O CONSÓRCIO (INTERNATIONAL) DE IMPRENSA



 

“Luiz Inácio Lula da Silva, o porta-estandarte da esquerda latino-americana, de 77 anos, voltou ao poder no domingo, 12 anos após sua última passagem como presidente. Desta vez, ele enfrenta alguns de seus desafios mais difíceis, desde unir uma nação amargamente dividida até impedir a destruição da maior floresta tropical do mundo e aumentar a renda de milhões de famílias desesperadamente pobres.”

Um teste: quem escreveu este texto?

  1. Jornal Folha de S.Paulo

  2. Site oficial do Partido dos Trabalhadores

  3. Redação do Jornal Nacional, da Rede Globo

  4. Revista Carta Capital

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Nenhuma das respostas anteriores. Esse texto abre uma reportagem assinada por Samantha Pearson e Luciana Magalhães e publicada no The Wall Street Journal no dia 1° de janeiro. O “jornal norte-americano de direita”, “o porta-voz do capital especulativo”, a “bíblia do capitalismo selvagem”, agora repete passivamente as lendas criadas pelo departamento de marketing do PT.

Wall Street Journal tem todo o direito de elogiar Lula ou qualquer outra pessoa. Mas o que os principais órgãos da imprensa internacional estão fazendo vai além do elogio. Dão como verdade incontestável tudo o que Lula e seus partidários dizem. Se fizessem a mesma coisa com Jair Bolsonaro, ou qualquer outro político, também estariam completamente errados do ponto de vista ético. 

(NOTA – No mesmo Wall Street Journala colunista Mary Anastasia O’Grady publicou uma coluna afiada com o título “A volta de Lula e a ameaça jurídica à democracia no Brasil”. Foi uma das raríssimas vozes a discordar do coro dos contentes da imprensa mundial.)

A longa marcha através das instituições

O controle ideológico da imprensa brasileira faria o comunista italiano Antonio Gramsci suspirar de orgulho no seu túmulo no Cimitero Acattolico, em Roma. Gramsci (1891-1937) foi o grande mentor do conceito de “hegemonia cultural” — o controle político das instituições “burguesas” por dentro. Outro comunista, o alemão Rudi Dutschke (1940-1979), desenvolveu esse conceito como a “longa marcha através das instituições”. Inspirado pela “Longa Marcha”, de Mao Tse-tung, Dutschke dizia que o sistema capitalista deveria ser tomado por dentro, especialmente através das categorias profissionais.

A imprensa tradicional brasileira, todos sabemos, virou um consórcio. Mas… a imprensa internacional também? É o que parece, quando lemos a cobertura da posse de Luiz Inácio Lula da Silva registrada por alguns dos principais jornais, revistas e sites noticiosos do mundo.

A revista Economist, que já foi um padrão de rigidez jornalística, dedicou um longo artigo a confirmar a tese petista de que o ex-ministro Paulo Guedes destruiu a economia brasileira

The Guardian publicou um artigo, escrito por André Pagliarini, que tem o seguinte trecho: “Milhares de seguidores de Bolsonaro se recusaram a aceitar o resultado das eleições do ano passado. Muitos acamparam em frente a quartéis militares pedindo a intervenção das Forças Armadas, cometendo graves atos de vandalismo na capital do país. Felizmente, seus apelos não deram em nada — Bolsonaro partiu sem-cerimônia para a Flórida no último dia do ano —, e Lula está oficialmente de volta. Nenhum presidente da maior nação da América Latina ganhou três eleições, uma prova da popularidade duradoura e relevância política do ex-metalúrgico. Lula enfrenta muitos desafios, principalmente devido à natureza de terra arrasada das políticas de Bolsonaro”.

O autor do artigo, André Pagliarini, é brasileiro. Nas redes sociais, Pagliarini elogia Guilherme Boulos e posta foto mostrando que passou o fim de ano ao lado de Chico Alencar, deputado federal pelo Psol.

No mesmo Guardian, o repórter inglês Tom Phillips dá outra aula de militância sem pudor: “Durante o reinado de quatro anos de Bolsonaro, o palácio presidencial foi ocupado por um grupo predominantemente branco e masculino de políticos e militares, muitos dos quais não tinham vergonha de seu desrespeito às comunidades indígenas e negras tradicionais, moradores de favelas e membros do movimento de direitos civis do Brasil. (…) Mas quando Lula, 77, chegou para assumir o cargo no domingo, a impressionante rampa de mármore do palácio foi cercada por uma mistura de cidadãos representando uma das nações com maior diversidade social e racial do mundo”.

“Enfrentar a brutalidade policial”

No Washington Post, Gabriela Sá Pessoa e Samantha Schmidt cobriram a posse de Lula com o mesmo padrão de “isenção” jornalística: “Lula, 77 anos, conquistou a Presidência em outubro na eleição presidencial mais disputada da história do Brasil, três anos após ser libertado da prisão, por acusações de corrupção, que mais tarde foram retiradas. Depois de uma disputa acirrada contra o atual presidente, Jair Bolsonaro, marcada por desinformação, espera-se que ele una a nação, mantendo as promessas de campanha de reconstruir a economia, enfrentar a brutalidade policial e combater o desmatamento. Os desafios fiscais do Brasil limitarão sua capacidade de lidar com a pobreza e a fome”.

A reportagem está recheada de depoimentos de petistas — e só petistas — registrados por Gabriela Sá Pessoa. Samantha Schmidt assinou o que não viu. Estava instalada em San José, Costa Rica, durante a posse.

New York Times mandou dois jornalistas para a cerimônia. O norte-americano Jack Nicas e o brasileiro André Spigariol surpreendentemente (para os padrões do jornal) tentaram um tom menos panfletário, mais focado na “fuga” do ex-presidente Jair Bolsonaro para a Flórida. Não escondem de que lado estão, mas são mais sutis. “É improvável que a presença de Bolsonaro nos Estados Unidos possa protegê-lo de um processo no Brasil. Ainda assim, a Flórida se tornou uma espécie de refúgio para os brasileiros conservadores nos últimos anos.”

“Fim da pobreza em vez de aumentar os lucros”

“Vou reconstruir o Brasil a partir das ruínas deixadas por Jair Bolsonaro”, foi a manchete do The Times, o jornal britânico também considerado “de direita”. Seu correspondente para a América Latina, Stephen Gibbs, também não conhece a regra básica do ouvir os dois lados: “‘Isso é como uma restauração da felicidade e coloca o Brasil de volta no mapa’, disse Nicolas Nascimento, 23, advogado no meio da multidão, ao The Times. Yasmin Batista, 19 anos, estudante, disse: ‘Estou feliz em ver o fim do governo fascista anterior’”.

A agência Reuters se saiu com essa “análise”: “Os 580 dias do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva atrás das grades o imbuíram de um senso renovado de justiça social, disseram os aliados e confidentes do esquerdista, convencendo-o da necessidade de priorizar o fim da pobreza em vez de aumentar os lucros”. O artigo, assinado por Anthony Boadle e Lisandra Paraguassu, diz que, “enquanto se esforça para unir uma nação dividida por problemas econômicos, uma pandemia contundente e o populismo de extrema-direita de Bolsonaro, Lula busca inspiração em seus dias de prisão, disseram aliados e confidentes à Reuters”. A reportagem sugere que a oposição à Lula se limita à Avenida “Faria Lima, a Wall Street brasileira”.

revista Economist, que já foi um padrão de rigidez jornalística, dedicou um longo artigo a confirmar a tese petista de que o ex-ministro Paulo Guedes destruiu a economia brasileira: “Lula tem uma tarefa difícil pela frente, graças ao buraco econômico ao qual Bolsonaro levou o Brasil. O crescimento, que o Banco Central estima ter sido de 2,9% em 2022, graças aos abundantes gastos de estímulo pré-eleitorais, deve cair para 1% em 2023. A inflação caiu de um pico de 12% em abril para 6% em novembro. No entanto, o número de brasileiros que não comem o suficiente aumentou de 6%, pouco antes da posse de Bolsonaro em 2019, para 16%”.

A língua de Lula

site português Público dedicou nada menos que quatro reportagens para louvar o vestido usado pela nova primeira-dama, Janja da Silva, na posse do marido. “O fato branco é um look icônico do movimento feminista. Foi adotado pelas sufragistas dos Estados Unidos na década de 1920 e tem sido usado por mulheres em cerimônias políticas desde então. (…) As escolhas e o posicionamento de Janja da Silva a diferenciam de suas antecessoras mais recentes. A mulher de Jair Bolsonaro, Michelle, foi um símbolo de conservadorismo, ao repetir que o papel da mulher é ser ‘ajudadora’ do marido. A mulher de Michel Temer, Marcela, teve ainda menos expressão pública e chegou a ser descrita como ‘bela, recatada e do lar’”.

Depois de governar o Brasil por dois mandatos consecutivos, entre 2003 e 2010, Lula herdará um país com dívidas paralisantes e níveis de pobreza muito mais altos do que quando deixou o cargo”, afirmou reportagem da CNN Internacional. O texto é assinado, entre outros, por Camilo Rocha, que nas redes sociais demonstra apoio entusiasmado à censura imposta a Guilherme Fiuza e ao mesmo tempo elogia Lula por “usar sua língua para beijar (Janja), e não (para) atacar a democracia”.

O alemão Der Spiegel deu outro show de parcialidade. “Lula agora enfrenta grandes desafios. Depois que seu antecessor dividiu profundamente a sociedade e isolou o país, o novo presidente quer reconciliar o Brasil e trazê-lo de volta ao cenário internacional. Lula anunciou uma política resoluta de proteção ambiental e climática e medidas contra o aumento da fome.”

O salvador do mundo

“O futuro da Amazônia, e talvez do planeta, depende de Lula, presidente eleito do Brasil”, foi o título da entrevista publicada na revista The New Yorker, no dia 15 de novembro. “Pessoas ao redor do mundo esperam que você não apenas salve a Amazônia, mas também o mundo”, disse a Lula o jornalista Jon Lee Anderson, que já escreveu uma biografia de exaltação à “vida revolucionária” de Ernesto Che Guevara.

Fidel Castro tinha o Granma para enaltecer diariamente seus feitos. Josef Stalin, o Pravda. Mao Tsé-tung, o Diário do Povo. Todos se consideravam muito poderosos. Pobrezinhos. Não são nada perto de Luiz Inácio Lula da Silva, que tem não só a maioria dos veículos de comunicação nacionais, mas a elite da imprensa mundial de joelhos, registrando cada um de seus passos na longa marcha rumo à salvação do Brasil e do planeta. Parece piada de mau gosto. Não é.

(revistaoeste)



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