O terrível mosquito Mansonia é objeto de nova pesquisa



Dois anos depois da maior infestação ocorrida nas circunvizinhanças da Usina Hidrelétrica Jirau e em Porto Velho, o comportamento do mosquito Mansonia será novamente estudado.

O Mansonia, encontrado do Suriname à Argentina, ainda não causa doenças, mas perfura fortemente a pele das pessoas.

Ao anunciar pesquisa regulada pela Agência Nacional de Energia Elétrica, a empresa Energia Sustentável do Brasil (ESBR) pretende auxiliar a saúde pública.

Segundo o pesquisador e biólogo da Oikos Consultoria e Projetos, Fábio Costa, o envolvimento das comunidades afetadas é fundamental para o êxito do projeto. “Pesquisadores visitarão residências para instalar armadilhas, fazerem coletas e análises necessárias”, disse.

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O Mansonia prolifera atualmente em áreas vizinhas à Mineração São Lourenço, Projetos Joana D’Arc e Santa Rita, Morrinhos e Belmonte. É o maior causador de coceira nas pessoas, ganhando longe do carapanã e do pium.

O gerente de engenharia e planejamento da ESBR, Luís Fea, acredita na possibilidade de elaborar “o protocolo adequado” para reduzir a infestação do mosquito.

Em abril de 2015, a empresa Sapo estudou os hábitos do Mansonia, no momento em que ela já invadia casas por frestas, janelas e telhados em Jaci-Paraná e Nova Mutum-Paraná, a cerca de cem quilômetros de Porto Velho.

Biólogos constataram o aumento dos mosquitos adultos, por causa da profusão de plantas macrófitas em igarapés da região às margens do Rio Madeira. Aguapé, por exemplo, concentrava 85,7% das larvas em 2015.

Além do aguapé, onde eles coletaram 85,7% das larvas, apareciam outras vegetações: Pontederia sp (10,9%) e Paspalum repens (3,4%), ambas comuns no Pantanal Mato-Grossense e na Amazônia.

Em dois bancos de macrófitas encontrados nas margens do Madeira, o Igarapé Ceará apresentou 2,9% das larvas do Mansonia e o Igarapé Flórida 97,1%.

Larvas coletadas com o auxílio de pipetas plásticas foram inseridas em tubos com rosca contendo álcool a 70%. A identificação foi feita no laboratório de entomologia médica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá.

“Ele é mais agressivo que outros já conhecidos na Amazônia, porque ataca os seres humanos quando entram em áreas de floresta”, alertou em 2017 o biólogo Flávio Aparecido Terassini, da Faculdade São Lucas em Porto Velho e mestre pela Universidade de São Paulo (USP).

Terassini pesquisou o Mansonia no período 2001-2003. Até 2011 Até 2001 Terassini coletou mosquitos, barbeiros e carrapatos nos rios Mamoré e Guaporé e, antes da construção das usinas Jirau e Santo Antônio já identificava grande quantidade de mosquitos nas barrancas dos rios. “Um dia coletamos seis mil em uma hora [cerca de 100 por minuto]”, lembra.

Em março de 2017, Jaqueline Coradini levou os repórteres até a casa do pai dela, o paranaense Ademar Artur Coradini, cujo quintal estava repleto de latas vazias de inseticida. Ele usava raquete mata-mosquito, vendidas quase três vezes mais caro que as latas de inseticida. Custavam R$ 35 a unidade.

A Faculdade São Lucas estudou pela primeira vez os mosquitos em parceria com Instituto de Ciências Biomédicas 5 USP em Monte Negro, município do Vale do Jamari, a 248 quilômetros de Porto Velho.

Em fevereiro do ano passado, na região de Nova Mutum-Paraná e Jacy-Paraná, a pedido de um escritório de advocacia de Porto Velho, a bióloga, mestre especialista em meio ambiente Káthia Inaja Pinheiro dos Santos coletou mosquitos Mansonia de três gêneros e quatro espécies.

Ao todo, 810 mosquitos [Diptera: Culicidae], usando-se a metodologia mais adequada para coleta de espécies hematófagas. Por atração humana protegida em Jacy-Paraná: 497 mosquitos; em Nova Mutum-Paraná: 313.

Em Nova Mutum-Paraná, Khátia dos Santos coletou apenas dois gêneros. Espécimes do gênero Mansonia foram outra vez os mais frequentes e numerosos nas amostras, representando 311 mosquitos (99,4%).

“Os valores do índice de picadas por homem hora variaram entre 17.0 e 64.00, o que quer dizer que no horário de menor quantidade estima-se 17 mosquitos picando uma pessoa e uma hora depois, segundo horário de 64.0 mosquitos picando uma pessoa/h”, revela o estudo da bióloga.

Nº DE MOSQUITOS

GÊNERO

ESPÉCIMES

%

IPHH

P1 = 1º hora de coleta

Mansonia

17

8.7

17,0

P2 = 2º hora de coleta

Mansonia

64

23.8

64,0

P3 = 3º hora de coleta

Mansonia

42

16.7

42,0

P4 = 4º hora de coleta

Mansonia

37

15.1

37,0

P5 = 5º hora de coleta

Mansonia

45

17.7

45,0

P6 = 6º hora de coleta

Mansonia

46

18.0

46,0

Número de indivíduos do gênero Mansonia coletados por hora, no distrito de Nova Mutum Paraná, no dia 13 de fevereiro de 2017, e sua frequência.
IPPH = índice de picada homem/hora.

“Dentre os Culicídeos coletados em Jaci Paraná, o gênero Mansonia sp. contribuiu com 96,8% dos indivíduos, distribuídos em seis horários, sempre em maior porcentagem, provavelmente picando as pessoas”.

“O índice de picadas por homem/hora foi maior no quinto horário. O IPHH geral destas localidades foi de 70.0 m/h/h no primeiro horário e de 87.0 m/h/h no quinto horário. Ou seja, existe um ambiente com maior probabilidade de perturbação para as pessoas”, ela constatava.

QUEM PARTICIPA

“Pesquisa Mansonia e você”, anunciada esta semana pela ESBR, conta com os seguintes parceiros: Fundação Amazônica de Defesa da Biosfera, Instituto Nacional e Pesquisas da Amazônia, Universidade Federal de Rondônia, Universidade Federal do Acre. Fundação Oswaldo Cruz, Instituto de Pesquisas Tropicais de Rondônia, Instituto Evandro Chagas e Oikos Consultoria e Projetos.

 

MONTEZUMA CRUZ
Com fotos de Ytalo Andrade. A foto da área desmatada em Porto Velho  é do Greenpeace.



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