Interesses econômicos vencem a ciência, dizem especialistas



A 24ª Conferência das Partes (COP-24) da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, encerrada sábado (15) em Katowice, na Polônia, cumpriu seu principal objetivo ao aprovar o Programa de Trabalho do Acordo de Paris. Mas, para diversos especialistas, faltou veemência ao texto final, que, por influência de interesses econômicos, não reflete os alertas da ciência sobre a urgência extrema de uma redução global de emissões.

No domingo (16), a aprovação do programa de trabalho – uma espécie de “manual de instruções” de 130 páginas para a aplicação do acordo – foi comemorada pelos mais de 23 mil delegados que participaram das negociações. A tarefa não era trivial: as decisões nas COPs são feitas por consenso e era preciso que 196 países entrassem em total acordo sobre cada termo.

As discussões foram longas e os negociadores resolveram questões técnicas espinhosas, como as regras de transparência, que permitem verificar até que ponto os países cumprirão suas metas de redução de emissões.

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Eles também conseguiram um avanço promissor ao estabelecer que haverá em 2020 uma revisão de metas de financiamento climático para os países em desenvolvimento, atualmente fixada em US$ 100 bilhões anuais de 2020 a 2025.

ALERTA DESCONSIDERADO

Mas, do ponto de vista da ciência climática, a COP-24 foi considerada frustrante. Esperava-se que os negociadores reunidos na Polônia estabelecessem níveis de ambição muito maiores.

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Principalmente após o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) ter lançado o histórico Relatório Especial sobre Impactos do Aquecimento Global de 1,5°C (SR15).

Publicado em outubro, o SR15 mostra que a humanidade tem apenas mais 12 anos para cortar emissões em 45% se quiser cumprir a meta de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5˚C neste século. E revela que, com um aquecimento de 2˚C, as consequências para pessoas, ecossistemas e a economia global serão muito mais graves.

“Minha maior preocupação é que as conversações da ONU falharam em alinhar as ambições à ciência”, disse Johan Rockström, do Centro de Resiliência de Estocolmo (Suécia) ao jornal britânico The Guardian.

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“Continuamos a seguir um caminho que nos levará a um perigoso aumento de temperatura de 3 ou 4 graus neste século. Os eventos extremos já estão atingindo as pessoas em todo o planeta, com apenas um grau de aquecimento”, afirmou Rockström, cientista conhecido por ter proposto o já clássico conceito de “limites planetários”, que identifica nove fronteiras ambientais que não podem ser ultrapassadas sob pena de inviabilizar as condições de vida para as sociedades humanas.

INTERESSES ECONÔMICOS

Para o físico brasileiro Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e integrante do IPCC, o importante relatório SR15 não foi satisfatoriamente incluído no texto do programa de trabalho por conta de interesses econômicos ligados à indústria dos combustíveis fósseis.

“Houve uma grande briga na reunião sobre incluir ou não uma referência mais enfática ao relatório no texto final. O que alguns países como a Arábia Saudita e os Estados Unidos estão deixando claro é que farão o possível e o impossível para bloquear qualquer aumento nas ambições”, disse Artaxo a Direto da Ciência.

Durante o evento na Polônia, a Arábia Saudita, os Estados Unidos, a Rússia e o Kwait – quatro dos maiores produtores de petróleo do mundo – se aliaram contra as demais nações com o objetivo de amenizar a linguagem utilizada para se referir ao documento do IPCC. O texto final manteve a terminologia defendida pela maioria dos países, mas, para Artaxo, o episódio mostrou que o Acordo de Paris corre riscos.

“Os Estados Unidos, sob liderança de Donald Trump, mostraram que estão trabalhando para boicotar o Acordo de Paris. Mesmo que não saiam do acordo, tentarão sabotá-lo. Eles estão respondendo aos interesses da indústria de combustíveis fósseis”, disse Artaxo.

Para Artaxo, a importância da aprovação do programa de trabalho é grande, mas não deve ser exagerada, porque esse “livro de regras” não servirá para nada se não houver políticas públicas mais ambiciosas para reduzir as emissões. O físico da USP acrescentou:

Definiu-se um conjunto de regras para reduzir minimamente as emissões – e a ciência já mostrou que com essas metas nós teremos um aquecimento de 2,7˚C a 3˚C, o que seria catastrófico. Sem mais ambição, não vamos a lugar algum – e a conferência falhou nesse aspecto. Países frontalmente contrários à redução de emissões mostraram que haverá pouca vontade política para isso. No fundo, o resultado na Polônia foi muito ruim.

FALTA DE AMBIÇÃO

A necessidade de acelerar as reduções de emissões de forma mais ambiciosa também foi destacada pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, durante a conferência, de acordo com o jornal britânico The Telegraph. Na quinta-feira (13), já na reta final das negociações, ele afirmou:

De agora em diante, minhas cinco prioridades serão: ambição, ambição, ambição, ambição e ambição. E a ambição deve guiar todos os estados-membro enquanto eles preparam seus planos de cortes de emissões para 2020, a fim de reverter a tendência atual, na qual as mudanças climáticas ainda estão avançando mais rápido que nós.

Ao The Guardian, Nicholas Stern, ex-diretor do Banco Mundial e autor de estudos sobre mudanças climáticas, também se mostrou frustrado com os resultados obtidos na Polônia.

Está claro que o progresso que estamos fazendo é inadequado, diante da escala e da urgência dos riscos que enfrentamos. Os últimos estudos mostram que as emissões de dióxido de carbono ainda estão aumentando. Está nas nossas mãos um caminho muito mais atraente, limpo e eficiente para o desenvolvimento econômico e para a redução da pobreza.

Jennifer Morgan, diretora do Greenpeace International, manifestou indignação com o texto final obtido na COP-24, que segundo ela não enfatizou o bastante o relatório SR15. “Essa falta de resposta ao relatório do IPCC é chocante. Não é possível fazer uma reunião depois disso e dizer que não se pode fazer mais”, declarou ela ao jornal francês Le Monde.

“É mais que decepcionante. Nós não podemos ignorar as recomendações [do relatório do IPCC]. É uma questão de justiça e de sobrevivência”, disse ao Le Monde o delegado etíope Gebru Jember Endalew, que preside o grupo de 47 países menos desenvolvidos do mundo que, ao lado dos estados insulares – ameaçados de serem varridos do mapa pela elevação do nível do mar ligada às mudanças climáticas –, tentaram formar uma coalizão para o aumento das ambições.

“A amplitude das negociações sobre as regras de aplicação do Acordo de Paris não mascara a falta de vontade política dos Estados Unidos para aumentar os esforços para redução das emissões”, disse também ao Le Monde a diretora do programa de clima do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Relações Internacionais, Lola Vallejo.

LIDERANÇA EM FALTA

A ciência forneceu insumos suficientes para estimular os países a assumirem metas muito mais ambiciosas, na visão de Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima – uma rede de 35 ONGs ligadas à questão das mudanças climáticas no Brasil.

“O mandato que deveria ter sido sinalizado em Katowice foi respeitado, já que o ‘livro de regras’ foi entregue. Mas o relatório do IPCC havia sido encomendado para subsidiar a discussão na COP-24 e isso poderia ter levado a um resultado muito melhor. Esse relatório e outros diálogos que foram feitos previamente deveriam no mínimo ter induzido os países individualmente a dar passos para demonstrar mais ambição. Mas faltou vontade política”, disse Rittl a Direto da Ciência.

Rittl afirmou que o relatório do IPCC forneceu todas as informações que indicam os caminhos e a velocidade necessária para as ações que permitirão cumprir o Acordo de Paris e ir além dele, a fim de mitigar consequências mais graves do aquecimento global. E acrescentou:

A informação foi dada e o relatório também mostrou que é possível tomar as ações na velocidade necessária. Mas quem tem o poder de dar os passos iniciais para acelerar esse processo são os governos nacionais. E essa liderança climática está em falta. Quem adotou metas mais ambiciosas até agora são alguns dos países mais pobres e vulneráveis – e não os grandes emissores de gases de efeito estufa.

FÁBIO DE CASTRO
Foto Nações Unidas



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