O DESENROLA NÃO DESENROLA



O DESENROLA NÃO DESENROLA

O Desenrola surgiu com a promessa de aliviar a vida financeira dos brasileiros em um país marcado por crédito caro, renda comprimida e inadimplência crescente. Contudo, o programa não enfrenta as causas reais do endividamento. Seu principal problema é trabalhar com parâmetros distantes da realidade das famílias ao focar em dívidas muito baixas, como débitos de até R$ 100,00 ou o uso limitado do FGTS. Na prática, o endividamento no Brasil é estrutural e envolve valores muito superiores, inclusive entre os mais pobres. Antes do programa, em maio de 2023, o país possuía 71,9 milhões de inadimplentes. Após renegociações e exclusão de pequenos débitos, cerca de 15 milhões de pessoas foram beneficiadas. Ainda assim, em março de 2026, o Brasil atingiu novo recorde: 82,8 milhões de inadimplentes. Ou seja, o problema retornou ainda maior. O Desenrola produz apenas alívio temporário, sem alterar as condições que geram o endividamento.

O erro central está em tratar a inadimplência como algo passageiro, quando ela decorre de fatores permanentes: baixo poder de compra, inflação do custo de vida e juros elevados. Para milhões de famílias, o crédito deixou de ser instrumento de consumo e passou a funcionar como complemento de renda. Cartão de crédito e cheque especial financiam despesas básicas como alimentação, energia e água. Com juros entre os mais altos do mundo e forte concentração bancária, pequenas dívidas rapidamente se transformam em bolas de neve. Ao limpar o nome do consumidor sem elevar renda nem reduzir juros, o programa apenas devolve o cidadão ao mesmo sistema que produz nova inadimplência. O ciclo se repete: endividamento, renegociação, breve alívio e novas dívidas. Além disto, sucessivos programas de renegociação criam expectativa de futuros descontos, enfraquecendo a disciplina de pagamento.

O uso do FGTS revela outro equívoco. Criado para proteger o trabalhador e financiar habitação e infraestrutura, o fundo passa a cobrir distorções do sistema financeiro, reduzindo recursos importantes para investimentos e empregos. Por isto, o Desenrola tem caráter apenas paliativo. Sem aumento real da renda, redução consistente dos juros, maior concorrência bancária, educação financeira e crédito sustentável, o programa funciona como analgésico: reduz momentaneamente a dor, mas não cura a doença. A inadimplência no Brasil não é um fenômeno marginal, tampouco concentrado em pequenos valores ocasionais. Ao atuar sobre valores simbólicos, o Desenrola cria a ilusão de solução, mas não altera o quadro real.

(*) Doutor em Desenvolvimento Sócio-Ambiental pelo Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA) da Universidade Federal do Pará e Editor Associado do projeto A Ótica da Razão.

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Silvio Persivo (*)



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