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O empresário José Seripieri Filho, fundador da Qualicorp e dono da QSaúde, leva o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e sua comitiva à COP27, conferência do clima da ONU no Egito, de “carona” em seu jatinho privado. O voo partiu do aeroporto de Guarulhos (SP) às 7h30 desta 2ª feira (14.nov.2022).
Próximo de Lula, “Júnior da Qualicorp”, como é conhecido, foi um dos primeiros donos de empresa a se encontrarem com o então candidato a presidente durante a campanha eleitoral. O jato é do modelo Gulfstream G600 e tem capacidade para transportar 16 pessoas.
De prefixo N600DJ, o avião está registrado nos Estados Unidos em nome da empresa TVPX, que administra patrimônios em nome de seus clientes.
O Poder360 mostrou mais cedo que Lula havia decolado do aeroporto de Guarulhos (SP) às 7h30 desta 2ª no avião particular de Júnior, mas a presença do empresário no voo e a circunstância da “carona” só vieram à tona com uma declaração do vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB).
“A informação que eu tenho é que não é emprestado. O proprietário está indo junto. Ele também vai participar da COP e estão indo juntos no mesmo avião. Estão indo mais pessoas, ex-governador, lideranças políticas, ambientais, todos juntos”, disse Alckmin em entrevista a jornalistas em São Paulo.
A informação dada pelo vice-presidente eleito foi confirmada pela assessoria de imprensa de Lula. A equipe do petista não deu detalhes sobre a “carona” com Júnior.
O regulamento da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) só permite a remuneração por voos em aviões de empresas de táxi-aéreo.
Como o jato de Júnior é privado, não pode haver cobrança aos passageiros por viagens no avião.
EMISSÕES RUMO À COP27
A emissão média de gases do efeito estufa por passageiro em aviões particulares é de 5 a 14 vezes maior que a média por passageiro em aviões de carreira.
De acordo com a BBC, atribuindo os dados ao FlightRadar24, 36 jatos particulares pousaram em Sharm el-Sheikh de 4 a 6 de novembro, data de início da cúpula. Outros 64 voaram para o Cairo, 24 dos quais vieram de Sharm el-Sheikh. O site da COP27 diz que os delegados devem usar um desses aeroportos.
Os voos produzem gases de efeito estufa -principalmente dióxido de carbono (CO2)- a partir da queima de combustível. Essas emissões contribuem para o aquecimento global.
O modelo Gulfstream G650 é o que mais voou para o Egito. Esse avião usa 1.900 litros de combustível por hora. O modelo Gulfstream G 600, no qual Lula deve viajar, gasta 1.740 litros por hora.

Um voo direto do Brasil para o Egito leva em média 12 horas e 30 minutos, cobrindo uma distância de 10.024 quilômetros. O Departamento de Negócios, Energia e Estratégia Industrial do Reino Unido diz que 2,5 kg (5,5 lb) de CO2e (equivalência em dióxido de carbono) são emitidos para cada litro de combustível de turbina de aviação queimado. Portanto, o voo de Lula ao Egito gastaria aproximadamente 52,2 mil quilos de CO2e.
QUEM É JOSÉ SERIPIERI, O “JÚNIOR”
Fundador da Qualicorp e dono da QSaúde, Seripieri tem bom trânsito pelas esferas do poder. Esteve presente no casamento de Lula e Rosângela da Silva, a Janja. Circula bem, também, entre ministros da Suprema Corte.
Em julho de 2020, o empresário José Seripieri Filho foi preso temporariamente pela Polícia Federal em operação que investigava suposto esquema de caixa 2 na campanha de José Serra (PSDB) ao Senado em 2014.
A operação, batizada de Paralelo 23, foi um desmembramento da Lava Jato. Indicou pagamento de R$ 5 milhões não contabilizados, feitos a mando de Júnior, à campanha do tucano. Segundo o MP-SP (Ministério Público de São Paulo), as doações foram feitas em duas parcelas de R$ 1 milhão e uma de R$ 3 milhões.
Depois de ficar 4 dias preso, a Justiça Eleitoral de São Paulo ordenou a soltura do fundador da Qualicorp e de outros 2 empresários.
No início de novembro de 2020, Serra, José Seripieri Filho, e outros 2 empresários se tornaram réus na Justiça Eleitoral em São Paulo. O grupo foi acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e caixa 2.
No fim de novembro daquele ano, a PGR (Procuradoria Geral da República) fechou acordo de delação premiada com o empresário. Em dezembro, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso homologou o acordo de delação.
LULA NA COP27
O presidente eleito viajará ao Egito e será um dos nomes do Brasil na COP27 (Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). O atual chefe do Executivo, Jair Bolsonaro (PL), não participará do evento. Haverá representantes da Câmara e do Senado, incluindo o presidente da Casa Alta, Rodrigo Pacheco (PSD-MG).
Lula vai na 2ª feira (14.nov.2022) e volta no sábado (19.nov) –antes de retornar, passa por Portugal. A mulher do presidente eleito, a socióloga Rosângela da Silva, Janja, acompanha-o na viagem.
O presidente eleito tem os seguintes compromissos na COP27:
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4ª feira (16.nov) às 11h — participa do evento “Carta da Amazônia – uma agenda comum para a transição climática” -também participam os governadores Waldez Góes (PDT-AP), Gladson Cameli (PP-AC), Mauro Mendes (União Brasil-MT), Helder Barbalho (MDB-PA), Wanderlei Barbosa (Republicanos-TO) e Coronel Marcos Rocha (União Brasil-RO);
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4ª feira (16.nov) às 17h15 — faz pronunciamento na área da ONU;
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5ª feira (17.nov) às 10h — encontro com representantes da sociedade civil brasileira, no Brazil Hub; e
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5ª feira (17.nov) às 15h — encontro com o Fórum Internacional dos Povos Indígenas/Fórum dos Povos sobre Mudança Climática.
O Poder360 apurou que, até o momento, 17 deputados e 13 senadores receberam autorização para viajar ao Egito em missão oficial. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, é um deles. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), não vai.
A deputada Natália Bonavides (PT-RN) ainda espera autorização. Os deputados Airton Faleiro (PT-PA) e Carlos Veras (PT-PE) vão a convite da CNI.
Apesar da ausência de Bolsonaro, o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, tem presença confirmada na COP27 e chefiará a delegação brasileira. Ele chega ao Egito em 15 de novembro, mas já participou de painéis interativos do evento por videoconferência. Leia aqui (46 KB) a lista de integrantes do governo confirmados no evento, atualizada à 0h08 de 10 de novembro de 2022.

José Seripieri Filho, 54 anos, deu carona em seu avião Gulfstream G600 ao presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) numa viagem para o Egito. Empresário que atua no ramo da corretagem de planos de saúde, Seripieri ficou conhecido durante muitos anos como “Júnior da Qualicorp”, empresa da qual não faz mais parte do quadro societário há vários anos.
Os novos donos da Qualicorp (Rede D’Or e as gestoras Pátria e Opportunity) ficam sempre incomodados pelo apelido que ficou com o antigo proprietário. O fato é que Júnior segue sempre sendo chamado de “Júnior da Qualicorp”.
É que a Qualicorp foi uma ideia muito bem-sucedida de Júnior. A empresa é de 1997. Ele conseguiu durante governos petistas aprovar normas que tornaram mais flexíveis a venda de planos coletivos de saúde para associados de sindicatos e associações de trabalhadores. Fez fortuna e se tornou amigo de Lula e de outros políticos.
No escritório de Júnior houve durante muito tempo numa das paredes uma fotografia do petista em pose presidencial. Quando Lula caiu em desgraça e foi preso pela operação Lava Jato, o retrato desapareceu, como notaram alguns amigos do empresário. Flexível, Júnior agora reabilitou o antigo aliado e o levou de carona para o Egito, para a cidade de Sharm El Sheikh, onde se realiza a COP27, a 27ª conferência do clima da Organização das Nações Unidas.
A relação com Lula começou durante o período em que o petista foi presidente. Uma casa de veraneio de Júnior em Angra dos Reis passou a ser frequentada pelo petista, que participou de festas de fim de ano no local. Quando o agora presidente eleito casou-se com a socióloga Rosângela da Silva, a Janja, em 18 de maio de 2022, o empresário foi um dos 200 convidados.
Júnior é ecumênico em suas amizades no meio político. Em 2014, colaborou de maneira não declarada com o tucano José Serra –hoje senador em fim de mandato pelo PSDB de São Paulo. Por conta dessa operação, a Polícia Federal chegou a afirmar em 2020 que o empresário e o tucano estavam no “topo da cadeia criminosa” de caixa 2.
A afirmação da PF foi feita pelo delegado Milton Fornazari Júnior quando foram dadas explicações sobre a prisão temporária de Júnior na manhã de 21 de julho de 2020, por causa da operação Paralelo 23. Na mesma data, o gabinete de José Serra no Senado foi alvo de mandado de busca, mas o cumprimento da ação foi impedido por decisão do STF (Supremo Tribunal Federal).
A operação Paralelo 23 era uma referência à localização geográfica em que se encontra a cidade de São Paulo, local em que os crimes teriam sido cometidos. A investigação teve origem em informações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), provas documentais e em delações premiadas de pessoas contratadas para efetuar as operações suspeitas. Os indícios indicavam ter havido um pagamento total de R$ 5 milhões, valor que havia sido dividido em duas parcelas de R$ 1 milhão e uma de R$ 3 milhões –dinheiro de Júnior e que teria sido entregue a Serra.
No dia em que Júnior foi preso, a PF cumpriu 4 mandados de prisão temporária e 14 de busca e apreensão em São Paulo, Brasília, Itatiba e Itu.
Serra sempre negou ter cometido qualquer irregularidade. O caso não foi concluído até hoje.
A prisão de Júnior durou apenas 3 dias –21, 22 e 23 de julho de 2022. Em 24 de julho, a Justiça Eleitoral de São Paulo ordenou a sua liberação.
Solto, o empresário acabou fazendo acordo de delação premiada com o Ministério Público. O acerto com Procuradoria Geral da República foi homologado no final de 2020 pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso.
No papel de delator colaborador, Júnior aceitou pagar R$ 200 milhões para ressarcir os cofres públicos. Como se trata de processo que corre em sigilo de Justiça, não são conhecidos os detalhes da delação do empresário ao MP.
DOADOR DE CAMPANHA
Depois de enfrentar problemas com a Justiça por fazer doações eleitorais sem declarar, Júnior passou a atuar de maneira mais aberta.
Agora, em 2022, foi um dos grandes financiadores de políticos.
Durante a campanha deste ano, declarou pelo menos duas contribuições para ajudar a eleger Lula presidente. No 1º turno, doou R$ 660 mil ao PT. No 2º turno, foram mais R$ 500 mil para ajudar seu amigo a voltar ao Planalto. Esse foi o 2º maior valor recebido pelo petista de um único doador que não fosse partido ou financiamento coletivo.
Além do PT, Júnior também fez doações para o PSD, no valor de R$ 400 mil, e para a candidata a deputada estadual por São Paulo Thainara Faria (PT), no valor de R$ 300 mil.
HISTÓRIA DE UM MILIONÁRIO
Antes de criar a Qualicorp em 1997, quando tinha menos de 30 anos, Júnior começou a vida de maneira simples. Aos 18 anos, vendia produtos comprados no Paraguai. Fazia cursinho para tentar cursar medicina.
Os pais de Júnior conheciam Milton Afonso, um dos fundadores do plano de saúde Golden Cross.
Milton deu um emprego para o jovem Júnior, que passou a vender o produto por telefone. Não era fácil, pois o hoje empresário que deu carona para Lula ir ao Egito era gago. Passou a tentar as vendas de porta em porta, superou o problema de fala e a Golden Cross teve um aumento de receita com a atuação.
Nos seus tempos áureos, a Qualicorp era uma das líderes na administração, gestão e vendas de planos de saúde coletivos. Chegou a empregar 1.900 pessoas e a ter uma carteira com 2,5 milhões de pessoas atendidas no segmento adesão, com faturamento de R$ 2 bilhões por ano.
Cotada em Bolsa desde 2011, a Qualicorp foi recebendo novos sócios e Júnior decidiu se desfazer da empresa. Em 2019, o empresário se desfez de metade das ações que ainda detinha da Qualicorp para a Rede D’Or, do empresário Jorge Moll, que fez fortuna com hospitais que começaram a partir do Rio de Janeiro.
Com a venda para a Rede D’Or, Júnior saiu do cargo de diretor-presidente e também do Conselho de Administração. Em 2021, estava completamente fora da Qualicorp –que passou a ser administrada integralmente por Rede D’Or e pelas gestoras Pátria e Opportunity.
Júnior passou a se dedicar a uma nova empresa no mesmo setor, a Qsaúde. Cheio de propostas inovadoras, esse novo empreendimento se propunha a vender planos de saúde acessíveis usando inteligência artificial para calcular riscos de cada beneficiário.
Não deu muito certo até agora. A Qsaúde, segundo apurou o Poder360, não ganhou tração como Júnior esperava.
A empresa teve um começo agressivo, fazendo propaganda para um público que supunha qualificado: patrocinou o programa “Sinais Vitais”, da TV a cabo de notícias CNN Brasil. Apresentada pelo médico Roberto Kalil Filho, hoje colaborador da equipe de transição de Lula, a atração não entregou para a Qsaúde o fluxo de clientes necessário.
As relações de Júnior com a CNN Brasil incluem um laço familiar. Sua mulher, Daniela Filomeno, apresenta um programa na emissora, o “Viagem e Gastronomia“.
Júnior havia lançado a Qsaúde quando ainda estava na Qualicorp. O empreendimento teve de ser adquirido por ele, numa complicada operação e por um valor ventilado à época de R$ 75 milhões.
É que ao sair da Qualicorp, Júnior teve de assinar um acordo conhecido como “non-compete”: ele se comprometia a não atuar no setor por um determinado período.
Em 14 de dezembro de 2021, período em que seu acordo de delação premiada sobre caixa 2 foi homologado no STF, Júnior conseguiu outra vitória. A Comissão de Valores Imobiliários julgou a seu favor uma disputa sobre “non-compete” com cláusula de descumprimento estipulada em R$ 150 milhões.
Júnior corria o risco de pagar não só esse valor, mas uma multa. A cifra poderia ter chegado a R$ 450 milhões. Com a decisão favorável da CVM, o empresário mais uma vez demonstrou que tem sorte nos processos em que se envolve em várias instâncias.
TRAGÉDIA: FILHO DE ALCKMIN
Em 2 de abril de 2015, Thomaz Rodrigues Alckmin, de 31 anos, morreu num acidente aéreo. Ele estava num helicóptero que pertencia à Seripatri Participações, empresa controlada por José Seripieri Júnior.
Thomas era o filho mais novo do então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que era filiado ao PSDB (hoje, no PSB, é vice-presidente da República eleito, na chapa com Lula).
O helicóptero caiu sobre uma casa em Carapicuíba, na Grande São Paulo. Ao todo, 5 pessoas morreram no acidente.
À época, a Seripatri informou, por meio de uma nota, que um piloto e 3 mecânicos faziam um voo de teste depois de uma manutenção preventiva. Thomaz Alckmin trabalhava como piloto. Era casado com a arquiteta Thais Fantato e deixou duas filhas, uma de 10 anos e outra recém-nascida, com aproximadamente um mês.
(Poder360)
