A mitologia da antiga Grécia é flor de estufa da sabedoria mais profunda e até hoje traça o caminho de quem investiga a alma humana. E direi então que, se Cármen Lúcia é a Medusa, Edson Fachin é o seu Cérbero, o cão do inferno de três cabeças.
No caso, permito-me um retoque à trama grega, pois, pelo que sei, parceria não houve entre o monstro e o animal terrificante. Agora está claro, porém, que a dupla pode agir ao sabor de uma aliança feroz para manter Lula onde se encontra, condenado sem provas e preso contra a lei.
Cérbero, digo, o citado Fachin, nesta encenação confirma-se como subdoloso ser de muitas faces e dentes afiados. Nascido em Rondinha, Rio Grande do Sul, 5,5 mil habitantes, saiu da sua aldeia, mas esta não saiu dele. Assim emergiu a cabeça do provinciano recalcado em busca de ascensão.
Advogado de causas justas, não se sabe se por fé ou oportunismo, Fachin acabou por defender publicamente a legitimidade de ações do MST, organização que muitos encaram como subversiva. Para chegar a envergar a toga do Supremo, Fachin recorreu à recomendação de João Pedro Stedile, líder dos sem-terra.
Recomendação importante junto à presidenta Dilma, talvez decisiva. E Fachin chegou lá. Ao assumir o papel desempenhado pelo falecido Teori Zavascki, a relatoria da Lava Jato, ele mostrou os dentes, a contar com o incentivo da Medusa.
As figuras mitológicas assumiram carne e osso para fazer o jogo dos golpistas empenhados em explorar a demência do País e vendê-lo a preço de ocasião. Enxovalham impunemente, e diria mesmo coerentemente, uma dita Alta Corte em proveito do Brasil da casa-grande e da senzala.
As razões do ódio desvairado a Lula, tão bem representado pela Medusa e seu Cérbero, merecem um estudo capaz de atingir as raízes. Não basta limitar-se ao ódio de classe e à crença, alimentada também por muitos pobres, de que presidente da República tem de ser doutor.
Não basta entender que inúmeros brasileiros graúdos enxergam no ex-presidente e no seu partido a força maligna que levaria à comunistização do Brasil ou a uma forma de chavismo verde-amarelo.
MINO CARTA
Editor da revista Carta Capital