![]() |
Neste final de 2019, a América Latina parece determinada a colocar à prova quaisquer certezas sobre os ciclos políticos nas democracias da região. Primeiro vieram os protestos que pararam o Equador, liderados por movimentos sociais, especialmente os indígenas, em um levante que obrigou o governo a sentar-se à mesa e negociar com as populações tradicionais do país. Em seguida foi o Chile, modelo de estabilidade para alguns, de desigualdade para outros, que explodiu em protestos de rua liderados por jovens que estão incendiando a Constituição herdada da ditadura de Pinochet. Agora é a Bolívia, onde em apenas três semanas uma escalada de eventos fez a reeleição do presidente Evo Morales ir dos questionamentos a uma renúncia forçada, ao exílio e à incerteza de quem governará o país a longo prazo.
A Agência Pública conversou com a professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Sue Iamamoto, que pesquisa desde 2008 a política boliviana e os movimentos sociais do país para entender o que levou o governo de Evo Morales, primeiro presidente indígena, a ruir diante dos protestos. Autora do livro O nacionalismo boliviano em tempos de plurinacionalidade (2013), Sue aponta como, desde o início, o primeiro presidente indígena boliviano vinha acumulando desgastes com a base que o elegeu, sem nunca conseguir agradar totalmente à direita que hoje o confronta. Na visão da pesquisadora, a direita foi oportunista em aproveitar um governo já desgastado por denúncias de autoritarismo para emplacar pautas conservadoras e religiosas que excluem os indígenas da ideia de nação única que defendem tão arduamente.
Sue é categórica: a renúncia de Evo foi golpe, sim. Para a pesquisadora, apesar de as Forças Armadas não indicarem querer o poder para si mesmas, “o fato de o Exército ter sugerido a renúncia ao Evo Morales foi uma quebra institucional” que pode se transformar em um “golpe ao cubo” caso o partido de Evo seja impedido de disputar as eleições para definir o próximo presidente.
Pergunta. A renúncia dramática de Evo Morales, encurralado pelas Forças Armadas e após protestos em todo o país, parece totalmente oposta à imagem de 13 anos atrás, do primeiro presidente indígena eleito na Bolívia, com amplo apoio popular, que trazia consigo esperanças e promessas de mudanças por um país mais igualitário. Como isso foi possível? Houve um consenso no início do governo que foi se desgastando aos poucos ou foi um percurso problemático desde o início?
Resposta. Evo Morales chega ao poder com as eleições de 2005, obtendo mais de 50% dos votos. Sua agenda popular, que costumamos chamar “agenda de outubro”, propunha a Assembleia Constituinte, mais representação dos povos indígenas na Bolívia, a nacionalização do gás e a reforma agrária. Nesse sentido, inicialmente o mandato de Evo foi marcado por um processo de mudança, sobretudo em relação à terra e à autonomia dos povos indígenas, que se realizou de maneira parcial, digamos. Isso porque os primeiros anos de governo foram muito tensos, com questionamentos vindos de vários grupos. Em 2008, por exemplo, houve o Massacre de Porvenir [massacre encomendado pelo então governador do estado do Pando, influente opositor de Evo Morales, e que deixou pelo menos 20 pessoas mortas, a maioria governista].
Houve também a mobilização em Santa Cruz, pedindo a autonomia departamental durante o processo da aprovação da Constituinte, em 2007 — que não deixa de ser relacionada ao contexto atual [na época, o movimento cívico de Santa Cruz protestou pela autonomia da região e criticou o governo plurinacional indígena. Os cabildos [lideranças municipais, sobretudo nas regiões de Santa Cruz e La Paz] foram muito intensos nesse momento, nesse início de governo Evo, pedindo autonomia departamental, uma pauta regionalista. É nesse contexto, como disse, bastante tenso, que a Bolívia inaugura o Estado plurinacional, que reconhece os povos indígenas e garante uma série de direitos que não estavam previstos anteriormente.
Contudo, a Constituição passa por uma série de acordos com setores da oposição, que impõem reformas para que ela seja aceita. O governo de Evo vai progressivamente se tornando mais hegemônico, no sentido de realizar mais acordos com a direita, com setores empresariais, mesmo com as multinacionais, por exemplo, de mineração, ao mesmo tempo que vai abandonando algumas das pautas que defendia anteriormente. Evo vai se afirmando cada vez mais desenvolvimentista, ele se alinha com essa pauta de integração nacional, de exploração dos recursos naturais, de desenvolvimento do país com base numa matriz extrativista – uma visão talvez mais alinhada com os povos indígenas do ocidente, sobretudo. Enfim, vai se criando um desgaste.
P. Você diz um desgaste com a própria base que elegeu Evo?
R. Sim, um desgaste com as pessoas que defendem a Bolívia plurinacional, com os grupos do movimento indígena. É um desgaste que vem se aprofundando por anos…
P. Como se deu essa aproximação de Evo com pautas desenvolvimentistas?
R. Eu acredito que já estava, de certa forma, na origem do governo. Desde 2006, Evo vinha apoiando alguns setores e retirando o apoio de outros. Por exemplo, o governo apoia a agroindústria, na figura dos camponeses colonizadores – que são camponeses que recebem terras para colonização ou que migram do ocidente para o oriente para estabelecer cultivos. Isso gera um conflito com os indígenas.
P. Como se deu essa aproximação de Evo com pautas desenvolvimentistas?
R. Eu acredito que já estava, de certa forma, na origem do governo. Desde 2006, Evo vinha apoiando alguns setores e retirando o apoio de outros. Por exemplo, o governo apoia a agroindústria, na figura dos camponeses colonizadores – que são camponeses que recebem terras para colonização ou que migram do ocidente para o oriente para estabelecer cultivos. Isso gera um conflito com os indígenas que lá estavam. O caso de Tipnis [por exemplo]. Esses conflitos existiam, não dá para dizer “ah, ele foi vendido pra direita”; não dá para afirmar que “nossa base popular sempre foi pelo bem viver e contra o extrativismo”. A Bolívia é um país extrativista, de longa tradição mineira, e que encara a exploração dos recursos naturais como algo da sua realidade cotidiana. Setores da sociedade boliviana que poderiam realizar um debate mais aprofundado na Bolívia sobre as suas matrizes econômicas, sobre a forma como lidava com o meio ambiente, foram deixados de lado pelo governo, inclusive denunciados, em um discurso muito parecido com o que Jair Bolsonaro tem em relação às ONGs da Amazônia. Enfim, há esse conflito.
P. Se Evo passou a se aproximar da pauta desenvolvimentista, em que momento o governo começa a desagradar a setores da direita, do empresariado que, em tese, aprovariam essas políticas?
Fonte: Rondoniense
