
O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, foi capturado junto com sua esposa, Cilia Flores, em um ataque dos Estados Unidos ao país na madrugada deste sábado (3/1), segundo o presidente americano, Donald Trump.
Por meio da rede Truth Social, Trump disse que Maduro foi retirado do país por via aérea. Trump não deu mais detalhes sobre como Maduro teria sido capturado.
No início da noite deste sábado, o avião que transportava o presidente venezuelano e a esposa pousou na base aérea Stewart Air National Guard Base, em Nova York, segundo informou a CBS, parceira da BBC nos EUA.
Os Estados Unidos há muito tempo acusam Nicolás Maduro de liderar uma organização internacional de tráfico de drogas — algo que Maduro nega. Após sua captura, Maduro foi indiciado nos Estados Unidos por "narcoterrorismo" e outras acusações.
Em resposta, o governo venezuelano denunciou uma agressão militar dos Estados Unidos e pediu que Washington prove que o líder venezuelano está vivo.
Explosões foram ouvidas a partir das 2h de sábado (3h no horário de Brasília) e fumaça pôde ser vista subindo sobre a capital venezuelana, Caracas, na madrugada.
Vídeos gravados por moradores mostravam colunas de fumaça e detonações, além de algumas aeronaves voando a baixa altitude.
Várias áreas de Caracas ficaram sem energia elétrica, segundo relatos de moradores e de jornalistas que colaboram com a BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.
Nas ruas da capital, venezuelanos saíram às ruas em apoio e oposição à ação militar americana.
Em uma coletiva de imprensa na Flórida, Trump afirmou que seu governo deve administrar a Venezuela até que uma transição seja concluída, após a captura de Maduro.
"Nós vamos governar o país [Venezuela] até o momento em que possamos fazer uma transição segura, adequada e criteriosa. Não queremos que outra pessoa assuma o poder e nos deparemos com a mesma situação que tivemos nos últimos anos", declarou.
Trump não estabeleceu um prazo limite para a ocupação americana. Ele afirmou que caberia aos Estados Unidos decidir quando o país retornaria ao controle venezuelano.
O presidente americano também disse que a economia petrolífera na Venezuela está um "fracasso" e acrescentou que os EUA estão "prontos" para realizar um segundo ataque "muito maior" ao país, se necessário.
Segundo Trump, Marco Rubio, secretário de Estado, está em contato com a vice-presidente venezuelana Delcy Rodríguez, que concordou em fazer o que os EUA "precisam" para a transição.
No entanto, horas depois, ela afirmou que há apenas um presidente em seu país: Maduro e que não tem planos para cooperar com os EUA. "O que estão fazendo com a Venezuela é uma barbárie", afirmou.
Após a declaração de Rodriguez, Rubio afirmou que os Estados Unidos tomarão decisões com base nas "ações e fatos" do governo venezuelano nos próximos dias.
"Acreditamos que eles terão oportunidades únicas e históricas para prestar um grande serviço ao país, e esperamos que aproveitem essa oportunidade", disse o secretário ao The New York Times, referindo-se a autoridades do governo venezuelano.

O ataque deste sábado foi condenado por China, Irã, Rússia e boa parte dos líderes da América Latina, mas o presidente argentino, Javier Milei, celebrou o "avanço da liberdade".
Por sua vez, o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que o ataque é "inaceitável", viola a soberania venezuelana e abre um "precedente perigoso".
No entanto, o presidente brasileiro levou sete horas para se manifestar, uma demora que sinaliza uma América Latina sem poder de reação nem mesmo diplomática, diz Marsílea Gombata, professora de relações internacionais da FAAP e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Relações Internacionais (NUPRI) da USP.
De acordo com interlocutores de Lula, há um temor no Palácio do Planalto sobre como será o governo da Venezuela sem Nicolás Maduro.
Essa fonte também disse temer que a remoção de Maduro gere um "vácuo de poder" perigoso no país uma vez que, segundo ela, o governo brasileiro que a principal líder da oposição, Maria Corina Machado, não teria força política para liderar a Venezuela neste momento.
Há receio de que disputas internas dentro das forças armadas do país ou entre milícias armadas existentes no país possa levar a um quadro de desordem social semelhante ao observado em países do Oriente Médio e da África.
Já o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos, exaltou os ataques americanos e disse que isso enfraqueceria o Foro de São Paulo, organização que reúne partidos e movimentos de esquerda da América Latina.
Como foi o ataque e a captura de Maduro, segundo Trump
Na rede social Truth Social, Trump, afirmou que o país realizou um ataque de grande escala contra a Venezuela e que Maduro foi capturado, junto com sua esposa, e retirado do país por via aérea.
Segundo Trump, a operação foi conduzida em conjunto com forças de segurança americanas.
Na coletiva de imprensa, o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto americano, compartilhou detalhes do planejamento da operação que capturou Nicolás Maduro, apelidada de "Operação Resolução Absoluta".
O militar afirmou que as forças armadas dos EUA mantiveram "totalmente o elemento surpresa", desmantelando e desativando os sistemas de defesa aérea venezuelanos.
Segundo ele, ao chegarem ao complexo onde Maduro estava, os helicópteros americanos "foram alvejados" e responderam com "força esmagadora". Um helicóptero foi atingido, mas todas as aeronaves americanas conseguiram retornar à base, afirma ele.
Maduro e sua esposa então "desistiram" e foram detidos pelo Departamento de Justiça e embarcados no porta-aviões USS Iwo Jima.

O militar descreveu a ação como "discreta" e "precisa", e afirma que exigiu "todos os componentes" das forças conjuntas, incluindo soldados, marinheiros, aviadores, fuzileiros navais e outros, "trabalhando em uníssono" com agências de inteligência e forças policiais.
Segundo Caine, a "extração" de Maduro foi tão precisa que exigiu mais de 150 aeronaves, todas convergindo no lugar e na hora certos. Sobre o trabalho preparatório, ele se refere a "meses" de trabalho de inteligência, descobrindo detalhes sobre Maduro, incluindo onde ele morava e o que comia.
Segundo a rede americana CBS, parceira da BBC nos Estados Unidos, "o presidente Trump ordenou os ataques em várias partes da Venezuela, incluindo instalações militares".

Uma fonte da CIA dentro do governo venezuelano ajudou os EUA a rastrear a localização de Maduro antes de sua captura pela Força Delta do Exército dos EUA, segundo apurou a CBS, conforme noticiado inicialmente pelo jornal The New York Times.
A fonte fazia parte de uma extensa rede de inteligência que contribuiu para a operação, resultado de meses de planejamento meticuloso e parceria entre a CIA e o Departamento de Defesa americano.
Até o momento, o BBC Verify, serviço de checagem de informações da BBC, confirmou ataques em quatro locais no país: a Base Aérea Generalíssimo Francisco de Miranda; o Porto La Guaira; o Aeroporto Higuerote; e o Forte Tiuna.

Posteriormente, Trump afirmou que conversou com Nicolás Maduro "uma semana atrás" e lhe disse: "Você tem que se render, você tem que se render".
"Tivemos que fazer algo muito mais cirúrgico, muito mais contundente", declarou o presidente americano à emissora Fox News.
Trump disse que houve "alguns feridos, mas nenhuma morte do nosso lado" durante os ataques à Venezuela.
Trump afirmou ainda que assistiu à captura "literalmente como se estivesse assistindo a um programa de televisão".
"Se vocês tivessem visto a velocidade, a violência, foi algo impressionante", disse Trump.
Ele elogiou sua equipe por ter feito "um trabalho incrível" e acrescentou: "Não há nenhum outro país no mundo que pudesse realizar uma manobra como essa".
Segundo Trump, Maduro foi capturado em um local que "parecia mais com uma fortaleza do que com uma casa".
"Íamos fazer isso há quatro dias, mas o tempo não estava perfeito", disse Donald Trump em entrevista ao canal americano Fox News.
"O tempo precisa estar perfeito… De repente, melhorou e decidimos prosseguir", afirmou o presidente americano.
Maduro e Cilia Flores estão sendo transferidos para Nova York de helicóptero e barco.
"Eles mataram muita gente, muitos americanos, até mesmo pessoas do próprio país deles", disse Trump.

A reação da Venezuela
O governo da Venezuela denunciou o ataque como uma "agressão militar" dos Estados Unidos.
"A República Bolivariana da Venezuela rejeita, repudia e denuncia perante a comunidade internacional a gravíssima agressão militar perpetrada pelo atual Governo dos Estados Unidos da América contra o território e a população venezuelanos, nas localidades civis e militares da cidade de Caracas, capital da República, e nos estados Miranda, Aragua e La Guaira."
"Tal agressão ameaça a paz e a estabilidade internacional, em especial da América Latina e do Caribe, e coloca em grave risco a vida de milhões de pessoas", acrescentou o governo em comunicado.

"A tentativa de impor uma guerra colonial para destruir a forma republicana de governo e forçar uma mudança de regime, em aliança com a oligarquia fascista, fracassará como todas as tentativas anteriores."
O governo convocou "todas as forças sociais e políticas do país a ativar os planos de mobilização e repudiar este ataque imperialista".
O presidente Nicolás Maduro, segundo o governo, assinou e decretou o "estado de comoção externa em todo o território nacional".
"Em estrita observância ao artigo 51 da Carta das Nações Unidas, a Venezuela se reserva o direito de exercer a legítima defesa para proteger seu povo, seu território e sua independência."
O Ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela, Diosdado Cabello, apareceu nas ruas de Caracas cercado por policiais e usando capacete e colete à prova de balas.
Em declarações transmitidas pela televisão estatal, Cabello afirmou que estavam avaliando os danos causados pelo "ataque criminoso, um ataque terrorista contra o nosso povo".
Ele assegurou que forças policiais foram mobilizadas para garantir a paz.
"Confiem na liderança, confiem na liderança do alto comando político e militar para a situação que estamos atravessando", disse o ministro.
"Mantenham a calma, não deixem ninguém se desesperar. Não deixem ninguém facilitar as coisas para o inimigo invasor. (...) Nós sabemos como sobreviver a todas essas circunstâncias e além, além de qualquer um de nós, existe um povo organizado", declarou diante das câmeras.
Ataque é auge de escalada de tensão entre EUA e Venezuela
O ataque americano à Venezuela e a captura de Maduro são o auge da escalada nas tensões militares com a Venezuela que já dura meses.
A chegada de Trump ao poder no começo de 2025 nos Estados Unidos marcou o início de um crescente nas hostilidades americanas contra Caracas.
O primeiro ato do presidente sobre a Venezuela, em fevereiro, foi designar organizações criminosas do país como grupos terroristas. Isso abriu caminho para deportações nos EUA de dezenas de venezuelanos — que foram acusados pelo governo americano de integrarem esses grupos. As deportações acabaram suspensas por uma decisão da Justiça americana.
Em agosto, os EUA aumentaram a recompensa por informações que levassem à prisão do presidente Nicolás Maduro; e começaram a enviar navios, jatos e um submarino nuclear ao mar do Caribe.
Em setembro, forças americanas começaram a atacar barcos no Caribe e no Pacífico. O governo americano diz que as embarcações estavam transportando drogas da América do Sul para os EUA.
Desde setembro, os Estados Unidos lançaram 30 ataques contra o que dizem ser embarcações usadas para o tráfico de drogas, mirando navios no Pacífico e no Caribe.
Mais de 110 pessoas morreram desde que os EUA realizaram seu primeiro ataque contra uma embarcação em águas internacionais, em 2 de setembro.
Mais recentemente, há relatos de conversas telefônicas entre Trump e Maduro — com um ultimato do governo americano para que o venezuelano deixe o país. Os EUA também autorizaram operações especiais da agência de inteligência CIA na Venezuela e ameaçaram realizar uma ação terrestre no país.
No final de novembro, o governo americano fechou o espaço aéreo venezuelano. Cidadãos americanos receberam a recomendação de não visitar a Venezuela ou deixar o país, caso estejam lá.
Em dezembro, Trump anunciou que ordenou um bloqueio "total e completo" de todos os petroleiros sancionados que entram e saem da Venezuela.
Os EUA haviam oferecido uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão de Maduro.
(bbc)