
Rejeição entre conservadores, o efeito de Lula na Sapucaí ou apenas um reflexo do que acontece no país no momento? Especialistas analisam fatores que podem explicar por que o presidente Lula (PT) viu a aprovação do seu governo cair seis pontos percentuais entre os católicos num intervalo de dois meses, segundo pesquisa da Genial/Quaest divulgada em março.
O que aconteceu
Aprovação de Lula entre católicos passou de 55%, em janeiro, para 49%, em março. O levantamento da Quaest mostrou também que a desaprovação subiu de 41% em janeiro para 47% neste mês. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos — ou seja, as duas variações ocorreram fora da margem. Em março, houve um empate técnico entre aprovação (49%) e desaprovação (47%).

Tradicionalmente, católicos são um grupo mais favorável a Lula. O petista liderou, em diversos momentos, as intenções de voto desse segmento e recebeu, durante seus três mandatos no Planalto, avaliações positivas de seu governo —o que começou a mudar, conforme apontam as pesquisas.
Oscilação da aprovação do governo tende a refletir disputas internas pelos católicos, afirma doutora em sociologia. Para Ana Carolina Marsicano, pesquisadora do Laboratório de Estudos de Religião e Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), os dados da pesquisa sugerem "menos uma ruptura abrupta e mais um processo de reacomodação de percepções" dentro do segmento religioso.
Catolicismo no Brasil não funciona como "bloco político organizado" como determinados segmentos evangélicos. Segundo a pesquisadora, o crescimento na desaprovação do governo Lula não significa "necessariamente uma ausência de diálogo" do Planalto, "mas o desafio de mediação simbólica" com esse grupo.
Peso de notícias falsas pode ter comprometido imagem de Lula, afirma professor. Hilton Fernandes, da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), afirma que a agenda positiva do governo não causa tanto efeito. Ele pondera também que a principal variação na aprovação do governo ocorreu entre dezembro de 2024 e março de 2025. Na ocasião, a queda entre católicos foi de sete pontos percentuais, de 56% para 49%.
Segundo Fernandes, os dados da pesquisa mostram uma tendência de queda na aprovação. O professor da FESPSP afirma, no entanto, que entre os católicos a desaprovação superou a aprovação por "pouco tempo", entre março e maio de 2025 —nesse último, 53% dos entrevistados católicos desaprovavam o governo petista.
Rejeição entre conservadores
Rejeição contra o presidente por setor conservador da igreja Católica se intensificou, afirma pesquisador. "Esse grupo [que se une aos evangélicos de direita] já rejeitava fortemente e foi reativado nesse momento", explica Vinicius do Valle, doutor em ciência política.
Para Ana Carolina, a mobilização de temas como família, sexualidade e educação, feita por grupos religiosos, também influencia. "Quando esses temas entram no debate político, eles podem produzir ruídos na relação entre governo e eleitores religiosos, mesmo entre aqueles que historicamente simpatizam com Lula."
Os resultados da avaliação do governo, de forma geral, preocupam o Planalto. A preocupação é de rever regiões e perfis de eleitores que votam tradicionalmente em Lula para evitar um cenário pior nas próximas pesquisas.
Avaliação do governo entre católicos costuma seguir opinião pública geral. Para Vinicius do Valle, doutor em ciência política, os números das pesquisas não estão ligados ao campo religioso. "Essa tem sido a avaliação que o cidadão tem feito nesse momento. O governo Lula vem enfrentando algumas dificuldades para conseguir um índice de avaliação positivo nesses últimos meses em todos os marcadores, não apenas entre católicos", aponta.
Carnaval prejudicou imagem do presidente?
Presidente da Frente Parlamentar Católica da Câmara dos Deputados atribui ao Carnaval mudança na aprovação. A homenagem para Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói na Sapucaí foi explorada por religiosos devido à fantasia "família em conserva", que representava a "família tradicional". Para o deputado federal Luiz Gastão (PSD-CE), "o silêncio de Lula" sobre o tema não teve bom retorno.
Ala do desfile foi ataque gratuito a quem tem fé, às religiões e à igreja, incluindo católicos, diz Gastão. "Não vimos uma declaração do presidente ou de alguém do governo contra o fato. Tem uma máxima: quem cala consente", apontou o presidente da Frente Católica.
Pesquisador discorda e diz que é difícil afirmar que o desfile é um dos motivos para mudança na aprovação pelos católicos. Segundo Fernandes, professor da FESPSP, é "provável" que a homenagem a Lula na Sapucaí tenha se somado a outros temas que provocaram a piora da imagem do governo.
Foram feitos muitos ataques à primeira-dama Janja, por exemplo, utilizando o desfile como mote, e isso pode ter criado um 'caldo' negativo para o governo como um todo.
É sempre bom lembrar que a pesquisa de opinião mostra muito mais a percepção dos eleitores e não uma avaliação cuidadosa, portanto é contaminada por valores pessoais, posicionamentos ideológicos e imagens dos políticos e partidos.Hilton Fernandes, professor da FESPSP
É difícil afirmar que um evento específico seja capaz de produzir sozinho uma mudança perceptível em pesquisas nacionais. O mais provável é que esses episódios funcionem como catalisadores de percepções já existentes, reforçando narrativas de conflito entre religião e cultura.Ana Carolina Marsicano, pesquisadora da UFPE
Sobre a pesquisa
A Quaest, contratada pela Genial Investimentos, ouviu 2.004 pessoas pessoalmente, entre os dias 6 e 9 de março. O nível de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o número BR-05809/2026.
(Uol)