Viriato Moura desnuda o cotidiano, com microcontos



Descontos – Nano e microcontos é o nome do livro do médico, artista virtual, jornalista e cartunista Viriato Moura.

Diferente na formatação e no conteúdo saiu em 2017 pela Fontenele Publicações, de São Paulo.

“Um livro para quem não gosta de ler” – está escrito na quarta capa. É o mote para instigar o leitor.

Na orelha: “Se você é daqueles que ainda não têm a leitura como hábito, ou apenas como os que não gostam de ler textos longos, este livro pode ser do seu gosto. Mais que isso, pode representar o início de sua fascinante jornada como leitor”.

Notícias no WhatsApp
Receba as notícias de Porto Velho e Rondônia no seu celular.
Entrar no grupo

É também um livro para quem gosta de ler e se prende ao imaginário, desenvolvendo-o a cada página. Mesmo livros sem ilustrações exibem conteúdos que cativam o leitor.

Na verve de Viriato Moura, a síntese do cotidiano das pessoas traz pedaços poéticos e de crônicas. Em alguns aspectos, traduzem BOs [boletins de ocorrência] policiais, situações psicológicas, aflitivas, funéreas, alegres, todas reflexivas.

“São fragmentos literários”, ele explica. “Além da concisão, é preciso que as palavras e a pontuação sejam minuciosamente escolhidas. A essas narrativas, muito mais importante do que exprimir é sugerir”.

No que diz respeito ao jornalismo, Descontos é apreciável, porque tem a essência do moderno lead jornalístico.

Um pouco do livro:

EXECUÇÃO
De uniforme laranja, ajoelhado, rezava. Enquanto tinha cabeça.

 

FLAGRA
“O que está acontecendo aqui?”, perguntou-lhes o marido. Não houve sequer tempo de se cobrirem.

ÊXTASE
A língua dela era uma arma feroz. Mas em compensação...

DENÚNCIA
O armário espirrou. O marido não perdoou.

MANIFESTAÇÃO
“Que país é este?” – pergunta um manifestante. “Nenhum”, responde o outro.

LAMA
Soube que, para saber as verdades da vida, precisaria mergulhar fundo nas aparências. Só não lhe disseram que esse mergulho teria de ser num pântano de iniquidades.

NONSENSE
A testemunha ocular adentrou a sala com óculos escuros, conduzida por um guia. O juiz levantou-se e encerrou a audiência.

PÂNDEGA
O boneco de neve brincou tanto com as crianças, que se derreteu de felicidade.

CIRCO
Chorou antes e depois do espetáculo. Durante, fez rir.

FETICHE
Ao lado do jacaré havia sobras dos pés de uma mulher. Não restaram dúvidas: eram os que ele tanto amava.

FALSAS
Marcas nos pulsos como as das armas de pistoleiros. Estas, mais sinceras que as dela.

FRUSTRAÇÃO
Quando viu a mascarada, seu Carnaval pegou fogo. Quando ela tirou a máscara, ele virou cinzas. E ainda não era quarta-feira.

INSISTENTE
Viveu seu outono como se fosse primavera. As folhas que caíam de si, juntava, pintava de verde e as recolocava no lugar.

INTERESSEIRO
O gato só pulou do colo da velha quando sua cadeira de balanço parou. E as mãos que o acariciavam, também.

SELETIVO
Era atirador de elite. Mas só matava pobre.

SUSPEITO
Quando o marido lhe disse, com as mãos para trás, que tinha uma surpresa para ela, não titubeou em esfaqueá-lo. Quando ele tombou agonizante, caiu-lhe das mãos seu presente mais desejado.

BARREIRA
Antes de tudo, tinha de convencer o porteiro. O resto ele sabia fazer com maestria.

CONSUMO
Naquela casa, os cupins gostavam mais de livros que os donos.

QUESTÕES
Preferia dialogar com o silêncio, que, quase sempre, dava-lhe as melhores respostas.

MORTAS
As flores que não recebera em vida nasceram sobre sua sepultura. Mas não vingaram.

TROCO
Uma mosca no rosto do morto. Num ato reflexo, a viúva deu-lhe um tapa na cara.

BARULHO
Um tiro na boca não fora suficiente para silenciá-lo para sempre. O que dele restou encheu a cidade de notícias.

 

MONTEZUMA CRUZ
Com fotos de Jeferson Mota

 

 

 



Noticias da Semana

Veja +