Dentro do ônibus, no embalo da ‘sofrência’



 

O amanhecer em Porto Velho é esplêndido, exibindo suas nuances a sonolentos, ou mesmo, a pessoas que dormiram bem.

São 7h11. Cá estou novamente dentro do ônibus da linha Guajará, no qual embarco na Rua Andreia, no Aponiã.

Dentro dele, o som estridente traduz o sentimento do motorista, possível DJ de todas as ‘sofrências’. É nesse embalo que percorro quase a metade da Avenida Calama, rumo ao trabalho.

Na manhã de hoje (7), o cardápio musical do motora estava requintado nesse aspecto. “Eu  falando mal de você /Que você nunca soube fazer /Cem mil com quem quiser eu aposto /Se ela bater o dedo eu volto /Ela não vale um real, mas eu adoro”, ouviam todos, em pé, acotovelados, ou sentados – estudantes, servidores públicos, trabalhadores em geral, homens, mulheres, crianças e idosos.

Começar o dia desse jeito traz uma energia que deve ser desembarcada da mente, antes do cruzamento da Calama com a Avenida Presidente Dutra, zona do TRT, Sesc e, agora, da mais nova habitante do pedaço, a Escola de Contas do TCE.

Segue o menu musical do motora, desta vez, com outros refrões: “A dose que mudou a minha vida” e “para aproveitar mais a semana”. No que deduzi, lembrando-me dos tempos em que mergulhava na manguaça: que aproveitamento é esse?

A apologia ao consumo alcoólico e o desmerecimento à mulher rodaram a avenida sobre quatro rodas. Ao descer, aquele som inalterado entraria pelos ouvidos dos pacientes passageiros, quisessem ou não.

Entre 1976 e 1979, a parada de sucessos dos DJs das boates Copacabana, Paissandu e Riomar, no Bairro do Roque, caprichava. Ali, a ‘sofrência’ era light perto das desesperantes composições de hoje em dia.

Poupai-me, Senhor, amanhã, no mesmo horário, entrarei naquele ônibus do SIM. Aliás, será que essa empresa ainda existe?

Apesar de tudo, compreendo o desabafo do motora. Talvez ele esteja de verdade compartilhando o seu “eu” machucado pela mulher da canção. Motora é um ser humano igualzinho aos outros.

Até que hoje ele não deu toda potência ao seu equipamento de som, o que não acontece com um exagerado colega de volante, candidato ao decibelímetro da Polícia Ambiental. 

Apesar de tudo, compreendo o desabafo do motora. Talvez ele esteja de verdade compartilhando o seu “eu” machucado pela mulher da canção. Motora é um ser humano igualzinho aos outros.

Até que hoje ele não deu toda potência ao seu equipamento de som, o que não acontece com um exagerado colega de volante, candidato ao decibelímetro da Polícia Ambiental.
 

 

 

 

 

 

MONTEZUMA CRUZ
Com foto de Evandro Seixas

 


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