Lula sempre se orgulhou da formação escolar indigente
![]() |
“Eu cheguei à Presidência mesmo sem ter um curso superior”, recitou Lula entre 1º de janeiro de 2003 e 31 de dezembro de 2010. (E sem um único dia de aula no ensino médio, deveria ter acrescentado o único chefe de governo brasileiro que nunca leu um livro e não aprendeu a escrever.) No começo, parecia um pedido de desculpas. Com o tempo, a frase passou a ser proferida em tom desafiador, foi promovida a motivo de orgulho e acabou transformada numa espécie de refrão de algum hino à ignorância. Perto do fim do segundo mandato, outro surto de soberba o convenceu de que não precisava de universidade. A universidade é que precisava dele: “Talvez até quando eu deixar a Presidência possa até cursar uma faculdade”, fantasiou o governante para quem “leitura é pior que exercício em esteira”.
Desse perigo sempre estiveram livres catedráticos, docentes e professores em começo de carreira. Livros, canetas, cartilhas, cadernos — qualquer coisa que lembre estudos e escolas estão para Lula como a kriptonita para o Super-Homem. Sem emprego regular desde 1977, quando trocou o ofício de torneiro mecânico pela vida mansa de dirigente sindical, ele não estudou porque não quis. “Sempre fui muito preguiçoso”, confessou numa conversa com o diretor de teatro Flávio Rangel. Tempo nunca faltou: há mais de 40 anos Lula não registra anotações na carteira de trabalho, não bate ponto, não tem patrão. Desde 1980, quando fundou o PT e inventou a profissão de palanque ambulante, tem subido na vida usando apenas a garganta.

A vida ficou ainda mais mansa depois de ter sido formalmente dispensado de aprender o que quer que seja por uma sumidade da seita petista: o crítico literário Antonio Candido, também professor da USP. Em 2007, depois de ter rebaixado a pecado venial a indigente formação escolar de Lula, o mestre decidiu que, dependendo do portador, ignorância é virtude. “Essa história de despreparo é bobagem”, ensinou entre o exame de uma tese de doutorado e a releitura de um clássico. “Lula tem uma poderosa inteligência e uma capacidade extraordinária de absorver qualquer fonte de ensinamento que existe em volta dele — viajando pelo país, conversando com o povo, convivendo com os intelectuais”, viajou o craque em português que punia com chicotadas o responsável pelo mais inofensivo cacófato.
Amigo do fenômeno havia 20 anos, Antonio Candido saudou com tambores e clarins a descoberta de um doutor de nascença — e doutor em tudo. “Nunca vi Lula ser um papagaio de ninguém”, garantiu. “Nunca vi Lula repetir o que ouviu. Ele tem uma grande capacidade de reelaborar o que aprende. E isso é muito importante num líder.” Depois desse 10 com louvor, o gênio de botequim deu de reelaborar o que não aprendera com tanta animação que resolveu dar lições sobre o que ignorava a doutores de verdade. Numa entrevista a uma emissora de TV gaúcha, por exemplo, explicou por que a ex-ministra Ellen Gracie não conseguira o cargo no exterior que a induzira a encerrar sua passagem pelo Supremo Tribunal Federal.
Quem se orgulha da formação raquítica e despreza o conhecimento só se considera estadista por não saber o que é isso
“A Ellen não estudou como deveria”, ensinou. “Mas ela é moça, ainda tem tempo.” Falso: a ex-ministra não foi nomeada por falta de apoio do governo petista. Semanas depois, enquadrou os críticos do programa que, na versão oficial, provocara o sumiço da miséria, o extermínio da fome e a promoção de todos os pobres nativos a cidadãos da classe média. “Alguns dizem assim: o Bolsa Família é uma esmola, é assistencialismo, é demagogia e vai por aí afora”, decolou o exterminador de plurais. “Tem gente tão imbecil, tão ignorante, que ainda fala ‘o Bolsa Família é pra deixá as pessoas preguiçosa porque quem recebe não quer mais trabalhá. Quem fala isso é uma pessoa ignorante ou uma pessoa de má-fé ou uma pessoa que não conhece o povo brasileiro.” Doutor em povo é Lula, reiterou dias depois. No meio de uma aula para alunos do curso fundamental, interrompeu a professora para avisar que estudar português é essencial. “É muito importante para as crianças não falarem ‘menas laranjas’, como eu”, exemplificou. Mas convém não exagerar: “Às vezes, o português correto as pessoas nem entendem. Entendem o ‘menas’ que eu falo”.

Mesmo os que não se expressam corretamente também entendem quem fala “menos”. Não falta inteligência ao povo. Falta escola. Falta educação. Falta gente letrada com disposição e coragem para corrigir erros cometidos por adultos que nasceram pobres. Lula parou de dizer “menas” quando alguém lhe contou que tal palavra não existe. O exemplo que invocou foi apenas outra esperteza. Poucas manifestações de elitismo são tão perversas quanto conceder a quem nasce pobre o direito de nada aprender até a morte. Milhões de meninos muito mais pobres do que Lula foi enfrentam carências desoladoras para assimilar conhecimentos. A celebração da ignorância é sobretudo um insulto aos pobres que estudam. É também uma agressão aos homens que sabem.
Num Brasil pelo avesso, os que aprenderam português logo terão de pedir licença aos analfabetos para expressar-se corretamente, e os que estudaram em Harvard esconderão o diploma no sótão. A boa formação intelectual não transforma um governante em bom presidente. Mas quem se orgulha da formação raquítica e despreza o conhecimento só se considera estadista por não saber o que é isso. Talvez acredite que estadista é alguém que leia o Estadão. Ou um companheiro que só dispute eleições no Estado em que nasceu.
Se Lula fosse convidado a resumir num parágrafo de dez linhas o que sabe sobre Israel, Hitler ou o Hamas, o papel ficaria em branco. Como resolveu discursar sobre tais temas, certamente reelaborou o que aprendeu com Celso Amorim e Janja. Deu no que deu.

(revistaoeste)
