Comunidade indígena vê sonho de cultivar a terra e gerar renda com a implantação de Sistema Agroflorestal



Comunidade indígena Cassupá Salamãi vê sonho de cultivar a terra ganhar forma com implantação de Sistema Agroflorestal

 

Localizada às margens da BR-364, no perímetro urbano de Porto Velho, a comunidade indígena Cassupá e Salamãi é composta hoje por 14 famílias, numa área de cerca de cinco hectares. Além da demarcação e posse definitiva do território, eles sonham em trabalhar na própria terra e dali poder tirar e ampliar a segurança alimentar das famílias. Sonho que começa a ganhar forma com a implantação de um sistema agroflorestal comunitário, idealizado pela Organização dos Povos Indígenas Cassupá e Salamãi (OPICS), que para ser implantado contou com a parceria da Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), Instituto Socioambiental (ISA) e Redário (articulação entre redes e grupos de coletores de sementes).

Antes das 7h da manhã o movimento na área preparada para o plantio, um antigo campo de futebol, já era intenso. Bocas de lobo cavando em sincronia, mudas sendo posicionadas de acordo com o croqui que mostrava a modelagem do SAF preparado junto com a comunidade, e a mão de obra voluntária chegando uma a uma para se juntar ao mutirão de plantio, realizado no último dia 15 de dezembro.

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Aos 70 anos, liderança mais antiga do povo Cassupá, seu José Inácio Cassupá foi um dos primeiros a chegar e só arredou o pé após a última muda plantada. Para ele, o sentimento era de realização. “Há tempos que a gente andava procurando uma entidade que pudesse ajudar a gente na restauração do campo ou mesmo numa plantação, porque essa terra aqui já pertenceu a nós”, conta ele, já imaginando como estará a área num futuro próximo e o legado que fica para as próximas gerações. “Daqui há um ou dois anos espero ver mais evoluído, ver o futuro das nossas crianças aqui. A gente vai fazendo, vai construindo e deixando para os próximos

Presidente da OPICS, Selmo Cassupá de Sousa vê no projeto, além da reconversão produtiva da área, a possibilidade de geração de alimento e renda para as famílias da comunidade. Ele conta que, devido a limitação do tamanho da área, a maioria dos moradores acabam tendo trabalhos informais fora da comunidade como fonte de renda. “E isso aqui [o SAF] vai ajudar muito na geração de renda e alimentos para essas famílias. A gente espera daqui já alguns meses poder colher os frutos daqui, poder ajudar na alimentação e vender”, projeta.

O projeto de implantação do SAF vai diretamente ao encontro dos desejos da comunidade, visando exatamente melhoria da qualidade de vida e renda deles, tendo os sistemas agroflorestais como ferramenta para a promoção da segurança e autonomia alimentar, geração de renda e mitigação das mudanças climáticas. 

O modelo pensado para a área inclui espécies florestais nativas e culturas anuais de vários ciclos. A engenheira agrônoma e Presidente da Ecoporé Sheila Noele explica que a ideia é que, a partir do arranjo produtivo proposto, a comunidade extraia alimentos e renda da área durante quase todo ano. “Aqui as espécies principais de curto e médio prazo são o abacaxi e a banana, então ano que vem essa área já estará produzindo e a comunidade vai poder consumir, vai poder vender, trocar entre si os produtos daqui”, explica. Noele reforça que a implantação do SAF é uma iniciativa da própria comunidade. A Ecoporé, Isa e demais parceiros são o aporte financeiro e técnico para o pontapé inicial.

Marcelo Ferronato, coordenador técnico da Ecoporé, ressalta que além da produção de alimentos, o uso de adubação verde, como o feijão de porco, é fundamental para o sucesso da área, uma vez que esta planta fixa nitrogênio, elemento fundamental para o crescimento das demais plantas do sistema. “A banana, por exemplo, para crescer e produzir consome muito nitrogênio e o feijão de porco disponibiliza este nutriente de graça, sem ter que adicionar adubo químico na área como a uréia, o que aumenta a rentabilidade da produção ao reduzir o custo com insumos externos".

Além disso, a expectativa é de que a comunidade possa colher cerca de 500 quilos das sementes de feijão de porco daqui a cerca de cinco a seis meses. "E essa produção será totalmente adquirida pela Rede de Sementes da Bioeconomia Amazônia (RESEBA), uma iniciativa da Ecoporé para dar suporte a restauração de ecossistemas por meio da semeadura direta", finaliza Ferronato.

A ação em Porto Velho faz parte de um projeto maior, que acontece também nos estados de Roraima, Mato Grosso e Pará, realizado pelo Instituto Socioambiental com apoio da União Européia, inclui a parceria com instituições locais parceiras, que consiste na implantação, estudos e disseminação de modelos de restauração econômica com diversidade de espécies, a fim de aliar os benefícios ecológicos, geração de renda e segurança alimentar, explica a analista sênior de restauração ecológica do ISA.

Assessoria



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