
Redação, Porto Velho RO, 24 de agosto de 2026 - Uma auditoria do Ministério Público Federal (MPF) colocou novamente o Frigorífico Irmãos Gonçalves, o Frigon, no centro de questionamentos ambientais em Rondônia. O órgão aponta que 260.952 cabeças de gado, equivalentes a 32,6% dos 800.141 animais abatidos pela empresa entre 2023 e 2024, estavam associadas a propriedades com indícios de irregularidades socioambientais, incluindo desmatamento ilegal, invasão de terras indígenas e unidades de conservação e exploração de trabalhadores em condições análogas à escravidão.
O levantamento faz parte do terceiro ciclo de auditorias do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne. Segundo o MPF, o Frigon não forneceu voluntariamente as informações comerciais solicitadas para a auditoria. Diante disso, o órgão recorreu a dados públicos e cruzou as Guias de Trânsito Animal (GTAs) e as remessas destinadas às unidades do frigorífico em Rondônia.
O número chama atenção pelo peso da empresa na cadeia produtiva: o Frigon é apontado como o maior processador de carne de Rondônia e o sexto maior em operação na Amazônia Legal. Para o MPF, justamente pelo volume de animais processados, a empresa deve receber atenção rigorosa quanto à origem do gado adquirido e aos impactos socioambientais associados à cadeia de fornecimento.
O novo levantamento também ocorre poucos meses depois de uma condenação judicial envolvendo o próprio frigorífico. Em novembro de 2025, a 1ª Vara de Fazenda e Saúde Pública de Porto Velho condenou o Frigon e dois pecuaristas por danos relacionados ao desmatamento de 570,48 hectares de floresta nativa na Reserva Extrativista Jaci-Paraná. A sentença determinou indenizações que somam aproximadamente R$ 9,58 milhões, além da recuperação da área degradada, retirada do gado e demolição de benfeitorias instaladas na unidade de conservação.
Na decisão, a Justiça considerou o frigorífico responsável de forma indireta pelos danos ao adquirir e comercializar animais criados ilegalmente na área protegida. A sentença destacou que a compra desse gado poderia financiar e incentivar a continuidade da ocupação irregular e da degradação ambiental da reserva.
A empresa, entretanto, contesta as acusações. Em manifestação divulgada após a condenação de 2025 e reiterada no contexto das novas acusações, o Grupo Irmãos Gonçalves afirma que não possui propriedades rurais, não cria gado e jamais manteve atividade pecuária ou benfeitorias dentro da Resex Jaci-Paraná. O grupo sustenta ainda que atua exclusivamente no abate de animais adquiridos de terceiros, mediante documentação oficial, incluindo GTA e notas fiscais, e afirma respeitar as decisões judiciais enquanto busca demonstrar a regularidade de suas operações.
O novo episódio amplia, portanto, o debate sobre a responsabilidade dos frigoríficos na cadeia da carne. A discussão não se limita à identificação de quem desmatou ou ocupou ilegalmente áreas protegidas, mas alcança também o destino dos animais produzidos nessas áreas e os mecanismos utilizados pelas empresas para verificar a origem do gado que chega aos abatedouros.
Os dados divulgados pelo MPF representam indícios apontados por auditoria, e não significam que todas as 260.952 cabeças tenham sido individualmente reconhecidas como provenientes de atividades criminosas. O levantamento indica associação dos animais a propriedades que apresentavam diferentes tipos de inconformidades socioambientais. A partir dessas informações, caberá aos órgãos competentes aprofundar as verificações e responsabilizar, quando comprovadas, eventuais irregularidades.
Com a nova auditoria e a condenação anterior, o Frigon passa a enfrentar uma sequência de questionamentos sobre a origem do gado adquirido e sua relação com áreas ambientalmente sensíveis. O caso coloca novamente em evidência um dos principais desafios da pecuária amazônica: garantir que a carne produzida e comercializada tenha origem comprovadamente regular, sem financiar desmatamento, invasão de áreas protegidas ou outras violações socioambientais.
Fonte: noticiastudoaqui.com