A matança dos visons e o risco real de animais passarem o novo coronavírus



 

Só de olhar a imagem de um desses bichinhos, meu coração fica partido. Na semana passada, os dinamarqueses prometeram abater cerca de 17 milhões de visons para evitar que circule pelo planeta uma versão ou, melhor dizendo, uma cepa diferente do novo coronavírus. Ela traria uma mutação que, sabe-se lá, em tese poderia torná-lo mais ameaçador ainda, talvez até comprometendo a eficácia das vacinas que estão sendo testadas por aí.

Eu nem fazia ideia, até então, que um dos setores fortes da economia da Jutlândia seriam suas 270 fazendas monumentais de visons — e foi nessa península que o problema eclodiu na Dinamarca. Até o momento, há 12 casos confirmados na região de pessoas que foram infectadas com essa versão bombada do Sars-Cov 2.

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Pensei: vale o sacrifício? Há quem aposte que sim. Não consigo evitar um arrepio — e não que os milhões de animais sacrificados fossem ter um destino menos cruel. Para meu espanto, todo ano Dinamarca, Polônia e Holanda, os três países juntos, matam cerca de 50 milhões desses mamíferos fofos para virarem casaco de madame, costume que já deveria estar fora de moda.

Por falar em Holanda, para aquecer a discussão sobre a transmissão do novo coronavírus de animais para o bicho homem, foram cientistas de diversas instituições de lá, liderados por virologistas da Universidade Erasmus de Roterdã, que anteontem, 10 de novembro, publicaram um estudo na prestigiada revista Science . Eles analisaram o que se passava em dezesseis das maiores fazendas de visons de seu país.

Pois bem: não só encontraram muitos animais contaminados pelo Sars-CoV 2 como constataram que 68% das pessoas que trabalhavam nesses locais ou que conviviam com os funcionários tinham sido infectadas pelo novo coronavírus. Ora, isso seria uma proporção bem mais alta do que a da população holandesa em geral.

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Quem passou o Sars-CoV 2 para quem? E que outras espécies têm potencial de pegar e passar o vírus da covid-19 adiante? Essa é uma importante questão de vigilância sanitária. "Afinal, desde o início já sabíamos: estávamos diante de uma zoonose", observa o infectologista Alexandre Naime Barbosa, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista), em Botucatu. Ou seja, falamos de uma doença que animais podem transmitir para o ser humano e que — atenção! — seres humanos podem transmitir para animais. "Isso é bom esclarecer: é sempre uma via de mão dupla", diz o médico.

Mutação costuma ser sinônimo de adaptação

É conhecido da ciência: toda vez que um vírus passa de uma espécie animal para outra, alguma mutação ele ganha. Afinal, é um novo organismo — leia, um novo ambiente se replicar, trazendo intrinsicamente desafios inéditos que, para serem superados, podem exigir essas pequenas alterações nos genes.

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Aliás, no estudo holandês, o time de cientistas flagrou nos vírus encontrados no organismo dos visons uma mutação conhecida pela sigla D614G. Essa mutação está presente, feito uma marca registrada, no Sars CoV 2 que infecta o organismo humano.Portanto, dizem os autores, esse seria um sinal quase inequívoco de que foi o homem que transmitiu o novo coronavírus para os bichinhos. "Provavelmente, funcionários infectados da fazenda", imagina Alexandre Naime Barbosa.

Em compensação, examinando as amostras dos empregados que testaram positivo, os pesquisadores holandeses também acharam cepas de Sars-CoV 2 com mutações que seriam uma espécie de assinatura de sua passagem pelos visons. Isto é, os bichos, depois de contaminados pelo homem, deram o troco. E transmitiram esse coronavírus com novas mutações, que surgiram no processo de adaptação do causador da covid-19 ao organismo deles.

Aliás, os pobres visons reagem como nós. Uns são completamente assintomáticos. Outros ficam derrubados com secreções e febris até que se recuperam. E outros desenvolvem pneumonias graves, morrendo de covid-19.

No início eram os morcegos?

É analisando o material genético, comparando algumas discretíssimas diferenças do coronavírus encontrado em uma espécie para o coronavírus encontrado em outra espécie, que os cientistas tentam reconstruir a história e entender essa agonia que a humanidade enfrenta agora — da mesma maneira como os holandeses fizeram ao examinarem as mutações do Sars-CoV 2 dos visons e do mesmo vírus em quem vivia em suas fazendas de criação.

"Por enquanto, a suspeita é que, no início, o vírus tenha realmente infectado morcegos, passando para o pangolim, um tatuzinho asiático que não tem carapaça como os nossos e que era vendido na feira de Wuhan", conta o professor Barbosa.

O pangolim não tem hábitos alimentares dos mais apreciáveis. Gosta de mordiscar fezes alheias. É possível que tenha petiscado cocô de morcego infectado pelo Sars-CoV2, por exemplo. Tudo é hipótese. Certo mesmo é que o vírus encontrado nos pangolins veio dos morcegos e o vírus encontrado em gente como a gente está mais próximo daquele dos pangolins, refazendo a trajetória.

Mas então todo esse caos teria começado com alguém jantando um ensopado de tatu? Opa, talvez não! "Mais provável é o caçador desses animais, pelo contato com eles, ter se contaminado", pensa o infectologista. Ah, sim, bichos infectados podem transmitir o vírus da covid-19 pelo ar, feito nós, se houver proximidade.

"Daí nosso caçador infectado teria ido à feira para comercializar o produto de sua caça e, como lá era um local de grande aglomeração de pessoas, acabou transmitindo para vários frequentadores", especula o professor. De fato, pelo estrago que o novo coronavírus fez entre quem visitou o mercado chinês, essa ideia parece mesmo mais plausível.

Nariz de um, focinho de outro

Mas não é qualquer espécie que pode, digamos, pegar pra valer o novo coronavírus da gente ou de outros animais, desenvolver e transmitir a covid-19, como me explica o professor Alexandre Naime Barbosa. O vírus usa como porta de entrada nas células onde se replica um receptor específico, aquele que os médicos apontam como o da ECA 2.

Portanto, os cientistas agora correm atrás de espécies que, como a humana, tenham esses receptores aos montes no trato respiratório alto, isto é, no nariz ou no focinho, na garganta? Esses são os principais suspeitos, até que se prove o contrário.

"Sabemos que não só coronavírus, mas vírus da família do influenza da gripe podem se adaptar e serem transmitidos para nós por uma dessas espécies que têm semelhanças no tal trato respiratório alto com a gente", explica o médico brasileiro.

Puxe pela memória: conhecemos bem a gripe suína, que herdamos dos porcos. Sim, criações de porcos — em teoria — merecem um olhar esperto nestes tempos. Porcos têm o trato respiratório semelhante ao nosso. Amanhã ou depois, se acontecer com eles algo como se nota com os visons — algo que ainda não há registro —, ai, ai? Será o fim do bacon, do presunto e da salsicha. Mas, repito, até o momento os porcos passam bem.

Velha conhecida também é a gripe aviária, causada por um influenza capaz de transitar muito bem de aves para seres humanos e vice-versa. Ou seja, criações de galinha merecem vigilância.

Claro, os mustelídeos estão nessa turma de animais que têm portas de entrada para o Sars-CoV 2 com abundância no trato respiratório. Sim, os visons são mustelídeos, assim como doninhas, texugos, furões e lontras, para dar mais exemplos. "A diferença, que pesou para a disseminação do novo coronavírus nos visons, é que há uma quantidade enorme de animais vivendo juntos e confinados no mesmo ambiente nessas fazendas", explica o professor Barbosa. Sim, improvável que um texugo na natureza cause o mesmo estrago se for contaminado. Ou um camelo na solidão do deserto — este não é mustelídeo, claro, mas também pode ser presa do novo coronavírus pela tal semelhança das células do trato respiratório com as nossas.

Na pandemia, evitar aglomeração seria lei válida para toda a natureza

Ah, sim, não basta tem um focinho parecido com o nosso nariz na intimidade das células. É preciso aglomeração também. No caso de seres humanos, aglomerar-se é uma escolha irracional. Já os animais, coitados, são confinados em superpopulações juntos pelas mãos do bicho homem. A diferença é que, humanos, agimos de modo arriscado por opção. "No caso dos morcegos, se você reparar, eles também vivem em grandes populações dentro das cavernas", observa o professor Barbosa.

Como ficam os animais domésticos

O novo coronavírus já foi encontrado em um sem-número de espécies animais. "Isso não quer dizer que todos possam adoecer por causa dele e transmiti-lo", vai logo tranquilizando o infectologista. "Voltamos à história de ter ou não ter um trato respiratório parecido com o nosso", diz o médico. "Não é o caso de cachorros e gatos domésticos. Aliás, provavelmente o homem, sem ter clareza disso, acabou colocando esses animais para dentro de casa, inclusive porque não transmitem doenças respiratórias para ele."

O próprio estudo publicado há dois dias na Science faz um levantamento de trabalhos em que os pesquisadores testam se animais infectados pelo novo coronavírus são capazes de passá-lo para outras espécies. Há experiências sendo realizadas com cachorros, alguns felinos, hamsters, coelhos macacos, marmotas e aves migratórias. Adianto o que temos até o momento: porcos e galinhas, que em princípio poderiam nos passar certas cepas do influenza da gripe, não fizeram o mesmo com o Sars-CoV 2, de acordo com esses trabalhos. Já alguns felinos selvagens poderiam transmitir, por exemplo. "A vigilância terá de ser constante", diz o professor da Unesp.

Por onde andaram essas patinhas?

Alexandre Naime Barbosa reforça que, mesmo com alguns trabalhos apontando a presença do Sars-CoV 2 em cachorros, é implausível que esses animais adoeçam com células no trato respiratório tão diferentes das nossas.É como se o vírus estivesse neles quase como uma sujeira captada no ar, sem passar disso e em quantidade insuficiente para a transmissão.

Mas, por falar em sujeira, as patas são outra história. Bom eu dizer que o infectologista também acha improvável — para não dizer o cúmulo do azar — "um cão pisar no cuspe de alguém infectado na calçada, com vírus ainda viáveis para transmitir a covid-19 por lá". Para ele, mais fácil o nosso melhor amigo trazer outros micro-organismos para casa, pisando na caca de seus companheiros de passeio pelo barreio, em poças de água suja que sempre se acumulam nas nossas calçadas e tudo mais.

"Em tempos de pandemia, as pessoas estão mudando muitos hábitos de higiene e se dando conta até disso", observa o veterinário Paulo César Conelian, da Clínica Ponta Porã, em São Paulo. "Da mesma maneira como aprendemos a deixar os sapatos na porta de casa, pode ser interessante higienizar as patas depois de uma caminhada na rua se o animal costuma subir em sofás ou em camas", diz ele. Mas avisa: nada de álcool em gel, que é irritante para a pele dos cachorros. "Passe água com sabonete, desses bactericidas para uso humano mesmo, sem jamais esfregar muito. Simplesmente ensaboe levamente e enxague ligeiro", ensina.

A sugestão de um sabonete bactericida, no caso, não tem a ver com o Sars-CoV2 que não é bactéria e contra o qual qualquer sabão ou detergente resolveria. É para espantar bactérias importadas das calçadas sujas. Em relação à covid-19, o pet está seguro e continua sendo um alento aos seus donos ter sua companhia nessa fase tão… selvagem.

Fonte: Uol



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