Adeus, Audálio Dantas. Jornalista e ex-deputado federal, morre aos 88



O alagoano Audálio Dantas, que morreu (*) em São Paulo, aos 88 anos, foi o homem mais importante do Brasil na semana da morte de Vladimir Herzog, em outubro de 1975.

A ditadura estava num dos seus momentos de brutalidade desenfreada, de violência bestial, clima que explica a execução do frágil jornalista sob tortura selvagem e a encenação para o álibi de suicídio. Já fora corajosa a decisão de Audálio de assumir a presidência do maior sindicato de jornalistas do País.

A imprensa era alvo constante das pressões e agressões do regime. Mas o que ele fez era então simplesmente inimaginável.

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Com cautela e serenidade, mas altivez e determinação, seu comportamento não deixou dúvida: ele não engoliria a versão oficial de que Herzog se suicidara momentos depois de se ter apresentado espontaneamente para ser interrogado pelo DOI-Codi, o topo da engrenagem de repressão armada do Leviatã castrense. Nem a pior das acusações que pudesse ser feita contra ele podia levar à suposição de que seria torturado e morto.

Herzog foi o instrumento dos porões incontrolados ao presidente que autorizava a tortura, mas não a queria caótica. Teria que se ajustar à voz de comando do general Ernesto Geisel, cioso da sua autoridade, desde seus primórdios como anfíbio (em parte militar, em parte político)conivente com a tortura.

Audálio emprestou a sua figura respeitável para avalizar a presença de quem quisesse participar do sepultamento de Herzog. Não foram tantos os que compareceram ao cemitério (com um tenso olhar de medo), mas foram muitos se o guia se o guia fosse alguém menos afirmativo estivesse no comando das ações.

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E foram milhares os que foram ao ato ecumênico do sétimo dia, na catedral da Sé, contornando as barreiras da polícia e a ameaça dos cães, agora sob as bênçãos de dom Paulo Evaristo Arns e do rabino Harry Sobel (não lembro do nome do pastor e estou emocionado demais para ir ver no Google).

As pessoas, que chegaram tensas e intimidades ao templo, cresceram diante do ambiente solene e das palavras irradiantes de coragem de Audálio e dos celebrantes. Na reversão do estado de espírito, de intimidação para reação indignada, o vento da democracia, soprado pela coragem cívica, se espalhou pelo país e a linha dura começou a se desfazer, os porões a serem abandonados e a luz da liberdade a surgir no horizonte.

Graças ao alagoano Audálio Dantas, uma das pessoas mais generosas, boas e sensíveis que conheci. Um jornalista com inteligência e alma, guiada por um olhar apurado pela percepção do íntimo das pessoas.

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Anos depois, ele me ligou, de São Paulo para Belém. Queria um texto meu de linha de frente para uma antologia de reportagens que estava organizando e que resultou no belo livro Repórteres, publicado pelo Senac. No que escrevi, me comparei a um bombeiro, correndo de um front para outro na fronteira amazônica, ora atrás do fogo literal que consome a floresta, ora do fogo saído de armas a explosão que liquida seres humanos.

Cinco anos atrás, nos reencontramos em São Paulo para recebermos nossos prêmios e lançarmos nossos respectivos livros, o dele sobre Herzog e o meu sobre a Amazônia, sua generosa dedicatória tinha a marca do homem que pode ser o mais humilde que é possível ser por saber que não precisa reivindicar a própria grandeza. Ela lhe é inata.

E persistirá associada ao seu nome enquanto houver de seus acompanhantes vivos (e dos que o acompanham pela sua obra) para testemunhar: conhecer Audálio Dantas foi uma honra e um prêmio valioso.

 

(*) O jornalista morreu em 30 de maio.

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal
Belém (PA)



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