Presidente disse que seria sua decisão, e não de Moro, retirar Maurício Valeixo do cargo
No entorno de Valeixo, a declaração de Bolsonaro foi vista como uma tentativa de diminuir o poder de Moro, responsável por escolher o diretor-geral para o cargo, informou o colunista do GLOBO Lauro Jardim. Com a interferência na PF, o presidente quebrou o compromisso, assumido em novembro de 2018, de "liberdade total" ao então futuro ministro na Justiça .
Na semana passada, Valeixo quase pediu demissão diante da interferência de Bolsonaro na troca de superintendentes da PF. A queda-de-braço pública pelo comando da PF no Rio começou na última quinta-feira. Um delegado que acompanha o caso de perto disse ao GLOBO que o presidente pressionou a direção da PF a substituir imediatamente o delegado Ricardo Saadi, da Superintendência do Rio, por estar descontente com uma investigação.
Sem ser perguntado, Bolsonaro afirmou na ocasião que Saadi deixaria o cargo no Rio por motivo de "gestão" e "produtividade". Era a primeira vez que um presidente da República anunciava o afastamento de um superintendente, assunto historicamente restrito ao diretor-geral da PF. Horas depois, em claro endosso de Moro à posição do órgão policial, o Ministério da Justiça divulgou nota de que Saadi seria substituído por vontade própria.
A PF anunciou que Saadi seria substituído por Carlos Henrique Oliveira Sousa, da Superintendência de Pernambuco, um delegado respeitado dentro da PF. Mas o presidente disse que o cargo caberia a Alexandre Silva Saraiva, superintendente no Amazonas. A partir daí, delegados da cúpula da PF reagiram com vigor. Valeixo fez chegar a Moro a informação de que, se não pode indicar superintendentes, não teria condições de permanecer no cargo. Quando percebeu o tamanho do problema, Bolsonaro recuou.
'Se eu trocar, qual o problema?'
Nesta quinta-feira, Bolsonaro questionou várias vezes qual seria o problema se substituísse Valeixo:
— Se eu trocar hoje, qual o problema? Se eu trocar hoje, qual o problema? Está na lei. Eu que indico, e não o Sergio Moro. E ponto final. Qual o problema se eu trocar hoje ele? Me responda.
O presidente disse, contudo, que não pretende fazer nenhuma troca no governo no momento:
— Se eu for trocar diretor-geral, ministro, o que for, a gente faz na hora certa. Não pretendo trocar ninguém, por enquanto está tudo bem no governo. Agora, quando há uma coisa errada, chamo, converso e tento botar na linha — afirmou, acrescentando depois: — Hoje eu não sei. Tudo pode acontecer na política.
Bolsonaro afirmou que a PF "orgulha a todos nós", mas disse que o órgão não é "independente":
— É decisão minha, a hora que eu achar correto. Se é para não ter interferência, o diretor anterior, que é o que estava lá com o Temer, tinha que ser mantido. Ou a PF agora é algo independente? A PF orgulha a todos nós, e a renovação é salutar, é saudável — disse.
Fonte: Oglobo