Superministra sem pasta



Ressignificada por Janja, a primeira-dama modelo 2024 virou farol do marido

 

A Constituição de 1988 foi tão palavrosa e abrangente que incluiu dois trechos infiltrados sem serem submetidos à votação no plenário e quase incorporou uma maluquice assombrosa: se os pais da ideia não tivessem deixado para depois o detalhamento da coisa, a inflação em crescente descontrole seria terminantemente proibida de ultrapassar a taxa mensal de 12%. Pois mesmo nessa floresta de artigos, parágrafos e incisos, como aliás ocorreu em todas as Cartas Magnas anteriores, a expressão “primeira-dama” não aparece uma única vez. Não faz sentido perder tempo com uma fantasia excluída do mapa oficial da administração pública. Quem está unida pelo casamento a um chefe do Poder Executivo (federal, estadual ou municipal) não ocupa um cargo. É só a mulher do presidente da República, de um governador ou de um prefeito, nada mais que isso. Ponto final, aprendi ainda na infância.

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Meu pai foi prefeito quatro vezes. Em nenhuma delas minha mãe enxergou no espelho uma primeira-dama. “Eleição não é concurso de dança”, dizia. “Os eleitores votam em um candidato, não num casal. Quem leva a sério essa invenção ridícula deveria, quando terminasse o mandato do marido, fazer como a Miss Brasil: entregar uma faixa à sucessora.” Depois de casar-se, a jovem professora primária acrescentou o sobrenome de Adail Nunes da Silva ao Emília Menon da certidão de nascimento. Mas prevaleceu o apelido que a identificava desde a meninice. Biloca virou Dona Biloca depois de adulta. E assim a filha de imigrantes italianos foi tratada por todos até morrer, aos 83 anos.

Aos 57, Rosângela Lula da Silva, a Janja, nem esperou o início do governo para comunicar que comete um crime hediondo quem a considera apenas a terceira mulher do atual presidente da República. Filiada ao PT desde 1983, formada em sociologia pela Universidade Federal do Paraná, a persistente companheira acompanha Lula de perto desde o século passado, quando o futuro cônjuge zanzava pelo Brasil escoltado por dúzias de devotos. Janja fechou o cerco nos 500 dias em que o alvo permaneceu engaiolado em Curitiba. “Eu o visitava sempre que podia”, contou durante a campanha eleitoral de 2022. Lulistas que acamparam nas imediações da cadeia até que o presidiário fosse libertado confirmam: as visitas foram muitas. “Também trocamos muitas cartas”, emendou Janja.

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Filiada ao PT desde 1983, formada em sociologia pela Universidade Federal do Paraná, a persistente companheira acompanha Lula de perto desde o século passado | Foto: Reprodução/Redes Sociais

(Ninguém teve acesso a tais papéis que, se efetivamente existem, têm altíssimo valor histórico. Se a destinatária divulgasse ao menos uma dessas preciosidades, desmontaria a suspeita de que o Brasil é o único país do mundo que presenteou com três mandatos presidenciais um homem que nunca leu um livro e não sabe escrever. Mas voltemos a Janja.)

Na primeira entrevista, previsivelmente concedida à TV Globo, ela garantiu que não seria uma primeira-dama como qualquer outra. “Nesses quatro anos, quero estar mais atuante e mais próxima das causas que me são mais caras: mulheres, segurança alimentar e proteção de crianças e jovens”, caprichou a usina de platitudes enquanto comandava a montagem da mais espalhafatosa das festas de posse. “É por isso que quero ressignificar o papel de uma primeira-dama.” A etapa inaugural da prometida ressignificação foi debitar na conta de Jair e Michelle Bolsonaro todos os problemas passados, presentes e futuros do Brasil, começando pelos estragos que teriam transformado a residência oficial do presidente no único cortiço com a grife Oscar Niemeyer.

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Ao passar diante do Primeiro Casal, Moraes distende a musculatura facial em retribuição ao cumprimento caloroso da primeira-dama. E abre um sorriso quando Janja o surpreende com um tapinha nas costas e um exclamativo inaudível

Em janeiro de 2023, segundo os dicionários, “ressignificar” queria dizer “mudar o significado”. Passados apenas 15 meses, está claro que esse verbo, conjugado por Janja, tem mil e uma utilidades. Hoje também significa “denunciar o sumiço de móveis que continuam no palácio em que estavam; controlar a agenda do marido e bloquear telefonemas inoportunos ou inconvenientesviajar para o exterior ao menos uma vez por mêsrepresentar o governo em visitas ligeiras a regiões inundadasnomear afilhadas e manter amigas no emprego; influenciar decisões de tribunais superioresavaliar projetos do BNDES; representar o país em debates promovidos pela ONU sobre assuntos que desconhecedecidir o que o casal vai vestir; escolher o hotel em que o casal vai dormir; furtar a quatro mãos pilhas de canetas desprovidas de vigilância em eventos internacionais; comportar-se com autoridades de quaisquer poderes, especialmente ministros do Supremo, com o desembaraço de amigo de infância”.

Janja nem esperou o início do governo para comunicar que comete um crime hediondo quem a considera apenas a terceira mulher do atual presidente da República | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O vídeo que ilustra a abertura da coluna sugere que Janja pretende elevar à categoria de arte demonstrações de intimidade com figurões que conheceu há pouco tempo e costumam meter medo mesmo em inocentes que entram na sua alça de mira. Numa cerimônia realizada em dezembro, Alexandre de Moraes acaba de discursar. O coro que grita “Xandão” traduz o apoio de boa parte da plateia, mas o orador caminha em direção à mesa de autoridades com cara de zangado. Ao passar diante do Primeiro Casal, Moraes distende a musculatura facial em retribuição ao cumprimento caloroso da primeira-dama. E abre um sorriso quando Janja o surpreende com um tapa nas costas e um exclamativo inaudível. Como fazem os jogadores de basquete americanos que se erguem do banco para saudar o autor da acrobática enterrada que induziu o técnico do time inimigo ao imediato pedido de tempo.

Se Janja trata com tal desenvoltura o Primeiro Carcereiro, o que a impediria de pedir a um magistrado que ajude a instalar na cadeia um ex-jogador de futebol condenado por estupro pela Justiça Italiana? Ou de protagonizar o que a imprensa estatizada chama de “apresentação solo” em reuniões com o alto comando do BNDES? Como sentir-se constrangida se o marido está grávido de encantamento? “A Janja é uma espécie de meu farol”, derramou-se Lula há poucos dias. “Quando tem alguma coisa errada, ela me chama a atenção. Quando tem alguma coisa nas redes, ela me chama a atenção. Às vezes, ela fala coisas para mim que a minha assessoria não fala, e ela fala. E isso me ajuda, obviamente.”

Dona Biloca não se metia em política partidária, guardava distância de comícios, evitava cerimônias oficiais. Mas enxergava com nitidez o mundo dos palanques, era uma boa leitora de almas e dizia na mesa de jantar o que estava achando. Ela entenderia, por exemplo, que um Lula sozinho no leme já é um perigo e tanto, e que a tripulação que o acompanha recomenda ao Brasil que presta rezar para todos os santos. Também teria concluído que um barco guiado por um farol como Janja, agora acumulando as funções de Primeira-Dama Ressignificada e os poderes de Superministra sem Pasta, está condenado ao naufrágio.

(revistaoeste)



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