
Desde janeiro de 2024, quando Viviane Barci de Moraes passou a prestar serviços ao Banco Master, seu marido Alexandre de Moraes tem 129 milhões de motivos para preparar-se: um dia teria de enfrentar, munido de algum álibi, a estranheza causada pela descoberta de que a mulher de um ministro do Supremo Tribunal Federal é a recordista nacional na modalidade honorários advocatícios. Há dois anos, o pequeno banco já começava a oferecer juros perigosamente acima dos pagos por gigantes do ramo. Somada à gastança do dono, a decisão de atrair clientes com taxas mais que generosas avisava que Daniel Vorcaro desdenha de uma verdade antiga como a primeira moeda: dinheiro não aguenta desaforo. Em 2025, por exemplo, ele torrou R$ 15 milhões na festa de aniversário da filha, cumprimentada por 500 convidados. É plateia de comício.
Ao longo de 2025, multiplicaram-se sinais de que tanto o banco quanto as demais empresas da frota puxada pelo Master insistiam em percorrer a rota do naufrágio. Talvez pela pontualidade no pagamento da mesada milionária de Viviane (considerada “altamente prioritária” por Vorcaro), talvez pelo excesso de confiança nos próprios superpoderes, Alexandre de Moraes seguiu ignorando o risco de naufrágio. Em novembro passado, foi surpreendido pelo Banco Central, que decidiu liquidar extrajudicialmente o Master e o buquê de entidades financeiras controladas por Vorcaro. Era tarde demais para cumprir integralmente a cláusula não escrita embutida no contrato assinado por Viviane: em caso de perigo, o ministro socorreria o contratante.
A missão malogrou, mas não por falta de vontade do marido da contratada. Em 29 de novembro, Moraes ajudou Vorcaro a sair da cadeia que o acolhera dez dias antes. Também fez o que pôde para induzir a direção do Banco Central a evitar a liquidação. As pressões que promoveu, por telefone e pessoalmente, não funcionaram. No momento, luta para poupar do merecidíssimo castigo judicial os envolvidos no maior e mais escandaloso rombo financeiro da história do Brasil. Não é pouca coisa. Mas não foi por falta de tempo que Moraes não deu um pio sobre o que realmente interessa ao Brasil que pensa e presta. O que falta é explicação convincente.

O que tem a dizer, para começo de conversa, sobre os R$ 129 milhões? A fortuna aparece na declaração de imposto de renda? Já se sabe que R$ 15 milhões foram aplicados na compra à vista da mansão em Brasília. Quanto sobrou? O ministro orientou a doutora Viviane na montagem do contrato? Não viu nada de errado na possível participação em votações relativas ao caso Master? Essas interrogações aguardam respostas desde novembro passado. Há outras — algumas ainda mais antigas, outras recentíssimas — todas igualmente importantes. A mais idosa: quando será concluído o Inquérito das Fake News, aberto ilegalmente em 14 de março de 2019? Outra continua atualíssima com quase 7 anos de idade: quando Moraes vai parar de perseguir brasileiros que revelam delitos cometidos pelo próprio ministro?
Consolidada pelo Inquérito do Fim do Mundo, a parceria com Dias Toffoli parece longe do fim. “O amigo do amigo do meu pai”, sabe-se agora, também suou a camisa para salvar o Master. Conspirou com advogados em jatinhos ou festas de aniversário, reuniu-se ao menos dez vezes com Vorcaro, que jurava não conhecer, sempre sem testemunhas por perto. Enfiado até o pescoço nas operações de compra e venda do resort da família, nomeou-se relator e juiz de tudo que se associasse ao escândalo, confiscou todas as provas e evidências obtidas pela Polícia Federal. A ópera do absurdo chegou à estratosfera com a descoberta das doações que Toffoli recebeu do Master. Aquilo era demais até para os padrões do Bloco da Toga.

Na véspera do Carnaval, uma reunião sigilosa convocada às pressas escancarou a mudança de ambiente. O primeiro item da pauta foi o pedido de suspeição, encaminhado pela Polícia Federal, que resultaria na troca do relator. A maioria dos dez participantes considerou o encontro “tenso”, mas com resultados satisfatórios. Milhões de brasileiros inconformados com a degeneração do Supremo gostaram de saber que Toffoli fora substituído por André Mendonça nas funções de relator. No dia seguinte, o vazamento de parte do que foi dito ou feito na reunião reduziu a taxa de otimismo da plateia. E elevou o grau de desconfiança entre integrantes do que antigamente era chamado de Pretório Excelso.
Se não havia ninguém sem toga no encontro, qual ministro quebrara o sigilo? Quem havia revelado, por exemplo, a informação recitada por Cármen Lúcia? “Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo”, contou a única mulher presente, que achou essencial encontrar-se “uma saída” antes do Carnaval. “A população está contra o Supremo”, avisou. “Não é só Toffoli que sangra, é a Corte inteira.” André Mendonça acrescentou que o tribunal vive uma “crise de institucionalidade” e sugeriu “uma resposta rápida à sociedade”. Flávio Dino concorda. “A crise hoje é política”, descobriu o jurista maranhense. Alguns presentes acreditam que o que se disse no gabinete do presidente do STF foi gravado. O suspeito mais votado é Dias Toffoli.
A temperatura subiu mais ainda com a carnavalesca volta ao palco de Moraes. Sem consultar o presidente da Corte, sem poderes constitucionais para tanto, sem compreender que os tempos mudaram, novamente fantasiado de Primeiro Carcereiro, ele determinou à Receita Federal que identificasse quem havia acessado dados de ministros e seus familiares. Distribuiu outro lote de mandados de busca e apreensão, cumpridos no fim da madrugada, e ampliou o imenso acervo de abusos com confiscos de passaporte, distribuição de tornozeleiras eletrônicas e prisões ilegais. “Ele está com sangue nos olhos”, repetem seus assessores e confirma um ministro. Não vai sossegar enquanto não descobrir quem está por trás do acesso aos dados fiscais de sua mulher.

Desconfiado de que o STF é alvo do que qualifica de “mais uma pancadaria”, Moraes inclui entre os suspeitos integrantes dos demais Poderes. Por decisão do ministro, a ofensiva não se limitou ao rastreamento de acessos. Já engordou a multidão acotovelada no Inquérito do Fim do Mundo quatro auditores da Receita Federal: Ricardo Mansano, Luiz Antônio Martins Nunes, Luciano Pery Santos e Ruth Machado dos Santos. Mansano admitiu ter acessado acidentalmente dados da enteada do decano do STF, Gilmar Mendes. Animado com o que considera uma confissão de culpa, Moraes continua mandando às favas os códigos legais, o Ministério Público e o próprio STF.
“A Corte está sem controle”, concorda a maioria dos ministros. Desorientados, alguns se queixam do desempenho do presidente Edson Fachin, que deveria ter decidido sozinho questões que pertencem à sua esfera de atribuições. Hoje, não existe um inimigo externo que funcione como elemento aglutinador, papel exercido pelo governo Jair Bolsonaro e pelos desdobramentos do 8 de janeiro. Assim, o Supremo tem de lidar com seus próprios problemas, cauterizar feridas recentes e encontrar caminhos que livrem a instituição da impopularidade crescente. As rotas que levam à salvação passam ao largo dos atalhos e desvios desmatados por Moraes.
Um deles levou à intimação de Kleber Cabral, presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Unafisco), para depor na Polícia Federal. Nesta quarta-feira, em entrevista à GloboNews, Cabral resumiu a sensação dominante entre os profissionais incumbidos de garantir o cumprimento das normas fiscais: “É mais fácil investigar o PCC do que certas autoridades”.
(revista oeste)