Empresários e lojistas bloquearam nesta segunda-feira (24) um trecho da Avenida Carlos Gomes, no Centro de Porto Velho, em um protesto que expõe uma realidade cada vez mais preocupante para quem trabalha, circula e vive na capital de Rondônia: a sensação de que o poder público não está conseguindo acompanhar o avanço da criminalidade. Cansados de arrombamentos, furtos e roubos, os comerciantes decidiram interromper o trânsito para cobrar das autoridades uma resposta concreta para o problema.
A manifestação representa mais do que uma reclamação pontual de comerciantes prejudicados. É um sinal de insatisfação com a segurança pública e com a incapacidade do Estado de impedir que áreas comerciais e regiões inteiras sejam progressivamente ocupadas pela criminalidade. Segundo os manifestantes, estabelecimentos vêm sendo atacados com frequência, principalmente durante a madrugada, quando criminosos arrombam portas, quebram vitrines e invadem lojas para levar mercadorias e dinheiro.
O cenário ganha contornos ainda mais graves quando analisado em conjunto com a expansão da atuação de organizações criminosas em diferentes pontos de Rondônia. A presença de facções, o tráfico de drogas, os roubos, furtos e demais crimes associados à criminalidade organizada passaram a desafiar a capacidade de resposta do poder público, alimentando entre a população a percepção de que determinados territórios estão ficando cada vez mais vulneráveis.

Na Avenida Carlos Gomes, uma das principais vias comerciais de Porto Velho, a situação chegou ao ponto de empresários precisarem fechar a própria rua para chamar a atenção das autoridades. Os comerciantes pediram apoio ao Comando-Geral da Polícia Militar, ao 1º Batalhão e diretamente ao Governo de Rondônia, reivindicando policiamento permanente e medidas capazes de devolver a sensação de segurança ao Centro.
O protesto também coloca em xeque o discurso de que investimentos isolados em tecnologia e equipamentos seriam suficientes para conter a criminalidade. O próprio Governo de Rondônia já divulgou resultados positivos obtidos com sistemas de monitoramento, incluindo totens inteligentes e a chamada Muralha Digital. Em 2025, por exemplo, dados divulgados pela Secretaria de Segurança apontavam redução de furtos e roubos de veículos no estado e milhões de leituras de placas realizadas pelo sistema.
O problema, porém, é que a percepção de quem está na ponta nem sempre acompanha os números oficiais. Para o comerciante que encontra a porta arrombada ao chegar para trabalhar, para o funcionário que teme permanecer no estabelecimento até o fechamento e para o cliente que evita determinadas regiões, a estatística perde força diante da experiência cotidiana.
A própria Avenida Carlos Gomes já acumula registros de ocorrências. Em maio, uma ação policial resultou na prisão de um suspeito e na apreensão de materiais relacionados a furtos cometidos contra estabelecimentos comerciais da região. Em outro episódio, três criminosos invadiram uma sorveteria durante a madrugada e fugiram levando a caixa registradora, enquanto moradores e comerciantes demonstraram preocupação com a sequência de arrombamentos na área central.
É justamente essa repetição de episódios que fortalece a sensação de que o crime deixou de ser um problema episódico para se transformar em uma ameaça permanente. Quando comerciantes precisam organizar um protesto e bloquear uma das principais avenidas da capital para pedir policiamento, fica evidente que a resposta estatal precisa ir além de ações pontuais realizadas depois que o crime já aconteceu.
A questão também passa pela capacidade de enfrentar as organizações criminosas que alimentam mercados ilegais e ampliam sua influência sobre diferentes comunidades. Combater pequenos furtos sem atacar as estruturas responsáveis pelo tráfico, pela receptação, pela circulação de armas e pelo financiamento das atividades criminosas significa atuar apenas sobre as consequências de um problema muito maior.
Rondônia não pode permitir que bairros, áreas comerciais, comunidades rurais ou regiões estratégicas sejam transformados em territórios onde criminosos estabelecem regras próprias. O domínio territorial das facções representa uma ameaça direta ao Estado de Direito e exige inteligência policial, investigação, integração entre as forças de segurança, presença ostensiva e ações permanentes de repressão ao crime organizado.
A indignação dos empresários da Avenida Carlos Gomes, portanto, deveria ser encarada pelas autoridades como um alerta. Não se trata apenas de portas quebradas, vitrines destruídas ou mercadorias roubadas. Trata-se da deterioração da confiança da população na capacidade do Estado de garantir um direito básico: o de trabalhar e circular com segurança.
O Governo de Rondônia tem a obrigação de apresentar respostas proporcionais ao tamanho do problema. Se a criminalidade consegue se reorganizar, mudar de área, ocupar novos espaços e intimidar moradores e comerciantes, a segurança pública também precisa ser capaz de antecipar movimentos, ocupar territórios vulneráveis e desarticular as organizações criminosas.
O fechamento da Avenida Carlos Gomes é, nesse sentido, um retrato simbólico de uma crise que ultrapassa os prejuízos financeiros do comércio. É a demonstração pública de que parte da população já não aceita conviver silenciosamente com a criminalidade. E, diante do avanço das facções e da sensação de insegurança em diferentes regiões de Rondônia, o recado dos comerciantes é direto: não basta prender depois que o crime acontece; é preciso impedir que o crime continue avançando.
Fonte: noticiastudoaqui.com