Petista encanta a própria torcida com os elogios calculados de Trump, mas seu governo morto-vivo segue à base de ilusionismo e dependente do acaso

A torcida de Lula (à esquerda na foto) se empolgou com a visita a Donald Trump (à direita na foto).
O presidente brasileiro realmente conseguiu dar a impressão de que seu governo está vivo ao ser recebido pelo presidente americano, ainda que num encontro cheio de mistérios e com a China como pano de fundo.
A operação da Polícia Federal contra o senador Ciro Nogueira (PP-PI) também animou os lulistas, porque bagunça o jogo no Congresso Nacional, onde o Palácio do Planalto tinha sido humilhado na semana anterior, com a rejeição histórica da indicação de Jorge Messias ao STF.
Mas o fato é que o governo segue no modo sobrevivência e ao sabor da sorte, torcendo para que a Operação Compliance Zero, que lhe deu algum fôlego nesta semana, não atinja um dos seus na próxima fase — e o PT da Bahia, do líder do governo no Senado, está na linha de tiro faz tempo.
Ilusão
Dizer que o governo Lula não acabou por causa de uma operação da PF que atingiu um adversário e pelo truque da visita a Trump é querer se enganar — ou enganar os outros.
As condições políticas do governo continuam as mesmas, e talvez até piorem se o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) venha a ser afetado pelas investigações do escândalo do Banco Master. Podem melhorar também, mas por mero capricho da sorte.
É claro que a política também depende disso e da capacidade de reagir ao imponderável, mas a fraqueza que a rejeição de Messias escancarou não foi nem de longe anulada pelos eventos da última semana.
Zumbi
Lula continua vagando como um presidente zumbi em um governo morto-vivo, e apenas simulou um pouco mais de vida ao viajar para os Estados Unidos, onde foi recebido porque conseguiu se apresentar como útil para Trump, iludindo a própria torcida com uma projeção de relevância.
É curioso, aliás, como os elogios calculados de Trump a Lula envaidecem a esquerda brasileira, tão crítica à tentativa de aproximação da família Bolsonaro com o republicano.
É por essas e outras que não se deve subestimar a esperteza de Lula. Desde 30 de abril, a desaprovação do petista caiu três pontos percentuais no Lulômetro, medido pela Realtime Big Data em parceria com O Antagonista, para 46%, enquanto a aprovação subiu dois, para 29%.
Mais ilusões
Nesse período, seu governo relançou um programa para renegociação de dívidas — as mesmas dívidas que seu governo incentivou os brasileiros a contrair. O Desenrola 2.0 começou mal, com os bancos pedindo mais tempo para as renegociações. Por quanto tempo o truque vai funcionar?
O outro truque que o Planalto botou na praça é menos perverso, mas potencialmente mais danoso para a economia do país. A promessa irresponsável do fim da escala 6×1, que ninguém sabe como vai funcionar, foi comprada pelo Congresso Nacional, e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), entre tantos outros, tenta se apropriar dela.
O fato de Lula ser um presidente zumbi não significa sequer que ele não possa vir a se reeleger neste ano, tendo em vista que a família Bolsonaro lhe ofereceu a chance de permanecer no jogo, com a pré-candidatura duvidosa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A situação do petista indica apenas que ele não tem condição de liderar o país — o que está claro para quem enxerga para além de seu ilusionismo desde as condenações na Operação Lava Jato.
Dilma Rousseff levou a ingovernabilidade até o limite. Lula tentará fazer o mesmo?
(oantagonista)