O crime da crítica



A PF alexandrina está virando uma espécie de Gestapo, ou Stasi. A polícia política da Alemanha comunista usava a própria população para bisbilhotar parentes e vizinhos e denunciar os 'dissidentes'

 

Nesta semana, em audiência no Senado, o diretor de Polícia Administrativa da Polícia Federal, Rodrigo de Melo Teixeira, confessou que vivemos numa ditadura. Ele não utilizou esse termo, claro. Ao contrário: abriu sua assustadora fala afirmando que não há perseguição por opiniões ou ideologias justamente porque o Brasil é uma democracia. Mas, logo em seguida, admitiu que o jornalista português Sérgio Tavares ficou detido na PF por… suas opiniões e sua ideologia!

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O diretor da PF alegou que Tavares fez “ataques à honra de ministros do STF”, e que “criticou a urna eletrônica”. Eu adoraria saber onde exatamente isso se configura crime. No caso dos “ataques à honra”, há previsão para punições pecuniárias, após o devido processo legal, claro, se ficar configurada a injúria, a difamação ou a calúnia.

O que isso tem a ver com um jornalista gringo ter seu passaporte retido pela PF no aeroporto ninguém sabe. Ou Alexandre de Moraes por acaso processou o jornalista por crimes contra sua honra? Se o fez, não há nada oficial ou documentado, e tampouco caberia à PF esse tipo de conduta. A PF agiu mais como capanga do ministro, que se sentiu pessoalmente ofendido, mas ignorou os caminhos legais para qualquer reparação, do que como entidade de Estado.

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No mais, está claro que há um monitoramento por meio de algoritmos do trabalho de jornalistas, brasileiros e estrangeiros. Não há efetivo suficiente na PF para acompanhar o que todos publicam nas redes sociais. A PF está armazenando lista com o nome de cada persona non grata do sistema — ou do ministro Alexandre? Não foi um caso isolado, afinal. Uma brasileira que também é cidadã americana foi levada para a sala da PF ao tentar embarcar no Brasil, e lá ficou sabendo que o problema era sua defesa do bolsonarismo. Nem jornalista ela é, e ela só conseguiu seguir adiante em sua viagem ao utilizar seu passaporte americano.

A PF alexandrina está virando uma espécie de Gestapo, ou Stasi. A polícia política da Alemanha comunista usava a própria população para bisbilhotar parentes e vizinhos e denunciar ao regime totalitário os “dissidentes”. Não é muito diferente do que fez o próprio STF nesta semana, numa publicação que depois apagou (mas o print é eterno). Nela, o STF diz: “Espalhe a informação correta! Não compartilhe conteúdos distorcidos ou mentirosos sobre o STF. Se você receber algum conteúdo falso, envie para o programa de Combate à Desinformação do Supremo, para divulgação da informação verdadeira”.

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Na justificativa da mensagem, consta: “A iniciativa foi criada para combater práticas que afetam a confiança das pessoas na Corte, distorcem ou alteram o significado das decisões e colocam em risco direitos fundamentais e a estabilidade democrática”. Esse trecho parece retirado direto da obra de ficção de George Orwell, cá entre nós. Haja eufemismo para defender a pura perseguição aos críticos, inclusive incentivando a caguetagem.

Meu pai sempre me ensinou que era errado bancar o X9, denunciar o irmão depois de uma briga para se livrar do problema. Mesmo o irmão estando errado, o castigo seria para ambos se isso acontecesse. Afinal, ser caguete não é nada legal. Para o STF, porém, assim como para a Stasi, denunciar quem ousa “espalhar mentiras” sobre o STF é um dever cívico a ser recompensado. Já o “meliante” será devidamente punido para não colocar mais em risco a democracia nem afetar a confiança na Corte.

Se eu denunciar Wadih Damous ou José Dirceu, será que Alexandre de Moraes manda a PF bater em suas portas e resolve colocá-los em algum inquérito ilegal?

Ignorando as lições do meu pai e me adaptando para a nova realidade brasileira, resolvi virar um caguete então. E quero fazer a primeira denúncia para a Stasi Totalitária Federal (STF): vi um sujeito abusado que se referiu a um ministro supremo — ser acima de todos nós, reles mortais — como “uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”. Isso me parece afetar muito negativamente a imagem da Corte perante o povo. Outro chegou a falar que um ministro supremo tinha “capangas” em Mato Grosso. Onde já se viu uma coisa dessas?

O fato de que foram os próprios ministros do STF que disseram tais coisas sobre seus colegas pode ser um detalhe incômodo, é verdade, mas ataque é ataque, não é mesmo? E tem muito mais. Tem muita coisa também de petistas, que chegaram a pedir o fechamento do STF. Se eu denunciar Wadih Damous ou José Dirceu, será que Alexandre de Moraes manda a PF bater em suas portas e resolve colocá-los em algum inquérito ilegal?

Para concluir, constato que está instalado no Brasil o crime da crítica. Mas isso só vale se a crítica for a ministros supremos ou ao processo eleitoral, e se for de algum conservador. Se a esquerda criticar o STF ou a urna eletrônica, tudo bem. Se a crítica for ao então presidente Bolsonaro, pode ter o teor mais raivoso do mundo que é só liberdade de expressão. Ficamos, então, assim: a direita não pode mais criticar a esquerda. Pronto! A democracia foi salva em nosso país.

(revistaoeste)



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