Mapeamento aerotransportado por tecnologia LiDAR atravessa a densa vegetação tropical, revelando mais de 24 mil estruturas pré-colombianas, estradas monumentais e uma rede urbana complexa que abrigou até 3 milhões de pessoas antes da chegada dos europeus.
Redação,Porto Velho RO, 17 de agosto de 2026 - Durante séculos, a narrativa predominantemente ocidental descreveu a Bacia Amazônica como um "deserto verde" — uma selva intocada e virgem, inóspita ao desenvolvimento de grandes densidades populacionais ou engenharias complexas. Essa perspectiva ruiu definitivamente com os avanços recentes do sensoriamento remoto por LiDAR (Light Detection and Ranging). Ao disparar bilhões de feixes de laser infravermelho a partir de aeronaves e atravessar os pequenos interstícios da vegetação densa, pesquisadores conseguiram "decapitar" a copa das árvores digitalmente, trazendo à tona o relevo oculto do solo amazônico. O resultado é o delineamento cristalino de uma civilização pré-colombiana vibrante, altamente organizada e conectada, que floresceu no sudoeste da Amazônia entre 600 a.C. e 850 d.C.
O Raio-X que atravessa a selva: Como funciona o LiDAR

A arqueologia tradicional na Amazônia sempre enfrentou limitações severas impostas pelo acesso terrestre, pelas intempéries e pela rápida regeneração da mata. O LiDAR contorna esses obstáculos operando como um verdadeiro scanner tridimensional. Equipamentos acoplados a aviões emitem cerca de centenas de milhares de pulsos de iluminação laser por segundo. Parte desses feixes é refletida pelas folhas e galhos do topo do dossel, mas uma fração atinge o solo e retorna aos sensores.
Ao registrar o tempo de ida e volta de cada feixe e cruzar com coordenadas de GPS de alta precisão, computadores de alto desempenho eliminam digitalmente a vegetação. O que surge sob as árvores é um Modelo Digital de Elevação (DEM) do terreno, onde valas com metros de profundidade, aterros artificiais, praças e vias públicas reaparecem com exatidão centimétrica.
Arquitetura Geométrica e Estradas Monumentais

Nas áreas mapeadas (que abrangem regiões do Acre, Amazonas e áreas de fronteira), os dados revelaram uma profusão de geoglifos — impressionantes estruturas de terra em formatos geométricos regulares (quadrados, círculos, hexágonos e retângulos), muitos dos quais possuem valas periféricas de até 5 metros de profundidade e dezenas de metros de largura.
Longe de serem assentamentos isolados ou erguidos ao acaso, tais centros monumentais eram articulados por uma rede viária planejada:
- Estradas Larga e Retilíneas: Extensas vias com larguras variando entre 15 e 40 metros conectavam os centros cerimoniais e vilas a áreas de cultivo e recursos hídricos.
- Manejamento Territorial: A paisagem demonstra uma transformação profunda do ecossistema. As comunidades praticavam o manejo florestal, selecionando e multiplicando espécies vegetais de interesse econômico e alimentar (como castanheiras, açaizeiros e seringueiras) e cultivando milho, mandioca e abóbora.
- Terra Preta de Índio: A presença marcante de solos antropogênicos férteis (Terra Preta de Índio) atesta a fixação contínua de grandes contingentes populacionais por longos períodos, desmontando o mito do nomadismo de subsistência como única forma de vida pré-colombiana na região.
Impacto Demográfico e Revisão Histórica
Análises estatísticas e modelagens preditivas publicadas a partir de amostras que cobrem menos de 3% a 5% do território amazônico estimam que a região abrigou entre 24 mil e 30 mil estruturas enterradas ou disfarçadas pela vegetação. Com base nessa densidade de ocupação, cientistas e arqueólogos calculam que o sudoeste amazônico e suas redes interconectadas abrigaram uma população estimada entre 1,5 milhão e 3 milhões de pessoas no seu ápice.
Esses números equiparam a densidade e o grau de organização social amazônica aos de grandes centros urbanos e estatais das Américas Central e Andina da mesma época. A diferença fundamental reside no material construtivo: em vez da pedra, os povos amazônicos moldaram a própria terra e a própria vegetação, criando uma engenharia viva e biocultura integrada.
Preservação e Proteção do Patrimônio Amazônico

A revelação dessa civilização perdida sob a copa das árvores traz também um alerta urgente. Grande parte dessas estruturas foi identificada justamente em áreas sob pressão de desmatamento, avanço da agropecuária e obras de infraestrutura. Projetos como o Amazônia Revelada, que unem pesquisadores acadêmicos, arqueólogos e lideranças de comunidades indígenas e tradicionais (como quilombolas e ribeirinhos), buscam utilizar a tecnologia LiDAR não apenas para resgatar o passado, mas para garantir a posse da terra e o reconhecimento do patrimônio histórico-cultural no presente.
A floresta amazônica, portanto, deixa de ser vista meramente como uma reserva biológica intocada para se consolidar como um monumento biocultural dinâmico, onde a mão humana e a natureza coexistiram e se moldaram ao longo de milênios.
Lost civilization in the Amazon may have numbered millions of people Este vídeo do Olhar Digital apresenta detalhes sobre as descobertas da tecnologia LiDAR na Amazônia e conta com entrevistas sobre as implicações arqueológicas das estruturas identificadas sob a floresta.
Fonte: noticiastudoaqui.com--