A adesão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X levou a Diocese de Jundiaí, no interior de São Paulo, a declarar que o padre Rodrigo de Oliveira da Silva está em situação de cisma e excomunhão. O bispo diocesano, dom Arnaldo Carvalheiro Neto, também determinou que os fiéis evitem as celebrações, atividades pastorais e iniciativas de formação realizadas no espaço de culto coordenado pelo sacerdote.
Há uma consequência particularmente grave para os fiéis: de acordo com a Diocese, a absolvição sacramental concedida pelo padre no sacramento da Penitência e os casamentos por ele assistidos estão anulados.
Fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X se apresenta como uma organização dedicada à formação sacerdotal e à preservação da tradição católica. Segundo a própria entidade, seu trabalho se apoia na celebração da missa segundo o rito que considera tradicional, tanto na administração dos sacramentos quanto na formação de sacerdotes. Em seu site, a organização afirma estar presente em cerca de sessenta países, com seminários, escolas, casas de retiro, capelanias, missões e obras de caridade.
A origem da ruptura que hoje pesa sobre a Fraternidade remonta justamente à oposição de Lefebvre às transformações promovidas pela Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965. A organização se define como uma “testemunha da Tradição católica” e afirma rejeitar o que considera desordens litúrgicas e novas formulações doutrinárias. Seu lema é Omnia instaurare in Christo — “restaurar todas as coisas em Cristo” —, inspirado no programa do pontificado de São Pio X, papa entre 1903 e 1914.
É essa defesa de uma tradição católica anterior às reformas do Concílio que está no centro da identidade da Fraternidade. A entidade afirma que sua missão é preservar práticas e ensinamentos que considera essenciais à fé e se apresenta como um bastião de resistência ao que o papa Paulo VI chamou de “autodemolição da Igreja”.
A ruptura com Roma
A situação voltou ao centro da atenção da Igreja em 1º de julho de 2026, quando a Fraternidade procedeu à ordenação episcopal de quatro de seus sacerdotes sem mandato apostólico, em desobediência à vontade do papa, segundo a Diocese de Jundiaí. No dia seguinte, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um decreto sobre as consequências canônicas do episódio. As orientações foram posteriormente encaminhadas aos bispos brasileiros pela Nunciatura Apostólica no Brasil.
É nesse contexto que a Diocese enquadra a situação de Rodrigo de Oliveira da Silva. Segundo Dom Arnaldo, a adesão do sacerdote à Fraternidade, diante dos atos praticados pelo grupo, o coloca em situação de cisma e excomunhão, assim como os ministros sagrados vinculados à organização. A consequência, afirma a nota, é que os atos de seu ministério são ilícitos.
A advertência da Diocese não se limita ao sacerdote. A nota afirma que quem aderir formalmente à Fraternidade, assumindo suas motivações de ruptura e recusando concretamente a submissão ao papa e aos bispos unidos a ele, também será excomungado. O mesmo vale, segundo o documento, para aqueles que participarem das atividades promovidas pela organização.
Por isso, Dom Arnaldo considera irregulares as celebrações realizadas por Rodrigo. A orientação aos fiéis é para que as evitem, diante do risco de cisma e excomunhão.
O que diz a Diocese
Para a Igreja Católica, a questão não se resume à preferência por uma forma de celebrar a missa ou à defesa de costumes religiosos tradicionais. O bispo de Jundiaí sustenta que a unidade da Igreja está ligada à comunhão com o papa e com o Colégio Episcopal, à profissão da mesma fé, à celebração dos mesmos sacramentos e à obediência aos legítimos pastores.
Na avaliação expressa no documento, os católicos devem se afastar de ambientes nos quais a ruptura concreta da unidade e da comunhão seja apresentada, explícita ou implicitamente, como caminho para uma suposta “fidelidade mais plena à Igreja”
(veja.abril)