O governo não pensa mais



O governo Lula não começou até agora. Do jeito que está indo, corre o risco de acabar antes de ter começado

 

Estaria o governo Lula a caminho da morte cerebral? Os sintomas clínicos são ruins. A cara de pamonha do presidente, junto com a sua risadinha sem noção ao ouvir falar de “Plano Marshall” na entrevista coletiva das altas autoridades sobre as enchentes no Rio Grande do Sul, já indica uma confusão nos reflexos fundamentais. O assunto era uma das piores tragédias já vividas pelo Brasil — e a sua reação foi rir. Pouco antes ele tinha se achado capaz de comandar uma manifestação de massas para lhe dar apoio, no dia 1º de maio em São Paulo. Sofreu uma humilhação que vai ficar para a história: tudo o que conseguiu foi juntar 1.635 pessoas no estacionamento do Corinthians. Antes dos dois episódios, tinha feito um manifesto à nação em defesa do cachorro “Joca”, extraviado num voo da Gol. Chamou, ao lado da mulher, um ministro de Estado para tomar providências; o ministro aproveitou a ocasião para elogiar “a preocupação social” de Janja, que por sua vez se disse abalada com o caso e cobrou uma atitude do marido e do governo.

Continua após a publicidade.

É esse o presidente que o Brasil tem hoje, num dos momentos em que mais precisa de um chefe de governo capaz de gerar algum tipo de ideia coerente, uma só que seja, sobre o que fazer com algum dos problemas do país, um só que seja. Os circuitos lógicos do sistema que opera em seu redor estão funcionando cada vez pior — fecham as portas certas e abrem as portas erradas. O resultado é que o governo, na maior parte do tempo, fica fazendo o que não devia fazer, não faz o que devia e, pior de tudo, não consegue perceber nem uma coisa nem outra. É este o “novo normal” do governo Lula. Não vê nada de errado em prometer “R$ 1 bilhão” para ajudar o Rio Grande, como se isso fosse um presente sensacional — quando se anuncia que a dívida pública nos primeiros 14 meses da sua gestão aumentou em mais de R$ 1 trilhão. Acha que está brilhando quando o comandante do Exército vai para a China em busca de um “projeto militar conjunto”. Festeja o último relatório da Moody’s que reduziu o grau de risco do Brasil — de horrível para péssimo.

Lula montou um Ministério à prova de qualquer tipo de vida inteligente. Não conseguiria governar nem se fosse um Churchill — e ele não chega a ser um Sarney

Continua após a publicidade.

O governo Lula não começou até agora. Do jeito que está indo, corre o risco de acabar antes de ter começado. Um dos sinais mais óbvios dessa anomalia é o fato de que o presidente e o seu sistema continuam, em pleno mês de maio de 2024, a tratar o ex-presidente Jair Bolsonaro como a prioridade máxima do Brasil. Não conseguem governar; nem a militância mais agitada é capaz de citar uma única realização do Lula 3. Na falta absoluta do que mostrar, o presidente entrega para a Azul aviões fabricados pela Embraer, ou inaugura uma fábrica privada de insulina em Minas Gerais, na esperança de alguém achar que são obras feitas por ele. Em compensação, faz uma oposição intransigente ao governo Bolsonaro, que acabou no dia 31 de dezembro de 2022. Parece que não há conserto para essa ideia fixa. Ainda agora, a ministra do Meio Ambiente disse que a culpa pelas enchentes no Sul é “do Bolsonaro”, que segundo ela não fez nada a respeito “em quatro anos no governo”. E ela, fez o que no seu um ano e meio? É isto: a tomografia diz que o governo Lula, em grande parte, não pensa mais.

A paralisia mental do governo não vem apenas do transtorno obsessivo em relação a Bolsonaro. Ficar pensando só naquilo, sem dúvida, não deixa que eles pensem em outras coisas. Mas o fato essencial, aí, é que Lula não consegue mais aceitar as realidades da vida; seu sistema nervoso está ligado em outro mundo, e ele não quer mais desligar dali. Em primeiro lugar porque para fazer isso seria preciso trabalhar com ideias, com projetos e com talentos, e o presidente não quer trabalhar com nada. Em segundo lugar porque simplesmente não há ideias, projetos ou talentos ao seu redor. No que se refere a este último quesito, aliás, Lula montou um Ministério à prova de qualquer tipo de vida inteligente. Não conseguiria governar nem se fosse um Churchill — e ele não chega a ser um Sarney, ou algo assim, com viés de coisa pior ainda. Fazer o quê? Na companhia de Marina Silva, Celso Amorim e mais do mesmo, ninguém chega nem à lotérica da esquina. Imagine-se, então, lidar com 200 milhões de brasileiros e com os seus problemas. Não fecha.

Continua após a publicidade.

Lula continua vivendo num mundo em que existe a CUT, por exemplo, e o mundo da CUT não existe mais. Não pode dar certo, é claro: ele manda a CUT colocar uma multidão na rua, e não aparece ninguém. Os trabalhadores que julgava comandar não querem mais os seus sindicatos, nem os “direitos sociais” que o governo quer socar em cima deles, como acabam de provar os motoboys e motoristas de aplicativos. Não estão interessados na Faixa de Gaza; quem é que está na fila do busão às 4 da manhã e acha que vai ganhar alguma coisa de útil com a Faixa de Gaza? Lula vive no mundo da USP, da Rede Globo e das agências de publicidade. O povo vive na periferia brava onde ele não põe o pé há Deus sabe quanto tempo — nem ele nem qualquer membro do seu governo. Não entende que o templo evangélico dá mais para a população do que os seus 39 ministérios juntos. O povo, muito simplesmente, não quer as coisas que ele quer, ou diz que quer, e defende valores opostos aos do seu governo. É a maioria. Lula, hoje, é a minoria.

Nem o presidente nem a maior parte da esquerda nacional admitem que a vida real é essa — e se admitem não querem mudar um milímetro. Fica-se, então, nessa charada em que o Brasil se encontra hoje. Lula leva 1.635 pessoas à praça pública. Bolsonaro, pelos cálculos dos mesmos calculadores, leva 185 mil, ou 90 vezes mais, como fez em seu último comício na Avenida Paulista. Como se explica que exista essa diferença tão monumental entre os dois — e as classes que se deram o direito de pensar por todos continuem dizendo que o Brasil vive um “quadro de normalidade democrática”? Os fatos mostram que há um contrassenso cada vez maior entre o que se vê na rua e os números da dupla TSE-STF para as eleições de 2022. Será que de lá para cá a situação deu esse cavalo de pau? Pode ser, dentro do entendimento geral de que tudo é possível no universo, menos o que é materialmente impossível. Mas, sem dúvida, existe alguma coisa profundamente errada na vida pública de um país em que o político que leva quase cem vezes mais povo à rua do que o adversário está proibido de disputar eleições pelos próximos oito anos.

Qual é a solução? Levar Bolsonaro para os comícios de Lula? Democracia por democracia, e já que o Brasil é uma democracia, os votos de quem vai às manifestações do ex-presidente na Avenida Paulista deveriam valer a mesma coisa que os votos de quem vai aos comícios do presidente atual no estacionamento do Corinthians. O que há de errado com eles? Não deveria haver nenhum problema em colocar os dois frente a frente e ver quem tem mais. Mas esse tipo de democracia é tido hoje em dia como a maior ameaça que que o Brasil pode viver. Claro que é — em democracias, como elas costumavam ser, ganha quem tiver mais voto, e aí o candidato errado pode ganhar. Na Venezuela esse problema é resolvido com a eliminação, um por um, de todos os candidatos viáveis da oposição. Aqui, por enquanto, eliminou-se o que teve quase 50% da votação nas últimas eleições, isso pela conta do próprio TSE. Não resolve realmente nada, na verdade, pois o eleitorado não vai ficar em casa em 2026, nem agora em 2024 — vai votar no candidato que achar mais próximo dos seus valores. Se não tem tu, vai tu mesmo.

A solução de Lula, do seu partido e da esquerda nacional é deixar tudo para o ministro Alexandre de Moraes resolver, do jeito que for possível. Não parece que tenham tido, até agora, nenhuma ideia melhor que essa. Contar com Lula, mesmo, é um problema e tanto. Seu repertório está no fim. É o Programa Nacional de Esmolas. É o imposto sobre compras de US$ 50 na internet. É o déficit de R$ 250 bi já no primeiro ano de governo, sem ter entregado sequer uma barra de rapadura para a população. Daí para onde? O presidente, como o rei da fábula, está nu. Carrega as roupas, os óculos e as gravatas vermelhas de cachorrinho que a mulher põe nele, e todo mundo em volta bate palma. Mas está nu.

(revistaoeste)



Noticias da Semana

Veja +