Dor da mulher gestante é prioridade na pesquisa do SUS em Porto Velho



Quatro horas e reunião indicaram ao Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS)* prioridade à mulher gestante em 2020.

 

Acompanhei na semana passada a reunião anual da Fundação de Amparo ao Desenvolvimento das Ações Científicas e Tecnológicas e à Pesquisa de Rondônia (Fapero) para eleger pesquisas financiadas.

Em 90% dos casos investigados no município de Porto Velho, 26 gestantes morreram no parto [cesariano ou natural] em 2017 e 12 em 2018, vítimas de diabetes, hipertensão e infecção urinária. As que morrerem este ano irão constar na estatística que será fechada em abril do próximo ano.

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Numa sala do Campus 2 das Faculdades São Lucas, no Areal, o relato ilustrado com audiovisual chamou atenção: as vítimas de má gestação e de parto estão morrendo, em sua maioria, por causa de diabetes, hipertensão e infecção urinária, algo a ser estudado mais profundamente.

Esse relato foi trazido à reunião pela coordenadora de assistência de atenção integral à saúde [órgão da Sesau], Aline Vilela.

A dor das Cleusas, Marias, Lourdes, Josefas, Rosas, Tânias, e outras mais, passa quase despercebida pela sociedade. Quem fica sabendo da vida [e da morte delas] é a Agevisa, a Sesau, a Maternidade Mãe Esperança e, às vezes, Instituto Médico-Legal (IML).

Muitas gestações terminam antes do atendimento, fator que complica e causa transtornos a essas mulheres, sobretudo, às redes estadual e municipal de saúde.

O PPSUS é patrocinado pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Suas reuniões anuais são feitas em todos os estados.

O drama das mulheres e a saúde mental das pessoas foram conhecidas durante oficina no Campus 2 das Faculdades São Lucas, com ativa participação de pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz-RO, dos centros médicos e biológicos da Universidade Federal de Rondônia (Unir), hospitais e instituições privadas de ensino.

O que “pega”? 

Em 2018, apenas 5% das gestantes fizeram o exame neonatal até seis dias, e neste ano, 6,6%. Já o neonatal tardio, de 7 a 27 dias, aumentou de 1,9% para 2,3%. E o pós-natal, 28 a 364 dias, foi insignificante em 2018 (4,3%); em 2019 estacionou 4,5%, até agora.

Esse quadro precisa mudar, mas a mulher deve fazer sua parte, acenando desde a barranca do rio, no Baixo Madeira à periferia da capital. Só assim será possível socorrê-las a tempo.

Se há 40 anos, a permissividade amazônica chocava a sociedade, atualmente a dor das famílias é o que conta. Dor e, em algumas situações, uma inadmissível frieza de quem pais, mães e companheiro dessas mulheres poderia detectar o risco a que elas se submetem.

No relatório da atenção básica aparecem casos de gravidez de meninas a partir de 11 anos de idade e na faixa até os 19. Somam-se a isso, a falta de agentes de saúde e, muitas vezes, de antibióticos em áreas ribeirinhas, fronteiriças e até na cidade.

Quarenta por cento dos atendimentos no município (34 mil Km²) são feitos pelo programa de saúde na família. O estado é dividido em sete regiões, das quais, só a Madeira-Mamoré tem os melhores equipamentos hospitalares.

Daí a importância da pesquisa do PPSUS apoiada pela Fapero. “Quando a população entender que a ciência pode diminuir a fila do SUS, ela será nossa aliada”, disse a coordenadora nacional do PPSUS, Marge Tenório.

Na oficina de prioridades, a coordenadora explicou a metodologia do PPSUS com a apresentação de um trabalho de pesquisa e audiovisual elaborado por ela e pelos consultores técnicos José Eloy dos Santos e Giliana Betini.

São eixos temáticas que visam à saúde materno-infantil; doenças crônicas não transmissíveis; doenças infecto-contagiosas, desenvolvimento de tecnologia e inovação; e gestão do trabalho e vigilância em saúde.

Já no sul do Estado de Rondônia, a situação foi amenizada, lembrou a coordenadora Aline Vilela. “No terceiro ano de planificação, a média e alta complexidade no Hospital Regional de Cacoal passaram a evitar viagens longas de pacientes a Porto Velho”.

Para o diretor científico da Fapero, Andreimar Soares, cenários adversos exigem ações conjuntas. “Temos vontade de fazer a diferença, as respostas dos pesquisadores nos fará enfrentar os problemas”, disse.

Soares propõe um olhar para a ciência e a inovação com articulação e inovação. Para tanto, defendeu o papel da Fapero como fundamental, pois desta maneira, não se perde a continuidade das boas ações e iniciativas que o meio acadêmico aguarda enquanto fomento.

O que mais “pega”, indagaram nas reuniões da semana passada. E Aline Vilela expôs situações peculiares do estado:

► Municípios do sudoeste amazonense não têm acesso à saúde no vizinho estado, tendo como referência o Hospital de Base Dr. Ary Pinheiro, a Policlínica Oswaldo Cruz, o Hospital João Paulo II, e o Hospital de Amor da Amazônia.

► Secretaria Municipal de Saúde (Semusa) e Sesau acompanham casos de Aids em crianças com menos de cinco anos.

► Nem todos os poços Amazonas tem água potável de qualidade. Segundo a coordenadora, diversos poços até se situam distantes das fossas nos quintais, porém, ficam próximos às fossas dos vizinhos.

► Histórias que narram a chamada violência obstétrica ainda repercutem: 25% dos partos no município de Porto Velho são cesarianos; na Zona da Mata, 90%, superando o parâmetro nacional estabelecido pelo Ministério da Saúde, entre 25%  e 30%. A exceção no estado é a Maternidade Mãe Esperança, onde a maior parte dos partos são normais.

► Gerências hospitalares deveriam evitar abordagens deste tipo às gestantes: “Nossa, que barrigão! Deve  ser um bebezão”. Frases assim podem desencorajá-las. “Certo é exclamar: “Que barriga bonita!”. Duas semanas atrás, Aline Vilela presenciou uma mãe da zona leste dar à luz um bebê pesando 4,100 Kg, em parto normal. “A mãe estava tranquila e segura”, comemorou.

► A cultura tribal indígena impossibilita o trabalho de equipes médicas. “Não se permite abrir as vaginas das mulheres”.

► Mamografia para mulheres entre 50 e 69 anos: o número de aparelhos é insuficiente. Pimenta Bueno se mobiliza atualmente, para alcançar maior número de mulheres atendidas. Unidades móveis têm atraído as mulheres.

► Nos Centros de Atendimento Psicossocial (CAPS) alcançou-se no ano passado o percentual de 57,14% de resultados positivos em ações de matriciamento sistemático (atividade pedagógica das equipes, interagindo com famílias dos doentes); em 2019 caiu para 42,85%. A meta de 100% volta a ser pactuada para 2020. O pior ano de atendimento foi 2017, que foi centrado apenas em medicação e não passou de 9,52%.

► Segundo Aline Vilela, observou-se que os pacientes preferiram sair do CAPS somente com a receita médica, deixando de participar em grupos atendidos por psicólogos, na média de 25 pessoas por semana.

*PPSUS é uma iniciativa de fomento à pesquisa em saúde nas Unidades Federativas, que promove o desenvolvimento científico e tecnológico, visando atender as peculiaridades e especificidades de cada estado brasileiro e contribuir para a redução das desigualdades regionais.

MONTEZUMA CRUZ
Texto e fotos

 

 



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