Nina nem sabia o que significava bullying, mas sofreu agressão por causa do sobrepeso: um colega a agrediu e chamou a menina de “porca” e “rolha de poço”
![]() |
Marina, seu nome real, nasceu em Volta Redonda, Rio. Não conheceu os pais biológicos e foi deixada com a família adotiva ainda bebê. Da infância, ela se lembra com carinho das brincadeiras com o pai de coração, morto por um câncer no pâncreas há cinco anos, mas também guarda memórias tristes.
Aos 8 anos, Nina nem sabia o que significava bullying, mas sofreu agressão por causa do sobrepeso: um colega a agrediu e chamou a menina de “porca” e “rolha de poço”. “Essa é a pior lembrança que tenho. E as escolas não tinham uma participação tão assídua nem puniam muito”, conta.
Nem entre os parentes a forma física deixou de ser motivo para ataques. “Quando acontece na família, é um pouco pior, porque você convive com eles, né? Tios, primos mais velhos… Então começa a se questionar: ‘Será que estou gorda mesmo?’, ‘Preciso ficar sem comer?’. Muito cruel”, diz a modelo.
Briga com o espelho
Humilhada na escola e na família, Nina decidiu que precisava emagrecer, caso quisesse seguir a carreira de modelo. O sentimento ficou mais forte na adolescência. “Com 15 anos, comecei a tentar ficar sem comer. Modelo era magra! Desde pequena, já colocavam na minha cabeça que precisava parar de comer e ser magra. Isso é uma construção, infelizmente.” Nina iniciou como modelo de cabelo aos 16 anos. Na época, não existia o segmento plus size.
Já com distúrbio de imagem, desenvolveu anorexia. “Eu me olhava no espelho e não estava satisfeita. Perguntava para o namorado se os meus ossos estavam aparecendo. E eu achava maravilhoso ver os ossos da coluna. Desenvolvi bulimia também e depressão”, continua.
A alimentação errada levou a jovem com frequência ao hospital, vítima de infecções. Aos 21 anos, após uma espécie de reabilitação, com auxílio de médicos e psicólogos, passou a ressignificar o conceito corporal que tinha. “Não saía mais da cama por causa da depressão. Comecei a sentir dores por todo o corpo. Aí comecei um tratamento de aceitação e psicológico. Foi perto da morte”, lembra Nina.
Com 25 anos, ela criou perfis em redes sociais para divulgar seu trabalho como modelo e conheceu o segmento no qual teria mais sucesso. “Pesquisei a respeito do assunto. Eu havia voltado ao peso original, estava fazendo tratamento psicológico e psiquiátrico e conheci o Miss Plus Size.”
Nos Estados Unidos, uma mulher é considerada plus size a partir do manequim 40. No Brasil, esse padrão é considerado a partir do número 44. Nina resolveu se inscrever e foi selecionada para representar o Rio. “Com a cara e com a coragem, venci o concurso e minha vida mudou.” Antes do prêmio internacional, ela havia sido campeã plus size no Rio e no Brasil.
“Não é porque somos plus size, gordas, que somos doentes. Lutamos contra esse estigma. No Brasil, mais da metade da população tem sobrepeso. Todos os corpos são reais, então, por que a gente não pode ser?”, indaga a modelo. “Depois do Miss Brasil, passei a me cuidar muito mais porque passei a ser um ponto de referência. Não deixo de comer as coisas que gosto, porque é uma tortura, mas não posso ser exemplo estando doente”, conclui. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo
