Avanço da Coluna Prestes para a região nordeste estimulou encontro histórico entre Lampião e Padre Cícero no Ceará

No dia 4 de março de 1926, há exatos 100 anos, acontecia em Juazeiro um encontro entre duas figuras emblemáticas para o Nordeste brasileiro. Nesta data, Virgulino Ferreira, o Lampião, e Padre Cícero estiveram juntos em Juazeiro do Norte (CE), até onde se sabe, pela primeira e única vez na história.
Em entrevista ao Conversa Bem Viver, o jornalista, escritor e autor do livro ‘O Santo e o Cangaceiro’, Robério Santos, trouxe detalhes desse fato que ficou marcado na história.
Robério relata que o responsável indireto desse encontro na região do Cariri foi Luís Carlos Prestes, isso porque ele liderava a Coluna Prestes, que realizava sua marcha pelo interior do Brasil combatendo as tropas do governo de Artur Bernardes.
Temendo que a Coluna entrasse em Juazeiro, Floro Bartolomeu, então deputado, convidou Lampião e seus cangaceiros a fortalecer os batalhões patrióticos, oferecendo a Lampião uma falsa patente de capitão.
O encontro entre Padre Cìcero e Lampião não foi registrado em imagem, mas ficou no imaginário de todo o Brasil.
Confira a entrevista completa
Dá para dizer que se não fosse por Prestes, talvez Lampião e Padre Cícero nunca teriam se encontrado? Gostaria que você falasse mais sobre esse evento.
Talvez tivesse acontecido esse encontro, mas não nessa ocasião. Porque Lampião tinha uma devoção muito grande pelo Padre Cícero. Se você prestar atenção, as roupas dos cangaceiros tinham bottons com o rosto do Padre Cícero, para você ver o nível da devoção que eles tinham. E a família de Lampião morava no Juazeiro.
Eu acredito que cedo ou tarde Lampião teria ido a Juazeiro do Norte para uma outra ocasião, visitar a família, ou qualquer coisa desse tipo. Porém, dentro desse contexto, dentro dessa ocasião, Luís Carlos Prestes foi de uma importância. Não só Prestes, mas também o Floro Bartolomeu, pois parte dele esse convite para Lampião engrossar os batalhões patrióticos que eram criados para combater a coluna Prestes.
Um cangaceiro vale por dez civis sem preparação alguma. Ele já está preparado, conhece o mato, conhece o terreno, conhece armas, conhece táticas de guerra. Foram convidados 50 cabras – Lampião mais 49 – para ir ao Juazeiro do Norte receber uma patente que, na verdade, se tornou uma falácia, porque não tinha eficácia alguma. Mas havia também a promessa de novas armas e novos fardamentos.
Apesar disso, Lampião ainda saiu ganhando nessa história toda. Ele chega no Juazeiro, descansa por 4 dias, visita a família, dá entrevista, tira fotografia, conhece o grande líder espiritual do Nordeste que é o Padre Cícero, recebe essa falsa patente e, coincidência ou não, depois disso ele começa a se autodenominar capitão.
Nas cartas anteriores ao Juazeiro era só “Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião”. Ele escrevia assim nas cartas. Depois desse fato, inclusive no domingo mesmo (dia 7 de março), ele já escreve uma carta para o delegado, (a carta na íntegra, com a letra e grafia de Lampião, está no meu livro) e no final ele já assina como “capitão Lampião”.
Dá para dizer que Lampião, que era uma pessoa que causava temores, uma única vez na história foi recebido como rei ou como capitão?
Os jornais enchiam a ideia de que Lampião foi recebido com aplausos. Eram 50 cavaleiros em fila indiana, 24 cangaceiros de um lado, 24 do outro. Na frente, Lampião e Sabino, entrando no Juazeiro do Norte, naquela quinta-feira de 4 de março de 1926, enfileirados à noite.
Voltando um pouquinho no tempo, Lampião recebe esse convite para ir ao Juazeiro e, receber essa patente. Receber dinheiro, obviamente, pelo trabalho prestado. Conhecer o padre Cícero já estava nos planos dele.
Lampião chega lá e recebe a notícia de que não era para ele ir mais para o Juazeiro do Norte. Porque Floro Bartolomeu estava no Rio de Janeiro, adoentado. E estava. Lampião saiu [de Juazeiro] dia 7, e Floro morreu no dia 8 no Rio de Janeiro.
Lampião chega na entrada do Juazeiro do Norte e diz: “Já que estou aqui, eu vou. Não vou voltar de jeito nenhum.” E entra no Juazeiro Triunfante. Nesse mesmo dia, ele já recebe a visita do padre Cícero para dizer que estava garantido que ninguém iria mexer com ele, contanto que ele também não mexesse com ninguém. Ele também aconselhou Lampião a deixar o cangaço. Lampião disse: “Só daqui a 3 anos”.
No outro dia, Lampião começa as movimentações. É quando ele recebe essa falsa patente que, na verdade, muitas pessoas acham que tem uma serventia.
Nesse mesmo dia, Benjamim Abraão,, o mesmo que fez as fotografias e vídeos do Lampião em 1936, dez anos depois, vai ao Crato buscar um fotógrafo, o Pedro Maia. No dia 6, sábado, Lampião recebe Pedro Maia e também o [jornalista] Otacílio Macedo, que vai fazer uma entrevista.
Na ocasião, Lampião ficou num sobrado muito próximo da casa dos familiares, então ele ficava recebendo a visita do irmão Ezequiel, do irmão João Ferreira, das irmãs. Há relatos de que ele encontrou padre Cícero uma segunda vez, durante a assinatura a patente. E aí Lampião faz uma série de fotografias incríveis feitas por Pedro Maia e Lauro Cabral.
Nenhuma com o Padre Cícero?
Não tem nenhuma foto. Os repórteres depois disseram que [àquela época] as pessoas falavam mal do padre Cícero por ele receber “todo o tipo de pessoas” lá no Juazeiro. E a imprensa, que era contra o padre Cícero, batia nele. Imagina então ele aparecer, do nada, com uma foto ao lado de Lampião.
Não existe foto de padre Cícero com Lampião, mas existem cartas. Inclusive, no meu livro, tem três cartas do padre Cícero falando sobre a passagem de Prestes na região. Uma das cartas é do Padre Cícero pedindo para Preste se entregar, ela está datada de 20 de fevereiro de 1926. Teve a carta de Padre Cícero para os jornais dizendo que Lampião esteve lá como romeiro para defender o Juazeiro, defender o Padre Cícero e o medo do Juazeiro ser atacado pela coluna.
Quando criticaram Padre Cícero porque ele não prendeu o Lampião, ele disse: “Não é meu papel prendê-lo. É papel do governo, é papel do Estado. As portas do Juazeiro não foram fechadas.”
Os jornais da capital Fortaleza estavam narrando detalhe por detalhe, passo a passo do Lampião em tempo real. Fortaleza toda sabia, então por que não foram atrás de Lampião? Porque havia essa probabilidade da regeneração de Lampião e de ele ser incorporado aos batalhões patrióticos.
Eu queria aproveitar e pedir para você trazer um ponto que às vezes a gente desconhece. A gente olha para o Padre Cícero hoje com o respeito gigante que ele tem, e às vezes não se lembra que, em vida, ele foi muito contestado.
Pela própria igreja. Inclusive, ele não era padre, a gente chama de padre. Mas existem dois nomes: padrinho Cícero e padre Cícero. As pessoas chamam padre Cícero e é um termo errado porque ele não era mais padre, ele não foi padre em momento algum do século XX.
Ele era muito contestado. Era controverso, poderoso. Ele tinha um poder muito grande com os coronéis. Quem quiser estudar um pouquinho mais, pesquise sobre o pacto dos coronéis guiado por ele. Eram as cidades com seus coronéis lutando, brigando, se matando, matando familiares, e ele conseguiu juntar todos os coronéis da cidade do Cariri em uma grande reunião para eles assinarem um decreto que definia que eles não iriam mais se matar e dar amparo a bandido.
Um homem que rezava, o homem do povo. Eu sou devoto do Padre Cícero Romão e, inclusive, tem uma música que fala: “Sou devoto do padre Cícero Romão, sou tiete do nosso rei do Cangaço”.
O padre Cícero e o Lampião, eles têm um poder mediático gigantesco, em vida e em morte. Hoje, em qualquer lugar que você chega, você encontra uma estátua ou um quadro do padre Cícero. Se você chegar em qualquer feira de artesanato, você vai encontrar uma estátua do Lampião quase venerada como um santo. Não que ele seja santo. Nós tivemos casos de cangaceiros que se tornaram santos populares, como o Jararaca lá em Mossoró, mas tem gente que tem uma devoção quase beirando a santidade com o Lampião, de fazer tatuagens, de defender mesmo.
Eu tenho um canal, o Cangaço na literatura, e eu vejo isso sempre [nos comentários]: é uma devoção gigantesca, uma briga muito grande. Quando eu coloco postagens do Padre Cícero e de Lampião, são os únicos dois personagens que os comentários são os mesmos e a briga é grande de quem defende e quem apoia. Parece que eu estou falando da mesma pessoa. Não que Padre Cícero era bandido e não que Lampião era santo. Mas eu estou falando de termos mediáticos, termos de potencial histórico. Os dois têm o mesmo nível aqui no Nordeste. Eu me inclino a dizer que são os dois maiores ícones do nosso Nordeste em termos históricos, midiáticos.
Lampião tem muitos devotos, tem muitos apoiadores, pessoas que o idolatram. Mas em vida, existia também esse movimento ou as pessoas apenas temiam e viam-no como um grande criminoso?
Era [idolatrado] por quem o apoiava, quem tinha relação com ele, que nós chamamos de coiteiros. Uma pessoa que tinha uma boa relação com Lampião, que o recebia na fazenda, que fazia negócios com Lampião. Lampião deixava dinheiro, a pessoa comprava mantimentos. Ele chegava numa bodega, mandava pegar 200 pães, tirava o dinheiro e pagava. Ele não batia no dono da bodega e ia embora. São coisas que as pessoas, às vezes, não entendem. Todo personagem histórico vai ter os prós e contras em vida e em morte. Qualquer personagem histórico. Eu sempre digo que a fama e o sucesso trazem na bagagem, usando um termo atual, os haters que sempre existiram.
Você tem na Bíblia os haters de Cristo. Você acha que todo mundo era de amores com Jesus Cristo? Não era. O João Batista teve a cabeça cortada e colocada numa bandeja, igual aos cangaceiros que tiveram a cabeça cortada. Então, a história é cíclica, a história sempre vai acontecer.
Lampião vai ter os seus apoiadores, vai ter os seus coiteiros e também vai ter as pessoas que tinham ódio. Às vezes, um filho que perdeu um pai na mão de Lampião por alguma intriga, alguma briga, vai crescer com aquilo ali em mente e quem sabe um dia ele pudesse até tirar a vida de um cangaceiro, pensando naquela atrocidade acometida com a família dele.
A gente tem que entender um personagem controverso como Lampião, que policiais de sete estados estavam em busca dele, querendo a cabeça dele, e conseguiram. Aqui na Grota do Angico, onde eu moro, morreram Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros.