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Julinho precisava de um dinheiro extra para dar continuidade a um projeto seu que era formar um time de futebol utilizando o material de que dispunha: Um grupo de meninos pobres de uma favela existente nas imediações de sua residência. A garotada era boa de bola, mas não tinha dinheiro. Sem condições, portanto, de ajudar.

Para montar o time eram necessários, de acordo com os cálculos de Julinho cerca de oitocentos reais. As camisas, os calções, as meias, bolas e rede perfaziam essa importância mais ou menos. A sua mesada era de apenas trinta reais por mês. Precisariam quase dois anos e meio para atingir essa cifra. Isso economizando tudo! Pensou até em fazer um pedágio, mas os policiais não iriam dar crédito a um garoto de apenas doze anos, que tinha uma meta a ser alcançada. Os treinamentos continuavam na base dos encamisados contra os sem camisa, até que certo dia...
Seu Alfredo era um colecionador de borboletas e vendo o problema do menino fez-lhe uma oferta:
__ Se você encontrar uma borboleta rara que falta na minha coleção, eu lhe dou mil reais. Dá pra você realizar o seu sonho e ainda vai lhe sobrar uma grana preta. Dito isto mostrou para Julinho a foto da citada borboleta. O garoto ficou alguns minutos observando a beleza da raridade: Asas azuis com pontos brancos dando um destaque de encher os olhos, mesmo dos leigos no assunto. Julinho comentou com seus botões: "Eu acho que já vi uma borboleta assim no sítio do vovô". Não havia dúvida. No ribeirão que passava nos fundos do sítio havia muitas borboletas e pelo menos uma ele tinha visto: Igualzinha àquela.
Sem perda de tempo apanhou o arco em forma de coador que havia sido entregue por Alfredo e dirigiu-se ao sítio que distava de sua casa mais ou menos uns cinco quilômetros. A sua bike já estava acostumada a fazer esse trajeto. Uns vinte minutos depois, lá estava o nosso Julinho margeando o córrego onde centenas de borboletas de vários tipos e formatos voavam em todas as direções.
Os primeiros dias de busca foram infrutíferos. Só se viam borboletas brancas, amarelas, marrons, - as conhecidas oitenta e oito - mas nada da azul com pontinhos brancos. O avô, senhor Otílio também ajudava na procura. Já haviam percorrido uns trezentos metros da margem dos quinhentos de largura do lote, numa peregrinação às vezes, divertida pelos escorregões.
No quarto dia de procura, em uma parte lodosa, meio movediça, Julinho quase perdeu o fôlego. Voando em saltos como se fosse o bailado "Lago dos Cisnes", lá estava o cobiçado troféu: A linda borboleta de um azul firme, carregado. Várias manchas, brancas como a neve. O menino ficou extasiado diante da raridade que seus olhos viam. Não era à toa que o seu Alfredo queria aquela borboleta. Era bonita demais! Ficou quase uma hora observando a preciosidade, sem coragem de usar os instrumentos que a iam aprisionar e proporcionar o prêmio de um mil reais!
Voltou para a cidade e encontrou o seu Alfredo:
__ Então? Encontrou a borboleta?
__ Como é que o senhor coleciona? O senhor a coloca dentro de um viveiro?
__ Não! Existe um tratamento especial que é aplicado. Depois com muito cuidado esticam-se as asas e com o auxílio de alfinetes elas são colocadas num grande quadro protegido por vidros especiais.
As explicações do seu Alfredo serviram para Julinho tomar uma decisão drástica. Virou-se para o colecionador e disse:
__ Procurei muito, mas não achei essa espécie de borboleta. Vou continuar procurando.
Aquela história não estava cheirando bem para Julinho. As explicações do senhor Alfredo estavam um pouco confusas. O que ele queria dizer com tratamento especial? Com esse pensamento martelando-lhe a mente foi até a casa de Mário, um garoto que morava na favela, mas que era um dos mais inteligentes do seu time e perguntou:
__ Mário, você já colecionou borboletas?
__ Claro que não! Por que pergunta?
__ É que eu queria saber de que forma se coleciona se em viveiro ou mortas e preparadas.
__ As asas das borboletas é que são usadas na coleção. Eu já vi uma coleção que tinha mais de cem tipos ou espécies.
__ Então elas são sacrificadas para a exposição de suas asas?
__ Isso mesmo. O senhor Alfredo é um colecionador e poderá dar mais detalhes.
__ Obrigado Mário. Você me ajudou a tomar uma decisão.
Mário deu de ombros sem entender a resposta e Julinho saiu apressado com muitos grilos na cabeça. No outro dia dirigiu-se para o local onde tinha visto a borboleta. Não demorou muito e lá estava ela: Garbosa com seus vôos curtos dando a impressão de que sabia ser uma raridade. O garoto a observava demoradamente e nem desconfiou que seu avô Otílio o espreitava escondido atrás de uma moita. Depois de se inteirar da reação do neto, o velho saiu do seu improvisado esconderijo:
__ Você não vai apanhá-la e ganhar os mil reais?
__ Vovô, observe bem a beleza dessa borboleta! Eu nunca tinha visto uma assim! Se eu a aprisionar, o senhor Alfredo vai prepará-la, isto é, vai matá-la para depois pregar suas asas num quadro e talvez sua beleza fique extinta. Eu preciso demais desse dinheiro, mas não posso sacrificar uma vida, mesmo sendo de um inseto para conseguir o meu objetivo.
Seu Otílio abraçou o neto demoradamente e disse:
__ Você demonstra que tem sentimentos, que não é egoísta e isso vai valer a minha participação no seu time de futebol.
Vou fazer uma listinha com meus amigos, organizar algum evento e vamos conseguir esse dinheiro que você precisa. O tricolor do bairro vai sair do papel para acontecer na realidade.
De fato, algum tempo depois, lá estava o time de Julinho colecionando resultados positivos, tirando vários garotos da rua dando lhes um motivo para ir à luta. Vovô Otílio era o presidente de honra, vitalício. A borboleta continuou fazendo suas evoluções no sítio, e seu Alfredo sonhando em encontrá-la um dia para fazer parte de sua coleção.
Fonte: noticiastudoaqui.com
