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A pandemia do coronavírus obriga a OMC a rever de maneira radical a previsão do comércio mundial em 2020 e alerta que o resultado deve ser o pior em uma geração. Em seu informe publicado nesta quarta-feira, a entidade comandada pelo brasileiro Roberto Azevedo indicou que o fluxo comercial no mundo irá sofrer uma contração de até 32% no ano, um tombo superior ao que foi registrado na crise de 2008 e equivalente ao que existiu depois da Grande Depressão, nos anos 30.
O levantamento também revela que o Brasil está estagnado entre os maiores exportadores do mundo. Dados da OMC revelam que o Brasil terminou 2019 na 27a posição, com queda de 7% nas vendas em comparação a 2018. A redução foi uma das maiores entre as principais economias do mundo. Em 2018, o Brasil já era o 27o colocado e, um ano antes, ocupava a 26a posição.
De uma forma global, a paralisia da China nos dois primeiros meses do ano e a adoção de quarentanas em diversos países pelo mundo fecharam fábricas, lojas e interromperam o comércio de uma maneira inédita em um período de paz.
O resultado pode ser uma contração que poderia variar entre 13% e 32%. De acordo com a OMC, a queda é explicada "pela natureza sem precedentes desta crise sanitária e pela incerteza em torno do seu impacto econômico preciso".
"Comparar com a Grande Depressão (de 29) é inevitável", alertou Azevedo.
As estimativas da recuperação esperada em 2021 são igualmente incertas, dependendo os resultados em grande medida da duração do surto e da eficácia das respostas políticas. Mas, se houver uma forte cooperação internacional, a retomada poderia ser relativamente rápida.
"Esta crise é, antes de mais, uma crise sanitária que obrigou os governos a tomar medidas sem precedentes para proteger a vida das pessoas", afirmou Azevêdo. "As inevitáveis quedas no comércio e na produção terão consequências dolorosas para as famílias e as empresas, para além do sofrimento humano causado pela própria doença"", disse.
"O objetivo imediato é controlar a pandemia e atenuar os prejuízos econômicos para as pessoas, as empresas e os países. Mas os responsáveis políticos devem começar a planear as consequências da pandemia", alertou.
"Estes números são feios - não há como contornar isso", disse o brasileiro. "Mas é possível uma recuperação rápida e vigorosa. As decisões tomadas agora irão determinar a forma futura da recuperação e as perspectivas de crescimento global. Precisamos lançar as bases para uma recuperação forte, sustentada e socialmente inclusiva", defendeu.
"O comércio será aqui um ingrediente importante, juntamente com a política fiscal e monetária. Manter os mercados abertos e previsíveis, bem como promover um ambiente empresarial mais favorável em geral, será fundamental para estimular o investimento renovado de que vamos precisar. E, se os países trabalharem em conjunto, assistiremos a uma recuperação muito mais rápida do que se cada país agir sozinho", disse.
Em 2019, a OMC estimava que o comércio mundial cresceria em 3% em 2020. Os mais afetados, porém, seriam os asiáticos e os países da América do Norte, com queda de 36% e 40%, respectivamente.
Impacto na América do Sul e Brasil
Na América do Sul, a OMC estima que o comércio deve sofrer uma queda que pode variar entre 12,9% e 31,3% em exportações.
A região ainda seria o local mais afetado pela queda de importações, com uma contração que poderia chegar a 43%.
Segundo a entidade, a região pode ser o continente que mais sofrerá uma contração de seu PIB. Num cenário positivo, a queda pode ser de 4,3%. Mas chegaria a 11% num cenário mais pessimista.
O segundo maior impacto seria registrado na Europa, com queda de 10%. No mundo, a contração poderia variar entre 2,5% e 8,8%.
De acordo com a OMC, existe a possibilidade de uma retomada em 2021, com uma expansão no comércio mundial que poderia variar entre 21% e 24%.
Contração já em 2019
Os resultados previstos para 2020 ocorrem depois de um ano de contração no comércio mundial. Em 2019, a OMC constata que houve uma contração de 3% em valores no fluxo de exportações, além de uma queda de 0,1% em volumes.
A estimativa em abril de 2018 era de que, para 2019, a expansão fosse de 4%. Em setembro de 2018, ela já havia sido revista para 3,7%. Uma nova previsão foi realizada, com apenas 2,6%. Mas os números finais foram ainda mais baixos,.
Brasil estagnado
Os dados também revelam que o Brasil, apesar de um política de abertura comercial, continua patinando no mercado internacional. No primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro, o país ficou estagnado no ranking da OMC, com vendas de US$ 223 milhões.
Em 2018, as estimativas apontaram que a guerra comercial entre americanos e chineses beneficiou o Brasil em alguns setores pontuais. Em vendas, portanto, o País registrou um aumento de 10% em 2018, também ajudado pela expansão dos preços de commodities. A taxa de crescimento no País ficou dentro da média mundial, que também registrou uma expansão em valores de 10% em 2018. No total, o Brasil exportou US$ 240 bilhões e viu um aumento de 35% de suas vendas para a China. Em grande parte, essa venda foi composta pela soja, substituindo o produto americano.
Mas a situação mudou de forma radical em 2019. De acordo com a entidade, a queda no comércio em valores foi de 7%. No ranking divulgado nesta quarta-feira, o Brasil foi superado pelo Vietnã, além de Malásia, Arábia Saudita e outras economias.
Em termos de participação no mercado internacional, o Brasil manteve uma fatia de 1,2%, a mesma taxa estagnada desde 2016.
O País, que chegou a ser o 22º maior exportador do mundo, previa estar entre os 20 primeiros no ranking internacional, o que nunca ocorreu.
Nessa classificação da OMC, a líder é a China, com US$ 2,4 trilhões em vendas em 2019. Os americanos aparecem com US$ 1,6 trilhão.
Importação
Entre os importadores, o país também ficou estagnado na 28o posição, com uma contração de 2% e um valor total de US$ 184 bilhões.
Em 2018, uma leve recuperação do comércio tinha sido registrada, numa relação direta com o comportamento da economia e o aumento das compras diante do fim da recessão. A taxa de expansão em valores de quase 20% naquele ano foi duas vezes maior que a média mundial, permitindo que o Brasil se posicione na 28a colocação. Em volume, o crescimento de importações foi de mais de 11%, taxa duas vezes maior que o restante da América do Sul.
Em 2016, a recessão no Brasil levou o País a sofrer a maior queda de importações entre as grandes economias do mundo. A contração, segundo a OMC, já havia começado em 2014 e 2015. Em 2016, a queda foi de quase 20% nas importações, bem acima da média de uma redução de 3% no mundo. O resultado, de US$ 143 bilhões, levou o Brasil a despencar no ranking dos maiores importadores. Em 2013 e 2014, o Brasil aparecia na 21a posição entre as economias que mais importavam. Ao final de 2016, o País estava na 28ª posição, superado até mesmo pela pequena economia da Áustria.
Fonte: Jamil Chade/Uol
