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O médico, com mais de uma década e meia de experiência de profissão, saiu do hospital, entrou no seu carro e começou a chorar. Além de um grande e dedicado profissional, é um ser humano que se emociona com a tragédia alheia. Não conseguiu suportar o sofrimento que viu de perto; a falta de estrutura e os problemas que prejudicam o trabalho dos profissionais da saúde e causam uma espécie de martírio para os doentes. A cena, real, de certa forma sintetiza a situação da saúde pública que, mesmo com todos os investimentos e esforços, não consegue dar conta de tanta gente que dela precisa. Não há ações ou respostas do governo? Claro que as há. Mas as deficiências são tantas e acumuladas há tantos anos, que por mais que se faça, quatro ou cinco vezes mais há que se fazer. O tema não sai da pauta, também na semana em que o sempre superlotado Hospital João Paulo II foi apresentado ao país, no programa Domingo Espetacular da Record, como o pior do Brasil. Certamente não o é, não só porque tem uma das equipes de profissionais inigualável, como porque há situações piores, em recantos distantes desta gigantesca nação. Mas serve de alerta: precisamos melhorar muito. E com urgência. O Estado anuncia várias medidas na área da saúde, inclusive para diminuir a fila quilométrica, de cerca de cinco mil cirurgias, numa interminável fila de espera. O governo mostra avanços, por exemplo, no Hospital de Retaguarda, o antigo Regina Pacis. Só nele foram feitas, segundo a Sesau, 2.104 cirurgias no primeiro semestre. Isso significa 350 por mês; mais de onze por dia. É um bom número, mas os problemas da saúde são muito maiores.
Um deles, muito grave, é a parada total nas obras do Hospital de Urgência e Emergência. Começou na gestão de Confúcio Moura, ao lado do Hospital de Base, ficou só nos pilares. Anunciado em sistema privado, em que uma empresa faz a obra, a aluga por 30 anos ao Estado e depois ele passa a ser público, o Heuro continua parado. Quase dois anos foram perdidos. Ao que tudo indica, se terá que começar tudo de novo. Sem o Heuro, que ajudaria a desafogar o João Paulo II, que é o que nos resta, não há solução para os graves problemas que ele enfrenta. Mutirões de cirurgias e outras medidas emergenciais podem aliviar, mas o restante da estrutura hospitalar precisa ainda avançar muito, mesmo que se saiba que os gestores, além das imensas dificuldades do setor, ainda têm que enfrentar uma burocracia infernal, até para comprar produtos básicos e essenciais para cirurgias, apenas como um exemplo. Enquanto não houver medidas práticas, urgentes e desburocratizadas; enquanto o Heuro for apenas um esqueleto sem corpo; enquanto não se acabar com a filas das cirurgias, não teremos uma saúde pública à altura do que o rondoniense precisa e merece!
Autor: Sérgio Pires
