Os obstáculos do mercado de trabalho para bacharéis e estudantes de direito



Apesar de amar falar sobre Direito, um assunto importante não tem sido discutido, sendo empurrado para debaixo do tapete. Falar sobre o dia a dia da advocacia envolve muito mais do que prazos e atendimento ao cliente, porque muitos profissionais optam por não serem autônomos e preferem ser funcionários por outros motivos.

Ocorre que a realidade do mercado de trabalho não tem sido favorável para grande parte das pessoas e não podemos mais deixar isso de lado.

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O bacharel quando conclui a graduação começa a encaminhar seu currículo para vagas de advogado júnior, assistente jurídico ou analista júnior. Temos o sonho de trabalhar em um bom escritório, onde iremos aprender a prática da advocacia e ganhar um bom salário. Acontece que alcançar esse sonho está sendo uma frustração para a maioria dos recém-formados.

Antes de atuar autonomamente, participei de diversas feiras voltadas para inclusão de jovens formados no mercado jurídico, além de entrevistas para alguns escritórios de médio e pequeno porte. Vi na prática como o mercado não está sendo inclusivo e mantém um discurso que não pratica.

Primeiramente, grande parte das vagas ofertadas possuem requisitos que alguém que acabou de se formar não tem como preencher, como pós-graduação concluída e experiência de 1 ou 2 anos em escritório. 

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Sabe aquela história de como vou ter experiência se ninguém me deixa trabalhar para ter experiência?

O mesmo tem acontecido com os estudantes de direito. Não é raro ver anúncio de vaga para estágio requerendo experiência e fluência em outro idioma.

O objetivo do estágio é adquirir experiência e tais requisitos tem dificultado a vida de muitos candidatos, assim como para os bacharéis.

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Há anos o mercado jurídico tem requerido que o candidato tenha frequentado faculdade consideradas de “primeira linha” e tenha fluência em ao menos um idioma estrangeiro.

Contudo, mais da metade dos formados cursaram faculdades privadas que não são consideradas como "primeira linha" e nem tiveram condições de pagar um cursinho para aprender outra língua porque o dinheiro que recebia era destinado a pagar a mensalidade da faculdade.

Ainda assim quando o candidato preenche os requisitos de uma vaga, ele se depara com a remuneração ofertada, que nem sempre é atrativa.

Em São Paulo, a maioria das vagas ofertadas são para advogado associado, em que é pago apenas uma remuneração fixa, sem nenhum benefício.

Sim, a maioria dos escritórios não pagam nem mesmo vale transporte. A média de remuneração paga que tive conhecimento até o momento é de R$ 1.500 a R$ 2.600. Sendo que grande parte dos escritórios que ofertam tais valores são de grande porte.

Não se trata de generalizar, existem escritórios bons e que valorizam quem está no time. Entretanto, muitos escritórios deixam a desejar nesse quesito.

Já ouvi relatos de colegas em grupos de Facebook que passaram a noite no trabalho para dar conta de cumprir os prazos estipulados (geralmente escritórios massificados que não pagam hora extra) ou que são tratados como robôs apenas para cumprir os prazos, sem a possibilidade de plano de carreira.

Para saber como funciona na prática o escritório que irá fazer entrevista, o site https://www.glassdoor.com.br pode ajudar, pois tem a avaliação de muitos escritórios de advocacia e é possível também ver o depoimento de atuais e ex funcionários.

Alguns ao ler tais palavras irão dizer que se existem tais ofertas é porque há quem aceite. Contudo, imagine um recém-formado que tem contas para pagar, incluindo a anuidade da OAB para manter em dia.

Considerando que leva tempo para construir uma carteira de clientes de forma autônoma, as circunstâncias muitas vezes acabam influenciando a decisão de aceitar tais ofertas.

Todos sabemos que o mercado está com um número de profissionais acima do esperado, mas isso não quer dizer que pode haver um leilão de profissionais. As pessoas devem ser valorizadas. São cinco anos de preparação, estágios, cursinhos e noites em claro para ter um diploma e poder ingressar no mercado.

Atualmente, muito se tem falado a respeito de honorários condizentes com a profissão e a cobrança de consulta para valorizar a advocacia. Mas a valorização da advocacia deve abranger todos os setores, tanto autônomos quanto prestadores de serviços.

Esse artigo não tem o intuito de levantar bandeiras ou de fazer inimigos, mas para falar sobre a realidade e conscientizar os escritórios de advocacia de que a valorização do profissional também é um fator importante para o crescimento exponencial do escritório.

Valorizar quem joga no nosso time é tão importante quanto jogar bem.

Advocacia não é composta apenas de processos, leis, doutrina e jurisprudência, também é feita por pessoas.

 Alice Aquino - Especialista em cobrança de dívidas e negociação de débitos - email: aliceaquino.adv@gmail.com Instagram: aliceaquinoadv Facebook: aliceaquinoadv Whatsapp: (11) 96547-5138 Site: www.aliceaquino.adv.br~

Edição: Noticiastudoaqui.com

 



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