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No 286, manhã de sorrisos

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ColunistaMontezuma Cruz

Segundona, 20 de janeiro, Dia Internacional da Paciência, 7h30, espero 20 minutos na Rua Andreia até a chegada do próximo ônibus. Lá vem ele, o 296, empoeirado, rangendo ferragem e lataria. "Coitado, imaginei, esse já rodou um tanto em Macapá e veio agonizar em Porto Velho".

Do outro lado da rua, o cego Ceará, grita para o vendedor de macaxeira que, desta vez, embarcará rumo ao bairro Guajará e não para o centro da cidade. A cena se passa no ponto, situado em frente à antiga (e desativada) Base Crato da Polícia Militar, no Aponiã, onde resido há mais de um ano.

Ceará é uma das presenças notáveis nos coletivos da Capital, pois é falante, antenado com o mundo, anda sempre com o celular ligado na emissora de rádio acompanhando os passos do INSS, da diplomacia, da produção agrícola, da indústria, sabe quando existe carestia, fuga de presos (aqui e no Paraguai), desemprego, campanhas de saúde pública. Quando liga a vitrola, comenta um pouco de tudo com os motoras, incluindo brigas de vizinhos.

  "Graças a Deus! bom dia, o senhor é muito bom", agradece a senhora obesa, que sobe com dificuldade, agarrando-se à primeira gaste metálica ao lado . O motorista educado aguarda, a cobradora sorri. O dia e a semana começam bem com gestos de gentileza. "Eu vou descer lá no Sec, mas vou me ajeitando por aqui", comenta outra mulher uniformizada ao surpreender-se com a gentileza da mocinha estudante que lhe cede o lugar. 

Ah! se todo dia fosse assim, idosos agradeceriam. Sem muito contentamento, contenho-me, pois as aulas recomeçam em fevereiro próximo: será que os estudantes acordaram para o ditado popular "eu sou você amanhã"? 

O 296 é a síntese do sucateamento visível no transporte coletivo porto-velhense. Lógico que há carrocerias iguais ou piores, basta viajar para o Jardim Santana.  Chão encardido, alguns vidros soltos, faz um barulhão daqueles cada vez que o motorista o estaciona e arranca nos pontos. O plástico destinado a revistas e livros também está sujo, às vezes entupido por copos plásticos e panfletos de propaganda amassados.

A viagem segue. Não há o que reclamar quando preferimos não pagar cinco reais pela corrida no táxi compartilhado, optando pelo tradicional meio de transporte que na semana passada estava paralisado.   

Durante audiência no Tribunal Regional do Trabalho, o Consórcio SIM alegou que a receita da empresa "teve queda considerável em dezembro, por isso motoristas e cobradores ainda não receberam os pagamentos". Ainda não consigo compreender a globalização econômica nos seus quesitos monopólios e investimentos; só me aparecem quesitos referentes ao lucro. 

Em outubro do ano passado,  um congresso sobre mobilidade urbana reuniu em São Paulo 2,4 mil especialistas nacionais e internacionais. Isso pouco repercutiu em Porto Velho, atualmente habitada por mais de 530 mil "almas".

Sim, senhor, as coisas são como são. E as novelas do mundo real do tansporte urbano seguem pelas ruas e avenidas, rangendo latarias e ferragens.

MONTEZUMA CRUZ


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