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Meu pai tinha um pequeno comércio, na década de 1960, à rua da Abolição, em Nova Lima-MG. Lá, vendia secos e molhados. Na verdade, tinha de tudo no micro estabelecimento.
Entre os chamados produtos "molhados", destacava-se a danada da cachaça. Os frequentadores, adeptos da "marvada", passavam quase que o dia inteiro sentados em improvisados assentos. Geralmente, engradados de cervejas e refrigerantes. Molhavam a garganta, de tempo em tempo, com o tradicional aperitivo.
Todos eram bons de prosa, principalmente quando passavam da terceira dose. Os "causos" eram bem interessantes e variados. Atos de heroísmo, namoros inusitados, pescas e caças improváveis faziam parte dos fascinantes repertórios.
Eu era uma criança muito atenciosa. Ouvia de tudo, até sobre o que não podia, e ia formando imagens na minha cabeça, ao escutar aqueles versáteis e criativos comunicadores.
Me lembro de muitas e muitas narrativas espetaculares. Daria, sim, um livro.
Bem, como isso aqui não é um livro e nem sou um escritor, vou escrever apenas sobre um caso, que me serviu como lição de vida.
Vou otimir o nome verdadeiro do contador. Ele afirmava que em Nova Lima, próximo ao bairro Matadouro, existiu uma fábrica artesanal de doce de leite em barra.
Na fabriqueta, trabalhava um senhor, um tal Lourival de Jesus, muito bem remunerado, que chegava apenas ao final do expediente para verificar o ponto ideal do doce para ser retirado dos tachos e derramado nos moldes. Depois, o doce, já formatado, era cortado e embalado. Tudo manualmente.
Durante longos anos, geralmente por volta das 17h, ele batia nos tachos com uma velha bengala e informava aos demais empregados: "Está na hora de ser retirado do fogo " E esse ritual era tudo o que fazia aquele funcionário, dono do maior salário da empresa.
O pouco tempo de permanência no trabalho e a elevada remuneração, invejavam os demais trabalhadores. Isso começou a preocupar um novo chefe. Ele resolveu, então, aproveitando uma viagem do proprietário, demitir Jesus.
Esse "chefão" entendia que, com a demissão, a fábrica iria economizar bastante, pois pensava ele que qualquer outra pessoa poderia aferir o ponto final do doce e por um salário modesto. Era também, na visão do mandachuva, uma maneira eficaz de calar as línguas daninhas e invejosas. Estava errado.
Vários postulantes foram testados e ninguém conseguiu acertar sobre o momento exato de retirar o doce das labaredas do fogão a lenha. Ou o produto saía mole ou muito duro. O dono voltou da viagem e ficou sabendo sobre a demissão de Lourival.
Furioso, demitiu o chefe e tentou recontratar o insubstituível empregado. Era muito tarde.Ele já estava trabalhando numa grande companhia em Belo Horizonte e recusou uma super proposta para retomar os afazeres na fábrica de doce, que acumulou prejuízos e mais prejuízos até fechar as portas.
Não sei se a versão é verídica, mas as lições são bem reais.
Fonte: noticiastudoaqui.com
