A Venezuela tem a maior inflação das Américas e deve chegar a 500%



 

Se o mundo pós pandemia vê na retomada do comércio a chance de recuperação da economia, na Venezuela o poder de compra foi corroído pela inflação mais alta das Américas e uma das maiores do mundo.

O país – que tem a maior reserva de petróleo já descoberta no planeta – vive uma contradição: não consegue sair da longa crise econômica nem com o aumento da cotação do barril no mercado internacional, provocado pela guerra na Ucrânia.

E a questão política é o fator fundamental para isso. Os governos de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro apostaram em medidas populistas e autoritárias, como a ameaça de dissolução do Assembleia Nacional e o controle de preços. Não houve investimento em outros setores, principalmente no industrial.

“Perseguição à empresas privadas, então isso desestimula o investimento. Então você tem uma situação de um desastre econômico tamanho que é uma coisa inédita no país em paz, né, quer dizer, um país que não esteja em guerra”, afirmou o professor Carlos Gustavo Poggio.

Chávez cerceou o direito da imprensa livre – inclusive não renovando a concessão do maior canal de televisão da Venezuela – e dificultou a vida da oposição, com ações judiciais.

Na economia, obrigou as multinacionais a entregar parte do controle das empresas ao Estado.

Nicolás Maduro, assumiu a presidência depois da morte de Chávez, em 2013. Foi reeleito em 2020, com eleições questionadas por vários países do chamado Grupo de Lima, incluindo o Brasil, que reclamaram da falta de garantias mínimas de um processo democrático.

Maduro manteve a fórmula do governo: pouco espaço para a oposição na política. E aumentou ainda mais a perseguição à imprensa.

Só neste ano, o governo fez pressão para o fechamento de sete veículos de comunicação.

“O Maduro ele acaba apostando em algumas ferramentas que foram as que justamente aquelas que contribuíram para o desastre da economia venezuelana, né? Você coloca cada vez mais o setor de petróleo totalmente no centro da economia do país ao invés de tentar buscar uma diversificação”, explicou Poggio.

Resultado de tudo isso: em 2019, com o auge da crise da fome no país, a Organização Internacional para as Migrações alertou para a pior crise de refugiados já vista na América do Sul: 4,5 milhões de venezuelanos deixaram o país, o que, na época, representava pouco mais de 16% da população.

A revolta tinha dois principais motivos: a desvalorização da moeda nacional, o bolívar, que perdeu 14 zeros desde 2008, e a escassez de produtos básicos nas prateleiras.

Com a economia definhando, as multinacionais saíram em peso, abrindo caminho para pequenos empreendedores.

Eu conversei com um deles, Isaac Delgado, que pertence a uma seleta lista de microempresários que resistiu à onda de falências.

Dono de duas pequenas fábricas – uma que produz roupas e a outra plásticos – ele sofre com o grande vilão de todo país em crise financeira: o aumento de impostos.

“Temos impostos… E materiais em dólar… Coisas que temos de somar ao custo. Estamos chegando a um ponto em que os impostos estão exageradamente elevados para qualidade de economia que temos, agora”, afirmou Delgado.

Em 2021, a inflação chegou a quase 700% (686,4%), de acordo com dados oficiais.

E a previsão do FMI, o Fundo Monetário Internacional, é de que feche 2022 em 500%. Uma pequena melhora que ainda não alivia o bolso da população.

Luis Oliveros é professor de economia da Universidade Metropolitana de Caracas, capital da Venezuela. Em entrevista à CNN, ele explica que o governo federal não sabe administrar a riqueza que tem.

“Não é sinônimo ter muitos recursos e ter muita riqueza. Há países que aprenderam a administrar suas riquezas, caso da Noruega, caso da Austrália… E mesmo os Estados Unidos. Venezuela é um dos casos em que há uma má administração desta riqueza, que no caso é o petróleo, que gerou problemas econômicos muito graves: hiperinflação, recessão…”, afirmou Oliveros.

O gatilho foi em 2009, quando o PIB (Produto Interno Bruto) venezuelano tomou a primeira rasteira, por conta da crise financeira global. A cotação do barril de petróleo caiu mais de 70% em questão de meses.

“Essa dependência [ao petróleo] é muito séria, porque ela impõe instabilidades e flutuações indesejáveis, e tem impactos políticos.”

Hoje, a Venezuela enfrenta a maior recessão da sua história. São 12 trimestres seguidos de retração econômica. De 2013 a 2017, o PIB venezuelano teve queda de 37%.

Para o economista falta planejamento, por parte do estado: “Neste ano de 2022, a economia perdeu 80% do tamanho com relação a 2013. É uma economia que não tem controle.”

Um dos maiores desafios da Venezuela é encontrar uma fórmula para reverter a inflação de três dígitos, mas não há nenhum sinal de que isso esteja para acontecer.

O que está acontecendo é que a economia venezuelana está indo para trás, está decaindo”, disse Poggio.

“Afeta tua saúde, afeta teu estado de ânimo. Muita coisa, muita coisa”, lamentou Delgado.

(CNN)



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