As áreas cobertas por plantações dobraram no Brasil entre 2000 e 2014, e pelo menos 20% dessa expansão agrícola ocorreu sobre vegetação nativa, segundo um novo estudo realizado por cientistas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Nesse período, a conversão de áreas naturais em plantações foi maior no Cerrado: 2,4 vezes mais que na floresta amazônica, de acordo com a pesquisa.
Os pesquisadores utilizaram a análise detalhada de um grande banco de dados de imagens de satélites para realizar o estudo “Near doubling of Brazil’s intensive row crop area since 2000”, publicado no fim de dezembro de 2018 na revista científica PNAS.
Do total de novas áreas abertas para plantações no Brasil no período estudado, 79% ocuparam antigos pastos, enquanto 20% avançaram sobre áreas de vegetação natural, de acordo com Viviana Zalles, primeira autora do estudo.
“Ainda assim, a destruição da vegetação original foi grande, especialmente no Cerrado, onde a conversão de vegetação natural em plantações foi cerca de 2,4 vezes maior que na floresta amazônica”, disse a pesquisadora a Direto da Ciência.
Embora o aumento percentual das áreas de cultivo tenha sido bem maior na Amazônia que no Cerrado (704% e 81%, respectivamente), a expansão da agricultura sobre áreas naturais foi de 1,18 milhões de hectares (Mha) no primeiro bioma e de 2,64 Mha no segundo, como mostra o quadro a seguir.

permaneceu baixa na Amazônia, enquanto aumentava fortemente na região do Cerrado, onde as proteções ambientais são reduzidas. É bem possível que isso (a redução na Amazônia) não tivesse acontecido sem a moratória da soja.
CONVERGÊNCIA DE RESULTADOS
As principais conclusões dos pesquisadores americanos – como a escala do crescimento das áreas agrícolas no país, o avanço predominante sobre as pastagens e o impacto proporcionalmente maior sobre os ambientes naturais do Cerrado – são coerentes com os números obtidos pelo Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil (MapBiomas), realizado por pesquisadores brasileiros ligados ao Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima.
“O MapBiomas corrobora esses achados. Houve, mesmo durante aqueles anos, no Brasil, um aumento muito grande da área dedicada à agricultura, que é o carro-chefe da economia do país. E, de fato, houve grande expansão sobre os pastos”, disse Ane Alencar, pesquisadora responsável pelas pesquisas sobre o cerrado no MapBiomas.
“Mesmo no Cerrado, a expansão sobre pastagens foi muito grande – 7,7 Mha, cerca de 74% do aumento de áreas agrícolas no bioma. Mas ali o avanço das áreas agrícolas de modo geral foi enorme e, sem dúvida, foi o bioma que sofreu mais impactos”, disse a Direto da Ciência a pesquisadora, que é diretora de Ciências do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.
BOA NOTÍCIA
Para a pesquisadora brasileira, o estudo dos EUA traz uma boa notícia ao sugerir que o Brasil pode ter aumentado muito sua área de produção agrícola sem aumentar o desmatamento. “É uma mensagem muito importante do estudo: é possível desenvolver a agricultura e a economia sem desmatar”.
Segundo Viviana, apesar da melhor situação atual da Amazônia, em comparação ao Cerrado, não é possível afirmar que a expansão agrícola hoje não cause danos à floresta amazônica.
“Antes de 2006 ou 2007, a destruição da floresta era a principal fonte de novas áreas agrícolas na Amazônia. Só depois disso as plantações começaram a substituir pastos, em vez de floresta. No entanto, quando as plantações substituem os pastos atuais, novas áreas de pastagem precisam ser criadas para substituir a terra que foi perdida. Assim, é possível que mais florestas sejam devastadas para abrir espaço para novos pastos”, explicou.
Ela afirma ser possível que o impacto da expansão agrícola na Amazônia tenha se tornado um processo de múltiplos estágios: as florestas são derrubadas para abertura de novos pastos, mais tarde as plantações substituem antigos pastos e, por fim, novos pastos substituem mais áreas florestais.
“Um fator que pode mitigar esse processo é a intensificação cada vez maior do uso de pastos e plantações no Brasil, incluindo a integração de ambas as atividades em diversas escalas. O aumento da produtividade por unidade agropecuária já está em curso e provavelmente terá um impacto futuro nas taxas de mudança de uso da terra”, disse.
FÁBIO DE CASTRO
Blog Direto da Ciência
Com foto de Nivaldo Ferri (Emater-GO)