entra no corredor da Upa e aborda um médico que deixava o consultório e se dirigia para a escada que dá acesso ao conforto médico.
- O senhor é médico? Sou, respondeu ele. O pai relata rapidamente o caso. Não posso fazer nada, estou indo para o descanso médico. Virou as costas e foi embora.
Desnorteado, o pai pergunta a uma profissional de jaleco branco que observava o caso, onde estava o médico que restava fazendo o atendimento.
- Não sei, tá numa destas salas aí, todas elas são consultórios. E apontou umas cinco salas. E alertou: mas aqui, se não brigar, você não é atendido. Aí uma das portas se abriu. Lá dentro estava o Dr. Ivair. Aquele que recusou atender o menor.
Entenda o caso.
Adolescente de 17 anos iniciou um quadro de vômitos, diarreia e febre na noite anterior. Durante o dia a família cuidou com remédios caseiros, naturais. Não resolveu. As 15h30 o pai leva o filho direto à Upa por saber que na policlínica não encontraria mais atendimento.
O serviço de triagem ouviu o relato e deu uma pulseira verde e a senha 603 ao paciente. Eram 16hs. A unidade estava lotada (veja imagens). Não havia lugar para sentar, a não ser o chão.
Os critérios de atendimento
O serviço de triagem obedece a critérios de cores para definir a urgência de cada caso. E esta urgência é definida pelo juízo dos profissionais de saúde após ouvir, medir temperatura e pressão do paciente. Normalmente, são técnicas ou técnicos de enfermagem.

Dão a pulseira vermelha para os casos que consideram emergência, amarela para os de urgência, verde para os pouco urgente e azul para os não urgente. Se o paciente está com o verde, o vermelho e o amarelo serão atendidos primeiro. Se chegar a vez e, antes que chamem, surgir um caso amarelo, este vai ser atendido na frente. Se surgir outro, mais outro e mais um, o verde vai ficando para trás.
Foi o que aconteceu com a ficha 603.
Às 16hs de uma quarta-feira comum
A informação era que havia três médicos atendendo. Era para ter 5, conforme informação de servidor anônimo. Chamavam um tanto verde e um tanto amarelo. Passavam um tempo sem chamar ninguém porque, diziam-nos, estavam na emergência, um vermelho.
Às 20hs interrompeu-se o atendimento das fichas verdes. Bem na hora de chamar a 603, um adolescente que tem a proteção do Estatuto da Criança e do Adolescente que lhe garante prioridade no atendimento público de saúde. Lei que foi totalmente desrespeitada naquela noite.
Meia noite
Funcionários informam que só tem dois médicos atendendo e um no ‘conforto médico’ descansando ou dormindo.
0:30min de quinta-feira, dia 09 de maio
O pai descobre que tinha três. Dr. Ivair, atendendo, um no conforto médico e outro, subindo para o descanso, insensível aos apelos do pai do adolescente.
Desalentado, revoltado e desejando matar, o pai abraço o filho debilitado, faminto, cansado, o corpo moído
- Vamos para casa meu filho! E some na madrugada pela a Avenida Mamoré. O sangue fervendo, a cabeça explodindo, a alma revoltada.
Após 8horas e 30minutos de espera em ambiente desconfortável, cheio de doentes, gente desesperada que – alguns – tiveram que brigar, xingar palavrões horrendos, para ser atendidos.
Oito horas e meia no inferno!

Upa da Avenida Mamoré, Zona Leste de Porto Velho, uma 4ª feira comum, dia 8, às 20hs. Superlotada. Assim, desde às 16hs.

O painel com as cores das pulseiras de cada um e o número da senha chamada, que não obedece uma ordem crescente, hipnotiza os olhares e enche de esperança e angústia cada um. Única distração.

Por falta de cadeiras, as pessoas, corroídas e enfraquecidas pela doença, sentam e deitam no chão ... que, em 8 horas e 30 minutos só foi limpo uma vez.

... se escoram na parede, de cócoras, debruçado no balcão que seria a recepção.

Se espalham e ficam em pé no meio da sala, ancoradas nas colunas e paredes, sem sequer uma televisão para distrair a longa, cansativa e, muitas vezes, infrutífera espera.

Crianças descobrindo as dores da vida enquanto sofrem sua própria dor.

Um missionário evangélico aparece, ler a bíblia e ensina o amor de Deus, fala de perdão e de salvação. E convida para o ‘Pai Nosso’. Desarma espíritos revoltados. Mitiga as dores e as angústias.

Na recepção o frio atendimento de servidores por trás dos vidros.

Alguns seguranças que controla a entrada, são mais afáveis e têm mais humanidade que os servidores treinados para atender bem.

Mas alguém não resistiu. E extravasou com um soco no vidro da recepção. Este murro era para o médico, o secretário da saúde, o prefeito, o governador ... Não era para o ou a recepcionista. Mas, se não fosse a resistência do vidro, o servidor é quem teria recebido o recado da revolta do cidadão que trabalha, paga impostos, paga o salário de todo mundo do serviço público e, quando precisa, não acha. Nem educação!
Fonte: noticiastudoaqui.com