Como os imigrantes “inventaram” o Carnaval de Porto Velho



"AVOHÉ!" O alvorecer da folia em Rondônia, há mais de um século: a tradição momesca na capital rondoniense nasceu da miscigenação e do pendor artístico de estrangeiros que transformaram a 'Rua da Palha' no primeiro sambódromo. Operários tinham bailes animados por caribenhos.

Por Júlio Olivar – julioolivar@hotmail.com

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Em 1917, Porto Velho era um caldeirão demográfico. A cidade estava às voltas com o samba. No início daquele ano foi gravado, no Rio de Janeiro, o primeiro samba do país: Pelo telefone, música de Donga interpretada por Baiano. Dos pouco mais de 1.800 habitantes fixos na vila às margens do Rio Madeira, quase metade era estrangeira.

Entre eles, uma comunidade de 200 portugueses exercia uma influência que ia muito além do comércio e da política: eles ditavam o ritmo da vida social. Foi nesse cenário de encontros entre europeus, bolivianos, indígenas e caboclos que, em 1918, o Carnaval de rua ganhou contornos oficiais, mudando para sempre o DNA festivo da região.

A festa aconteceu em um momento de dificuldades financeiras no país, por conta da Primeira Guerra Mundial. Mas, com ajuda da comunidade de Porto Velho, “os Irmão Rosa não deixaram que a homenagem ao Deus Momo passasse desapercebida”, conforme registrou o jornal Alto Madeira.

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A elite lusa e o pendor artístico

Nomes como João Soares Braga — poeta, ator, tesoureiro e secretário municipal — e os irmãos Amaro e Benjamin Rosa foram os grandes arquitetos da transformação cultural de Porto Velho no início do século XX. Os portugueses, já estabelecidos em sobrados imponentes e à frente de instituições como a Sociedade Portuguesa Beneficente, trouxeram de além-mar não apenas o Vinho do Porto, mas também o desejo de replicar o esplendor das grandes festas nacionais.

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O Dia de Santo Amaro, celebrado em 15 de janeiro em Portugal, era igualmente reverenciado em Porto Velho. A tradição incluía vinho do Porto — na época, a marca mais famosa era o Triunphante — chope e um ritual curioso: a “limpeza dos armários”, símbolo de renovação. Quem liderava essas celebrações eram os irmãos Amaro e Benjamin Rosa, donos do Café e Casa Phoenix. Em algumas ocasiões, eles chegavam a franquear as bilheteiras para matinês populares.

Benjamin Rosa, vereador e sócio da célebre Casa Phoenix — espaço cultural que reunia café, piano-bar, teatro e cinema — foi o grande articulador da chegada do Carnaval à cidade. Viajou ao Rio de Janeiro, então a meca cultural do país, para buscar elementos decorativos e inspirações. Dessa iniciativa nasceu o primeiro grande desfile carnavalesco de Porto Velho, em 1918, que marcou definitivamente a vocação festiva da capital rondoniense, entre Arlequins, Pierrôs e Colombinas.

1918: o ano em que a Rua da Palha estremeceu

Embora os bailes de salão já ocorressem desde 1916, foi em fevereiro de 1918 que o povo tomou as vias públicas. O patrocínio veio do prefeito (à época, chamado superintendente) Joaquim Tanajura e o gerente da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o inglês Knox-Little, que financiaram os enfeites da Rua da Palha (atual Natanael Albuquerque).

O desfile foi uma exibição de criatividade para a época: 15 Carros Alegóricos, criados pelos teatrólogos Mendo Luna, espanhol, e José Borges, português.

Personagens Icônicos: O “El Rei Carnaval” abriu os festejos, enquanto o “Zé Pereira” — símbolo do português boêmio da época — encerrou o cortejo ao som da orquestra da Casa Sarah.

Batalhas de confete em Porto Velho

Sob gritos de “Avohé!” (saudação a Dionísio), a multidão entoava maxixes e a recém-criada marchinha “Ó Abre Alas”, de Chiquinha Gonzaga.

“Avohé!” (também grafado como Evohé ou Evoé) era uma saudação festiva tradicional usada nos carnavais antigos. A expressão tem origem nas celebrações dionisíacas da Grécia Antiga: nas bacanais, as bacantes invocavam Dionísio — deus do vinho, da festa e da alegria — com esse brado.

Carros-reclame e a moda internacional

A festa também era vitrine para o comércio. Os “carros-reclame” desfilavam anúncios de cetins e fantasias recém-chegadas pelo Rio Madeira. A moda da época seguia a tradição europeia da Commedia dell’Arte, com pierrots e colombinas colorindo o público, que ignorava as ameaças de chuva e os incidentes de trânsito — como o tombamento de um carro alegórico que exigiu a intervenção médica do próprio prefeito Tanajura.

Diversidade e resistência

Enquanto a elite se reunia no Clube XV, a pulsação operária acontecia no salão da Recreativa. Lá, jovens caribenhos da The Porto Velho Boys Dramatic Association promoviam concursos de polca, valsa e schottische.

Na terça-feira gorda, blocos vestidos de japoneses e baianas mostravam que, desde o seu nascimento, o Carnaval de Porto Velho já era multicultural, unindo o rigor das orquestras à energia das comunidades imigrantes.

Toda a festa foi coberta pelo fotógrafo colombiano Adan Parra. Uma pena que a reportagem não tenha conseguido encontrar imagens produzidas por ele durante o Carnaval porto-velhense de 108 anos atrás.

Sobre o autor

Júlio Olivar é jornalista e escritor, mora em Rondônia, tem livros publicados nos campos da biografia, história e poesia. É membro da Academia Rondoniense de Letras. Apaixonado pela Amazônia e pela memória nacional.

(portalamazonia)



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