Juntos, o capitão, o ex-ministro e o senador mudaram 21 vezes de partido



O fisiologismo ameaça a democracia. Ciro Gomes já mudou seis vezes de partido. O ex-capitão Jair Bolsonaro trocou sete vezes de camisa. Álvaro Dias é o recordista: migrou por oito partidos.

Das duas, uma: ou o que eles almejam não passa de um projeto pessoal de poder ou os partidos são mesmo cabides de políticos. Ou as duas coisas ao mesmo tempo. Ajuda a entender esse quadro a fidelidade dos Eymael e Fidelix da vida, sempre candidatos e sempre pelo mesmo partido.

Nesses dois casos, o fisiologismo é explícito e absoluto. Nas demais situações, é disfarçado, modulado ou atenuado.

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Na semana passada, o ex-ministro e ex-governador do Ceará liberou as comportas da racionalidade, que mal consegue represar sua irrupção de irracionalidade e incoerência, movida pela busca do poder. Considerou-se vítima da “providência golpista” do PT com o PSB para arrematar o isolamento do candidato do PDT.

Ciro começou a corrida presidencial se imaginando nome de união de uma frente de esquerdas. Agora está falando sozinho. Já se sabe qual é o resultado. Vai bater pesado nos que não quiseram ser seus aliados.
Inteligente como é, na sua fúria não deixou de dar uma mordida venenosa no calcanhar dos petistas:

“Ninguém pode falar de golpe e praticar um golpe dessa natureza”, configurado na desistência das candidaturas da vereadora petista Marília Arraes (neta de Miguel Arraes) para favorecer o candidato do PSB, o governador Paulo Câmara, que vai para a reeleição ao governo de Pernambuco, enquanto Márcio Lacerda, do PSB, é retirado de campo para permitir a tentativa de reeleição do governador Fernando Pimentel, do PT, em Minas Gerais.

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Lacerda e Marília reagiram ao acordo e anunciaram sua disposição de anulá-lo. Mas é pouco provável que consigam. A engrenagem dos partidos brasileiros foi reforçada pela exclusão das empresas do financiamento das campanhas eleitorais, mudança que partiu do 8 para o 80, por oportunismo, ativado pelo PT com a retórica “progressista” do igualitarismo pelo fundo partidário, à base de (muito) dinheiro público.
A voz de comando nos diretórios passou a ser de tenor. No caso de Pernambuco, por exemplo, a posição do diretório do PT pela desistência da candidatura ao governo foi de 230 a 20, com uma abstenção. Há risco de alteração? É pouco provável.

Numa estrutura partidária de respeito, os candidatos teriam que se submeter à decisão da maioria, ainda mais quando ela é esmagadora.

Os dissidentes sabem, porém, que o móvel do novo acordo não é político nem ideológico. É fisiologismo puro, tanto da maioria quanto da minoria. Ao devolver aos petistas o veneno do discurso sobre o golpe, que desmoraliza as teorias jurídica e política, Ciro Gomes atinge os novos adversários, mas a si próprio também. E acaba acertando num alvo mais distante, neste de forma perigosa para todos: o eleitor.

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Não é casual seu desinteresse predominante sobre a eleição. A partir dessa posição, a democracia fica ameaçada.

LÚCIO FLÁVIO PINTO
Editor do Jornal Pessoal
Belém (PA)



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