Segundo relatório do Instituto Socioambiental, há uma alta de 138% apenas em terras indígenas em comparação com o período de 2016 a 2018.
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O desmatamento durante a gestão Bolsonaro (2019 a 2021) aumentou 79% em comparação com os três anos anteriores (2016 a 2018) nas áreas que deveriam ser protegidas na Amazônia (Unidades de Conservação e terras indígenas). A análise foi feita por especialistas do Instituto Socioambiental (ISA) e obtida com exclusividade pelo g1.
Os dados foram extraídos do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), base do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) considerada a mais precisa para medir as taxas anuais. O governo já havia anunciado em novembro uma alta geral de 22% em todo bioma em comparação com o ano anterior.
O relatório do ISA tem um enfoque diferente e, apesar de usar a mesma base de dados, analisa os resultados dos últimos três anos para as áreas protegidas, que representam um dos pilares para a proteção da floresta na legislação ambiental do país. O g1 entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente para complemento da análise feita pelo instituto e, se possível, uma explicação das políticas em andamento. Até a publicação dessa reportagem, a pasta não havia enviado uma resposta.
A alta de 79% é referente ao desmate realizado em todos os tipos de Unidades de Conservação (UCs), sejam elas federais ou estaduais e terras indígenas da Amazônia, referentes aos estados de Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Amapá, Tocantins, Mato Grosso, Maranhão e Acre.
As UCs são reguladas pela Lei nº 9.985, de 2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e são demarcadas com o objetivo de preservar a biodiversidade. Elas podem ser de uso sustentável - quando há liberação para extração dos recursos por moradores, respeitando normais específicas - ou de proteção integral – sem usufruto de comunidades.
Antônio Oviedo, coordenador do Programa de Monitoramento de Áreas Protegidas do ISA, e um dos autores do relatório, avalia que além da política nacional de "desmonte" das políticas ambientais, também há um aspecto local:
"Os estados também costumam travar uma guerra fiscal, flexibilizando regras e normas para atrair projetos e investimentos. Na Amazônia, isso reflete em desmatamento".
Veja o recorte para as maiores altas:
130% de alta nas UCs federais
Nos últimos três anos, as UCs federais perderam uma área de floresta 130% maior do que no mesmo período anterior. Segundo o documento, as UCs federais "sofrem com altos níveis de invasões e ilegalidade na exploração de recursos naturais". No caso das UCs estaduais, a alta foi de 50%.
Maiores perdas de área de floresta em 2021 nas Unidades de Conservação Federais
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|
Estado |
PRODES 2021 |
|
FLONA do Jamanxim |
Pará |
18.984,69 |
|
APA do Tapajós |
Pará |
10.587,03 |
|
RESEX Chico Mendes |
Acre |
8.171,08 |
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FLONA de Altamira |
Pará |
5.706,39 |
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ESEC da Terra do Meio |
Pará |
2.716,36 |
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FLONA de Itaituba II |
Pará |
1.567,66 |
|
PARNA do Jamanxim |
Pará |
1.340,04 |
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FLONA do Bom Futuro |
Rondônia |
1.118,35 |
|
RESEX Verde para Sempre |
Pará |
1.097,37 |
|
REBIO Nascentes da S. do Cachimbo |
Pará |
1.053,52 |
Fonte: Inpe (DADOS EM HECTARES)
Entre as 334 UCs federais, 14 representam 90% da perda de vegetação. Dez delas estão no Pará. A Floresta Nacional do Jamanxim, localizada no sudoeste do estado, teve a maior área afetada e apresentou uma alta de 54% na taxa de desmatamento em comparação com o ano passado. Em 2019, após reportagem do Fantástico, o Ministério Público Federal abriu uma investigação para apurar a construção de uma ponte dentro da área.

138% em terras indígenas
Apesar de a taxa de desmatamento entre os relatórios de 2020 e 2021 nas terras indígenas ter caído 18,6%, a soma dos últimos três anos representou uma alta total de 138% nessas áreas.
Entre os 268 territórios analisados, 20 representam 80% do desmatamento.
A bacia do Rio Xingu responde por quase metade de toda a perda de floresta, principalmente nos territórios Ituna/Itatá, Apyterewa, Cachoeira Seca do Iriri, Trincheira Bacajá e Kayapó. Nessa lista, a primeira terra indígena é ocupada por índios isolados; a segunda é a mais desmatada do último ano e passa por processo de redução da área; a terceira, não menos importante, é a que mais perdeu floresta na história do monitoramento do Inpe.
Terras indígenas com maior área de perda de floresta
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|
Estado |
Área (hectares) |
|
Apyterewa |
Pará |
6.771,21 |
|
Trincheira/Bacajá |
Pará |
3.552,79 |
|
Kayapó |
Pará |
2.573,96 |
|
Cachoeira Seca |
Pará |
2.345,38 |
|
Munduruku |
Pará |
2.212,30 |
|
Piripkura |
Mato Grosso |
2.151,98 |
|
Sete de Setembro |
Rondônia/Mato Grosso |
1.478,70 |
|
Marãiwatsédé |
Mato Grosso |
1.039,89 |
|
Kayabi |
Pará |
842,75 |
|
Karipuna |
Rondônia |
669,72 |
Fonte: Inpe
Há, ainda, uma alta impressionante de 9.175% na perda de floresta na terra indígena Piripkura. O território possui um total de 243 mil hectares onde vivem os dois últimos integrantes da mesma etnia. No final de novembro, o g1 noticiou que o avanço da pecuária ameaça a sobrevivência dos indígenas, que vivem isolados no noroeste de Mato Grosso - 15 a 28 fazendas, dependendo do parâmetro utilizado, estão nas áreas não demarcadas do território.
Terras indígenas com maior alta do desmatamento entre 2020 e 2021
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PRODES 2020 |
PRODES 2021 |
VARIAÇÃO EM % |
|
POYANAWA |
0,19 |
29,44 |
15.496 |
|
PIRIPKURA |
23,20 |
2.151,98 |
9175 |
|
RIO URUBU |
0,20 |
14,71 |
7273 |
|
PARACUHUBA |
2,91 |
36,25 |
1176 |
|
MARÃIWATSÉDÉ |
167,20 |
1.478,70 |
784 |
|
JAUARY |
27,24 |
201,90 |
641 |
|
SEPOTI |
30,69 |
197,76 |
544 |
|
P. DOS CANELA-APÃNJEKRA |
1,66 |
9,85 |
495 |
|
SISSAÍMA |
40,31 |
202,73 |
403 |
Fonte: Inpe (dados em hectares)
Histórico
Apesar de o agregado de desmatamento dos últimos três anos demonstrar uma forte alta, a curva do Brasil começou a subir já em 2013. Desde o início do monitoramento do Inpe, o pior ano foi 1995, com 29,1 km² de área perdida. Veja abaixo o gráfico com os dados ano a ano:

Entre 2004 (o segundo pior ano, quando o país tinha uma taxa de 27 mil km²) e 2012 (a mais baixa da história, com 4,5 mil km²), houve um plano de governo criado objetivamente para o combate à perda de floresta: o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). Entre as medidas, estava o fortalecimento das ações de fiscalização.
(G1)
