Um intelectual e o PT



O primeiro texto que li de Wanderley Guilherme dos Santos, um dos mais importantes e atuantes cientistas políticos brasileiros, que morreu no último sábado, aos 84 anos, de uma pneumonia. 

Foi Quem dará o golpe no Brasil?. Era o seu primeiro livro, em formato pequeno, como um guia de introdução ao tema, publicado em 1962, na coleção Cadernos do Povo Brasileiro, da Editora Civilização Brasileira, de Ênio Silveira. Wanderley integrava o famoso ISEB (Instituto Superior de estudos Brasileiros), criação de inspiração francesa, surgido sob o populismo desenvolvimentista e otimista de JK, sintomaticamente na primeira linha de perseguição e repressão do regime militar de 1964.

Não li seu último livro (por falta de acesso ao volume) A democracia impedida: o Brasil do século 21, de 2017, que dá ao impeachment de Dilma Rousseff o tratamento de golpe, mas com uma sofisticação – a julgar pelas notícias que li a respeito – inexistente nas intervenções majoritárias da esquerda, sobretudo dos acadêmicos que promoveram o curso doutrinários nos campi universitários.

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A extensa obra compreende 32 livros e dezenas de artigos, cuja leitura ajuda a acompanhar e compreender meio século da vida brasileira, incluindo dois que destaco: Sessenta e Quatro: anatomia da crise, de 1986, e Crise e Castigo: partidos e generais na política brasileira, do ano seguinte.

Reproduzo abaixo um dos últimos textos de Wanderley Guilherme, de um ano atrás, que motiva um debate mais profundo sobre o PT, Lula et caterva, a partir de uma provocação elegante, irônica, bem humorada e – acima de tudo – bem informada e culta. De um verdadeiro intelectual, com suas crenças, convicções e partidarismos, mas pluralista e inteligente.

 

O PT E NÓS

A maioria do eleitorado em festa pela vitória de Lula, em 2002, não imaginaria que chegaria a 2018 com o PT comprometido por associação com os crônicos predadores da economia popular. A fúria persecutória da Lava Jato, conseguindo encarcerar sem provas um grande líder popular, propiciou a armadura emocional de que se vale grande parcela daqueles eleitores de 2002 para recusar audiência a argumentos críticos ao PT ou a Lula. A discordância política transformou-se em heresia religiosa.

Contudo, é incontroverso que as políticas sociais, aquelas que “colocaram o povo no orçamento”, e de que se orgulham os líderes partidários, surgiram sem afetar a margem de lucro do grande capital. Ao contrário, a expansão dos negócios industriais e bancários adquiriu brilhante dinamismo, à custa dos ganhos da exportação. O mundo absorvia commodities com voracidade pantagruélica e desse fluxo beneficiou-se o governo Lula “sem tocar no lado da receita do Estado”, como admitiu Fernando Haddad, questionado por Ciro Gomes em debate televisionado. 

Não era pilhéria quando Lula reagia às campanhas contra ele e seu partido com a indagação: por que os ricos não gostam de mim? Lula, o fantástico e implacável intuitivo, nunca captou o conceito de luta de classes, limitado pelo horizonte sindicalista que reduz os conflitos à negociação sobre reposição de perdas inflacionárias.

Cabem aplausos à distribuição da fartura ocasional entre os pobres e miseráveis, posto que, em circunstâncias similares, os governos mantinham a periferia fora da repartição. Mas a “receita que ficou intocável” se refere a políticas de efetiva distribuição de renda, alterando a contribuição proporcional do trabalho e do capital à acumulação econômica. Nem foram os pobres incluídos em programas institucionalizados, resistentes a ataques conservadores quando virasse a maré. Pois a maré virou e em dois anos desmontou-se a rede petista de proteção social.

A expedição de reconquista do poder haveria de considerar os novos parâmetros do conflito distributivo, produtores das desigualdades e da pobreza no século XXI, século da ambição capitalista de desqualificar a relevância do trabalho humano na reprodução da espécie. 

O PT de hoje perdeu-se na nostalgia de um tempo feliz absolutamente vulnerável, desconhece as razões estruturais do conflito atual, e propõe a mesma estratégia de governo: retomar o realejo do passado, com acenos a medidas que nem são ousadas. Pior: com a mesma fórmula de governança. 

De um lado, em sociedade com os velhos cupins da economia pública que, em pagamento, depuseram Dilma Rousseff; de outro, com promessa de apaziguamento e pedido de benevolência aos donos do capital. A campanha do PT, hoje, visita escritórios atapetados mais do que amassa barro em porta de fábrica.

Finalmente, os eleitores que promoviam as festas mais alegres e hospitaleiras das cidades, nos idos dos anos 2000, foram substituídos por leões de chácara emocionais, salivando contra alegados heréticos, exatamente como a direita, sem tirar nem por. De concessão em concessão, o PT transmitiu a seu eleitorado o dogma de que não se anda ao lado do povo sem a companhia de ladrões. Isso é falso, mas o novo eleitor petista segue o teólogo medieval Tertuliano: crê porque é absurdo.

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Belém



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