Medalha de lata para o Brasil



 

No espetacular documentário Por Que a Beleza Importa? (Why Beauty Matters?), o escritor e filósofo inglês Roger Scruton apresenta um argumento profundo de que a beleza não é apenas uma preocupação superficial, mas um elemento essencial da vida humana que tem sido marginalizado na sociedade moderna.

Scruton começa traçando a reverência histórica à beleza na arte, na arquitetura e na cultura, ilustrando como as sociedades tradicionalmente celebraram e integraram a beleza em sua vida diária. O pensador critica o movimento modernista e argumenta que seus defensores rejeitam a beleza em favor do funcionalismo e da abstração, levando a um ambiente desumanizado e misantropo. Ao mostrar exemplos de arte e arquitetura clássica, ele enfatiza os efeitos enriquecedores e harmonizadores da beleza, sugerindo que seu abandono contribuiu para um senso de desconexão e perda na sociedade contemporânea.

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Scruton mergulha profundamente nas bases filosóficas da beleza, recorrendo aos trabalhos de pensadores como Platão e Kant para argumentar que a beleza possui uma qualidade objetiva que transcende as preferências individuais. Ele explora como a beleza foi historicamente vista como uma ponte para o divino ou para o transcendente, capaz de elevar o espírito humano e fomentar um senso de conexão com algo maior. Scruton postula que a beleza fornece um senso de ordem e significado, contrapondo-se ao caos e à fragmentação da vida moderna, e sugere que a experiência da beleza é uma necessidade humana universal, vital para o bem-estar emocional e psicológico.

A discussão que o brilhante documentário de Scruton propõe vai além da beleza arquitetônica de grandes obras. O filme também destaca a importância da beleza nas pequenas coisas do nosso dia a dia. O inglês argumenta que a beleza nas pequenas coisas — como um jardim bem cuidado, uma mesa de jantar bem arrumada ou uma peça de música tocada com atenção — pode transformar nossa experiência cotidiana.

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Será que essa premissa também se aplica ao esporte? Na semana em que o mundo assistirá à abertura de mais uma Olimpíada, a beleza importa em quadras, piscinas e estádios? A resposta é, definitivamente, sim.

Em mais de duas décadas como atleta profissional, tive a honra de poder defender o Brasil em quatro Olimpíadas. E é ali, na aura dos Jogos Olímpicos, que essa ideia da beleza, em várias esferas, se entrelaça com o esporte e se conecta com o divino, com a glória, com lutas, com antepassados, com tradições e experiências que viajam no tempo e conectam séculos de valores que engrandecem povos e etnias por todo o mundo.

A beleza do esporte não está apenas na estética de corpos esculturais ou na perfeita plasticidade de algumas modalidades. A beleza dos Jogos Olímpicos está também na dança das cores e mensagens entregues por cada país em suas bandeiras, em seus hinos, em seus uniformes. A partir desta sexta-feira, 26 de julho, o mundo verá mais do que atletas envoltos em trajes específicos desenhados para seus esportes. Veremos “soldados” marchando em “campos de batalha”, promovendo paradoxalmente um senso de harmonia dentro de lutas que expressam conexões através de seus embates. Ali, a beleza terá o poder de transmitir valores culturais e inspirar tanto atletas quanto espectadores.

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Dentro da magnitude de uma Olimpíada, os uniformes esportivos bem-feitos não são apenas agradáveis aos olhos, mas também carregam um significado simbólico profundo para quem os veste. Eles representam a identidade e o orgulho de uma nação, e seu design pode inspirar um senso de unidade e pertencimento tanto nos atletas quanto nos cidadãos que eles representam. A beleza dos uniformes pode elevar o espírito dos atletas, promovendo um senso de dignidade e respeito pela competição.

Talvez Scruton, que faleceu em 2020, argumentaria que a beleza nos uniformes esportivos, especialmente em um evento global como os Jogos Olímpicos, teria o poder de transcender barreiras culturais e linguísticas, promovendo um senso de admiração e respeito entre as nações. Uniformes bem desenhados não só melhoram a aparência dos atletas, mas também comunicam uma mensagem de excelência e cuidado. E o Brasil nos Jogos de Paris já foi desclassificado nessa categoria.

Diferentemente de delegações como Itália e Estados Unidos, que estarão vestidas com roupas desenhadas por estilistas como Giorgio Armani e Ralph Lauren para a Cerimônia de Abertura da Olimpíada, o Brasil não estará com terninhos elegantes ou peças de alfaiataria, como de costume, mas de chinelo Havaianas, blusa listrada estilo bloco de Carnaval, uma saia simples branca (para os homens, uma calça estilo academia) e uma jaqueta jeans bordada com um tucano, uma arara ou uma onça.

A escolha do pobre e inadequado uniforme da delegação brasileira para um evento do porte dos Jogos Olímpicos não reflete em nenhuma peça o cuidado e o reconhecimento que cada atleta merece, que o Brasil deveria mostrar. Não estamos falando de competições isoladas em cada esporte, estamos falando da nata do esporte mundial, da congregação dos melhores entre os melhoresdo chamado the crème de la crème.

Scruton aborda de forma instigante e muito elucidativa como perdemos o senso ético e estético da beleza e como essa perda fez com que a humanidade afundasse ainda mais no que ele chama, com inteira razão, de “deserto espiritual”

Em Paris, com a delegação do Brasil, o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Paulo Wanderley, rebateu de forma curta a uma avalanche de críticas nas redes sociais e portais de notícias sobre o horrendo uniforme: “Não é Paris Fashion Week, é Olimpíada”. Ora, doutor Paulo Wanderley, até parece que o senhor não conhece o mundo mais do que especial dos Jogos Olímpicos e a guerra que já é iniciada na chegada dos “gladiadores” em suas arenas de batalha! Nossos atletas mereciam mais consideração e respeito! São anos de dedicação por esse momento.

Ao minimizar a importância de uma identidade visual forte e emblemática de nossos uniformes em uma Olimpíada, o presidente do COB expõe exatamente o canto prejudicial de uma cultura que abandonou a beleza em favor da utilidade, do sensacionalismo e da falsa praticidade em detrimento da preservação do belo. Os ambientes estéreis e desanimadores da arquitetura moderna hoje são espalhados em roupas, objetos, textos, filmes etc. Precisamos voltar à valorização da beleza, não apenas na arte erudita, mas na vida cotidiana, e acreditar que sutis mudanças que elevem o belo possam levar comunidades a ser mais humanas, gratificantes e conectadas, como defende sir Scruton.

No documentário Por que a Beleza Importa?, Scruton aborda de forma instigante e muito elucidativa como perdemos o senso ético e estético da beleza e como essa perda fez com que a humanidade afundasse ainda mais no que ele chama, com inteira razão, de “deserto espiritual”. Tal deserto, indubitavelmente, é um dos frutos do ideal soberbo e falacioso da modernidade que já não promove mais o senso ético e estético da verdade ou, como bem explica Scruton, da beleza. 

Segundo Scruton, essa beleza pode ser negada ao próximo e ao mundo também no comportamento das pessoas. Nesta semana testemunhamos isso. E exatamente com quem representará o governo brasileiro em Paris. Depois de causar uma confusão histórica no Comitê Olímpico Brasileiro para que recebesse uma credencial de “chefe de Estado”, Janja, vestida com o uniforme da delegação do Brasil, posou para uma foto com atletas. Sentada como uma adolescente mal-educada, mimada e encantada com os brinquedos novos que o tio povo lhe proporciona todo santo dia, Janja mostrou — mais uma vez — a absoluta inaptidão que lhe é comum em entender o que o nome “primeira-dama” significa. 

E este é o problema: Janja não é cafona (apenas) pelas roupas, Janja é cafona pelas atitudes, pelo deslumbramento pelo dinheiro que não é dela, pela posição que nunca teve, pelo papel que não lhe pertence. O Brasil de Janja que vai a Paris é pura breguice — das roupas às atitudes. 

O Brasil de Janja e Lula que vai a Paris é a representação que cultua a negação da beleza como um todo — é o Brasil que desfila de vermelho no 7 de Setembro, que odeia nossas cores, nossos símbolos, nossa beleza. O Brasil de Janja e Lula que vai a Paris é o que Roger Scruton brilhantemente resumiu como “a cult of ugliness” — um culto à feiura.

(revistaoeste)



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