Estudo dos americanos William Kaelin e Gregg Semenza e do britânico Peter Ratcliffe trazem esperança para o combate ao câncer
RIO — O Instituto Karolinska, responsável pelo Prêmio Nobel de Medicina desde 1901, premiou na manhã desta segunda-feira os médicos William G. Kaelin Jr, Peter J. Ratcliffe e Gregg Semenza pelos estudos que levaram a descobertas em como as células humanas se adaptam à disponibilidade de oxigênio. O anúncio foi feito em Estocolmo, na Suécia. É a 110ª premiação da categoria.
É a 38ª ocasião em que três pessoas são laureadas com o Nobel de Medicina na mesma ocasião. Semenza e Kaelin são americanos, enquanto Ratcliffe é britânico. Os vencedores foram avisados por Thomas Perlmann, secretário do Comitê Nobel, por telefone. Eles receberão o prêmio de 9 milhões de coroas suecas, o equivalente a 913 mil dólares (R$ 3,7 milhões).
O estudo dos três médicos, segundo o Comitê Nobel, composto de 50 acadêmicos, determinou importantes descobertas em torno do oxigênio no organismo humano e abriu portas para o combate ao câncer, anemia e outras doenças. Semenza, Kaelin e Ratcliffe demonstraram como os níveis de oxigênio afetam o metabolismo celular e as funções fisiológicas.
Nas redes sociais, o Nobel divulgou uma foto de Ratcliffe no momento em que tomou conhecimento da premiação.
— The Nobel Prize (@NobelPrize) 7 de outubro de 2019
No ano passado, o Nobel premiou o americano James Alisson e o japonês Tasuku Honjo pelo estudo de mecanismos do sistema imunológico capazes de reduzir ou bloquear o avanço de células cancerígenas.
Os vencedores
Kaelin tem 61 anos e nasceu em Nova York. Se especializou em oncologia na Universidade Johns Hopkins, em Baltimore (EUA), e no Instituto de Câncer Dana-Farber, em Boston. Desde 2002 atua como professor de Harvard, universidade onde o colega Gregg Semenza, 62, se formou — mas em Biologia. Também nascido em Nova York, Semenza fez mestrado em Medicina e hoje é professor da Johns Hopkins.
Ratcliffe, por sua vez, é médico formado na Universidade de Cambridge, no Reino Unido. É docente da Universidade de Oxford, uma das mais renomadas do mundo, desde 1996. Aos 65 anos, é o mais velho do trio. Desde 2002, ele é membro da Royal Society, a organização científica mais antiga do planeta, e detém ainda o título honorífico de Sir, concedido pela Rainha Elizabeth II.
Os prêmios, idealizados por Alfred Nobel, incluem outras categorias que serão anunciadas ao longo da semana. O Nobel de Física será anunciado nesta terça-feira. O de Química, por sua vez, será divulgado na quarta. Literatura e Paz serão revelados, respectivamente, na quinta e na sexta-feira. O indicado de Economia ficará para a próxima segunda-feira.
Histórico
A pesquisa em torno do oxigênio, que compõe cerca de um quinto da atmosfera terrestre e é fundamental para o organismo dos animais, permeia a história do Nobel da Medicina: o gás norteou aos prêmios das edições de 1931, que premiou Otto Warburg, responsável pela definição da conversão do alimento em energia pelas mitocôndrias como um processo enzimático, e o de 1938, quando Corneille Heymans foi prestigiado pela demonstração da influência da comunicação do oxigênio no sangue com o cérebro sobre a respiração por meio da carótida.
A descoberta de Heymans, no entanto, não se resume à única adaptação fisiológica das células em relação ao oxigênio. Cientistas observaram que níveis baixos de oxigênio (hipóxia) são respondidos com um aumento na produção do hormônio eritropoietina, que, por sua vez, amplia a criação de glóbulos vermelhos. Semenza vinha se dedicando a entender o gene do hormônio e sua relação com a regulagem de oxigênio desde a década de 1990.
Posteriormente, o americano se juntou a Peter Ratcliffe para aprofundar os estudos em torno da regulação da eritropoietina. A parceria com William Kaelin, no entanto, não estava nos planos, mas se mostrou vital para a consolidação da pesquisa que os levou até o Prêmio Nobel.
Kaelin, à época voltado para a Síndrome de von Hippel-Lindau, uma doença genética rara, observou que o gene respondia a condições de hipóxia e realizou testes com proteínas que o compõem. O processo permitiu detalhar a regulação das células a partir dos níveis de oxigênio.
Fonte: O Globo