Em sua pior versão no poder, Lula está cercado de auxiliares medíocres, sem dinheiro para gastar e agarrado a um repertório manjado de bravatas
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Depois de um ano e sete meses no poder, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não conseguiu entregar nenhuma das suas promessas redentoras de campanha, segue às voltas com uma equipe de ministros despreparados para as crises que começam a se instalar no governo, e passou a ouvir queixas quando aparece em público por improvisar palanques em obras inacabadas. Mas Lula já escolheu com quem vai dividir a responsabilidade pela sua incompetência: com as pessoas que votaram nele.
Foram vários discursos similares sobre os culpados da vez, mas nenhum é tão claro — inclusive pelo tom debochado da fala (veja o vídeo abaixo) — quanto ao de Diadema, na região do ABC paulista, na semana passada, num evento para inaugurar as obras do que um dia será uma unidade do CEU (Centro Educacional Unificado). “Quero que vocês saibam que quando eu estiver fazendo uma coisa errada, em vez de dizer: ‘O Lula está errando, digam eu estou errando’. Porque o Lula é o nosso povo na Presidência da República”, disse.
Essa fala é perturbadora e ao mesmo tempo reveladora (para os que nunca quiseram enxergar, claro). pic.twitter.com/2z8xqf7ISz
— Silvio Navarro (@silvionavarro) July 6, 2024
Lula usou da mesma retórica em Osasco, na região metropolitana de São Paulo, num ato muito parecido: a “inauguração” de outra obra inacabada, no novo campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Tenho consciência de que eu não sou eu; eu sou vocês”, disse.
No evento, coube a uma aluna dizer publicamente o que o país inteiro já percebeu: o governo não tem nada pronto para apresentar — sequer as maquetes de projetos megalomaníacos de Dilma Rousseff, desmascarados depois pela Lava Jato.
“Depois de 14 anos de espera, estamos presenciando a inauguração oficial de apenas metade de um novo campus. É necessário reforçar que as obras do campus não estão completas, e ainda nos falta o auditório, o prédio da biblioteca, a quadra e anfiteatros”, afirmou Jamily Fernandes, que cursa o terceiro ano de Direito. Ela reclamou ainda da falta de moradias estudantis no local.
Lula não gostou da cena constrangedora e recorreu aos tempos dos discursos de chão de fábrica, no ABC Paulista. “Às vezes, de cem itens nós atendemos 99, e aí quando vamos em ato público para anunciar, em vez do companheiro dirigente começar o discurso agradecendo as 99, ele vai reclamar de uma que não foi atendida”.
Foi necessária a ajuda de Fernando Haddad, ministro da Fazenda, para socorrer o chefe: “A USP (Universidade de São Paulo) até hoje está sendo construída, prédios estão sendo construídos”. Como universidade, a USP foi inaugurada em 1934.

Em Osasco, Lula estava mais inflamado ao microfone. Aos 78 anos, ele causou desconforto na plateia ao dizer que a primeira-dama, Janja da Silva, “é testemunha ocular” do seu vigor físico. Reclamou de comparações com o estado de saúde do presidente americano, Joe Biden. E convidou os críticos a embarcar com ele para agendas fora de Brasília. Os destinos escolhidos foram o Paraguai e a Bolívia nesta semana.
“Quero ver quem fala que eu estou cansado, e está sentado com a bunda na cadeira escrevendo, se tem coragem de levantar e ir para rua para andar. Então, quem achar que o Lulinha está cansado, pergunte para a Janja. Ela é testemunha ocular. Quando eu falo que eu tenho 70 anos de idade, energia de 30 e tesão de 20, eu estou falando com o conhecimento de causa”, afirmou.
A fala do petista, contudo, não é verdadeira. Lula não “sai à rua para andar”, como disse, há muito tempo. Com exceção das viagens para o exterior com Janja e sua comitiva de ministros, ele não tem se dedicado a agendas públicas — muito menos ao chamado corpo a corpo, como fazia no passado. Pelo contrário, depois da saída de Paulo Pimenta da Secretaria de Comunicação (Secom) para assumir o cargo de governador postiço do Rio Grande do Sul, a estratégia de comunicação migrou para as redes sociais — sobretudo o X/Twitter — e para uma série de entrevistas a rádios no Norte e no Nordeste, sempre sem perguntas desconfortáveis. O presidente já havia abandonado as lives semanais com o jornalista Marcos Uchôa, nas quais imitava o antecessor Jair Bolsonaro, por falta de público na internet.
Quem acompanha a rotina do presidente, mesmo pelas manchetes dos colunistas da imprensa aliada, percebe que os raros palanques são montados com público controlado, preferencialmente dentro do Palácio do Planalto, e ele sempre está isolado de contato direto em deslocamentos e aeroportos.
Por exemplo: para quebrar esse protocolo, o governador da Bahia, Jerônimo Teixeira (PT), montou uma estrutura de isolamento para colocar Lula e Janja no alto de um carro no dia 2 — desfile da “independência” do Estado. Usando turbante, os petistas fizeram um percurso de 3 quilômetros até o Centro Histórico de Salvador. O carro foi escoltado por militantes e bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e sindicalistas.

Na semana passada, a equipe que cuida da agenda cancelou eventos em Goiás, Santa Catarina e Mato Grosso. O motivo: medo de ser vaiado.
O lançamento do Plano Safra chegou a ser comunicado pelo ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, e aconteceria na cidade de Rondonópolis (MT). Os auxiliares de Lula, no entanto, optaram por uma cerimônia discreta, dentro do Palácio do Planalto, onde é feita uma triagem na lista de convidados. Em Goiânia (GO), outro evento em unidades de ensino federais foi suspenso. O embarque para Santa Catarina, onde era prevista uma visita ao Porto de Itajaí, também foi cancelado porque o Estado é considerado reduto da direita.

O pior Ministério possível
Além da ausência de obras nas pastas de infraestrutura e da falta de dinheiro em caixa, o governo Lula 3 convive com um problema insolúvel para a realidade do PT pós-escândalos do Mensalão e do Petrolão: não tem quadros. Numa analogia usada com frequência nos corredores do Congresso Nacional, é como o técnico que está perdendo o jogo e não tem ninguém no banco de reservas para entrar. De longe, o maior problema está no que já foi apelidado de “núcleo duro” do governo, há 20 anos, pelo próprio PT.
A comparação dos elencos, que em 2003 tinha o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) como o “camisa 10”, nas palavras do próprio Lula, é autoexplicativa: a ele se juntavam Antonio Palocci (Fazenda), Henrique Meirelles (Banco Central), Luiz Gushiken (Secom), o professor de letras Luiz Dulci (Secretaria-Geral, responsável pelos discursos), Ciro Gomes (Integração Nacional), Roberto Rodrigues (Agricultura), Luiz Fernando Furlan (Indústria), Miro Teixeira (Comunicações), Márcio Thomaz Bastos (Justiça) etc. O presidente do PT era José Genoino.
Vinte anos depois, Lula tem ao seu lado Rui Costa (Casa Civil), Fernando Haddad (Fazenda), Paulo Pimenta (vai voltar para a Secom), o ex-tesoureiro do PT Márcio Macêdo (Secretaria-Geral), Waldez Góes (Integração Nacional), Carlos Fávaro (Agricultura), Geraldo Alckmin (Indústria), Juscelino Filho (Comunicações), Ricardo Lewandowski (Justiça) etc. A presidente do PT é Gleisi Hoffmann.
Resta ainda a figura de Janja, que participa de reuniões ministeriais e tem sua própria cota na Esplanada, como a amiga Nísia Trindade (Saúde) e Alexandre Padilha (Relações Institucionais).
O rombo fiscal das contas públicas passou de R$ 1 trilhão. A inflação, sobretudo dos alimentos, continua a galope, o que fez colar a pecha de estelionato eleitoral em promessas como picanha na mesa do pobre
Ao contrário da gestão anterior, o Banco Central agora tem autonomia funcional — o mandato não coincide com o do presidente. Roberto Campos Neto foi indicado por Jair Bolsonaro, mas será substituído no final do ano. Ele é o alvo preferencial da esquerda, uma espécie de “bode expiatório”. O argumento é que a engrenagem da economia está rangendo por força da taxa de juros (Selic). Porém, como o mandato termina no final do ano, Campos Neto sairá de cena. Quem será o sucessor? Segundo os articulistas da velha mídia, os favoritos são Aloizio Mercadante (que comanda o BNDES), o ex-ministro Guido Mantega e Gabriel Galípolo, diretor de Política Monetária do Banco Central. Logo, Lula vai precisar de outro culpado para a economia.

Nesse caso, Fernando Haddad é quem vive o maior dilema. Não conseguiu executar nem explicar o chamado “arcabouço fiscal” que aprovou no Congresso — provavelmente, era só um eufemismo para licença para gastar. O rombo fiscal das contas públicas passou de R$ 1 trilhão. A inflação, sobretudo dos alimentos, continua a galope, o que fez colar a pecha de estelionato eleitoral em promessas como picanha na mesa do pobre.
Outros problemas: se não há reserva em cofre, tampouco o PT tem um marqueteiro eficiente para socorrer o governo, como Duda Mendonça e João Santana, que criavam marcas de programas sociais no atacado, como Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida e Luz Para Todos.
O governo Lula 3 coleciona desgastes em áreas sensíveis: saúde, segurança pública e meio ambiente. Não há, em toda a história, notícia de uma epidemia tão aguda e longeva de dengue quanto a atual — cujo pico ocorre no verão e que jamais chegou a julho. São 6 milhões de casos confirmados e mais de 4 mil mortos. A ministra Nísia Trindade chorou quando foi cobrada pelo chefe numa reunião ministerial. Foi acudida por Janja, e não se fala mais no assunto.
No Carnaval, a gestão de Ricardo Lewandowski registrou a primeira fuga de um presídio que até aquela data era considerado de segurança máxima, no Rio Grande do Norte. O governo levou um baile de mais de um mês até recapturar os criminosos, conhecidos como Tatu e Querubim, em fuga pelo Nordeste. O número de facções criminosas no país chegou a 72, segundo relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e da Esfera Brasil — sendo dois grupos (PCC e Comando Vermelho) com atuação transnacional.

Como mostrou a edição da semana passada de Oeste, áreas gigantescas do Pantanal, do Cerrado e da Amazônia estão pegando fogo. A acusação de descuido com o meio ambiente foi uma das principais bandeiras eleitorais da esquerda contra Jair Bolsonaro. Mas os números da gestão Marina Silva são mais graves: no Pantanal, o índice é 40% maior que o pior já contabilizado, algo como um terço da região. Marina apareceu recentemente com declarações desastrosas: “Houve antecipação do que era para acontecer em agosto (período de seca). Se alguém toma um tiro na cabeça ou sofre um infarto fulminante, não quer dizer que uma UTI preparada dá conta de resolver o problema”.
O mesmo se aplica aos territórios indígenas. Lula fez questão de começar o seu governo com uma visita à reserva ianomâmi. A imprensa tradicional falava em genocídio indígena promovido por Bolsonaro. Mas o quadro só se agravou desde então, mesmo com um ministério dedicado “aos povos originários”.
Nem de longe os percalços param por aí. Há pouquíssimas mulheres no governo, e as que foram escolhidas são mal avaliadas: Simone Tebet é ministra do Orçamento, mas demonstra desconhecê-lo a cada entrevista; Anielle Franco só aparece no noticiário quando o assunto são viagens custeadas pelos pagadores de impostos — assessoras viajaram para o fórum jurídico “Gilmarpalooza”, em Lisboa, e para a final da Copa do Brasil no ano passado.
Como não tem diálogo nem votos na Câmara dos Deputados, Lula joga com o calendário na esperança de que o sucessor de Arthur Lira (PP-AL) aceite negociar no ano que vem. No cenário eleitoral, não há sinais de que o PT vencerá em praças importantes. Na maioria, apoiará candidatos de outros partidos, como Guilherme Boulos (São Paulo) e Eduardo Paes (Rio de Janeiro).
O fato é que nada funciona no governo. Mas Lula não parece estar preocupado com isso. Porque, afinal, a culpa é dos outros — de quem caiu no conto do vigário.

(revistaoeste)
