Entre o discurso oficial e as ruas: Anuário contradiz o governo revelando aumento dos crimes e avanço de facções em Rondônia



A narrativa de segurança sob controle frequentemente divulgada em pronunciamentos do Governo de Rondônia colidiu frontalmente com os dados oficiais trazidos pelo 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Enquanto a propaganda governamental insiste em anunciar seguidas reduções nos índices de criminalidade, o retrato das estatísticas mostra uma realidade oposta e alarmante: Rondônia integra o seleto e preocupante grupo de apenas sete estados brasileiros onde as Mortes Violentas Intencionais (MVI) registraram alta em 2025, contrapondo-se à tendência de queda observada na média nacional.

A discrepância entre os discursos oficiais e a vivência cotidiana do rondoniense reflete-se não apenas nos números de assassinatos, mas na presença visível do crime organizado que avança sobre bairros inteiros da capital, Porto Velho, impondo um "Estado paralelo" sob a chancelas de facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (frequentemente pichado ou referido localmente como Comando Vermelho/Ponto Vermelho/CV/PV).

As estatísticas que contradizem o Governo

De acordo com o levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Rondônia registrou um aumento de 7,5% nas Mortes Violentas Intencionais no último período avaliado. Apenas Rio Grande do Norte (+19,6%), Rondônia (+7,5%), Acre (+6,3%), Roraima (+5,8%), Distrito Federal (+5,8%), Mato Grosso do Sul (+4,9%) e Rio de Janeiro (+2,1%) registraram piora nesse indicador em todo o país.

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Indicador de Criminalidade em RondôniaVariação Registrada
Mortes Violentas Intencionais (MVI)+7,5% (na contramão do Brasil)
Mortes por Intervenção Policial+485,6% (de 8 para 47 casos)
Feminicídios+66,0% (2,9 por 100 mil mulheres)
Ocorrências de Tráfico de Drogas+41,5% (maior alta do Norte)
Descumprimento de Medidas Protetivas+38,2% (maior alta do país)

O crescimento das mortes violently produzidas no estado foi impulsionado, em grande medida, pelo salto expressivo nas mortes decorrentes de intervenções policiais, que saltaram de 8 ocorrências para 47 casos em um único ano — um crescimento de 485,6%. Tais mortes já representam quase 10% de todos os homicídios registrados no território estadual, indicando um cenário de forte letalidade policial e letalidade no confronto com o crime organizado.

Além dos homicídios, a violência de gênero atinge patamares críticos. O estado ostenta a segunda maior taxa de feminicídio do país (2,9 por 100 mil mulheres) e a segunda maior taxa geral de estupros (97,1 casos por 100 mil habitantes), liderando também o ranking nacional em descumprimento de medidas protetivas de urgência.

O 'Poder Parelelo' impresso nos muros de Porto Velho

Enquanto as autoridades divulgam balanços otimistas em solenidades, a população da capital vivencia a demarcação ostensiva de território por organizações criminosas. Nos muros de bairros periféricos e até de áreas centrais de Porto Velho, pichações com siglas, avisos e regras impostas pelas facções delimitam as "fronteiras" de atuação do crime organizado.

Mensagens como "Proibido roubar na quebrada", "Abaixo a tirania", avisos de "Luz baixa e capacete sem viseira" ou delimitações explícitas de domínio do PCC e do CV tornaram-se o cartão de visita de um poder paralelo que dita horários de circulação, cobra "taxas de proteção" do comércio local e impõe o tribunal do crime para julgar litígios comunitários.

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Fatores de expansão e vulnerabilidade urbana

  • Rota Estratégica do Narcotráfico: Rondônia ocupa posição geográfica chave no corredor de escoamento de cocaína oriunda da Bolívia e do Peru, tornando a capital um entreposto disputado e valioso para a logística faccionada.
  • Aumento no Tráfico Local: As ocorrências de tráfico cresceram 41,5% no estado, o maior salto percentual de toda a Região Norte.
  • Crimes Patrimoniais em Escala: Em Porto Velho, a taxa de roubo e furto de celulares atingiu 1.123,2 por 100 mil habitantes, colocando a capital rondoniense no 6º lugar entre as cidades brasileiras com mais de 100 mil habitantes mais afetadas por essa modalidade criminosa.
  • Apreensão Recorde de Armas: Embora o estado lidere o país na retirada de armas de circulação (130,1 por 100 mil habitantes), o volume apreendido sinaliza a imensa quantidade de armamento de grosso calibre em trânsito e em uso na região.

O desafio da transparência e das políticas públicas

O contraste entre a retórica oficial e a realidade traduzida pelos números coloca em xeque a efetividade do modelo de segurança pública adotado. Especialistas apontam que a focar unicamente em operações ostensivas e na divulgação seletiva de indicadores pontuais não substitui uma política integrada de inteligência, combate à lavagem de dinheiro das facções e prevenção primária à violência.

A população rondoniense se vê encurralada entre o discurso de pacificação do Palácio do Governo e o cotidiano marcado pelo receio das pichações faccionadas, pelas taxas de violência contra a mulher e pela presença diária do poder paralelo nas ruas.

Fonte: noticiastudoaqui.com



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