Pavese não morreu



No dia nove transcorreu o centenário do nascimento de Cesare Pavese. Sob silêncio quase absoluto. Parece que foi esquecido. Seu último livro traduzido para o português, O Ofício de Viver, é de 1988. 

Tinta anos depois, jamais foi reeditado. Nem pela Bertrand, responsável pela edição única. Ela vale de 100 a 200 reais na Estante Virtual, preço caro, mas justo. No entanto, parece não haver interessados nas edições, todas usadas. É um livro precioso. Pavese acabara de escrever a última página do seu diário, em 1950, num hotel, quando se suicidou, às vésperas dos 42 anos.

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 Numa anotação manuscrita, encontrada entre seus pertences muitos anos depois da sua morte, Pavese escreveu: "Andei à minha procura". Caminhada de toda vida, resultando em frustração, apesar de todo sucesso como escritor, poeta e tradutor (incluindo as prosas dificílimas de Joyce, Faulkner e John  dos Passos). Em Diálogos com Leucó, de 1947 (publicado pela extinta Cosac & Naiff), ele observou: “Em suma, todo o problema da vida é este: como romper a própria solidão, como comunicar-se com os outros”. Bem que tentou. Entregou os pontos quando pressentiu que não havia mais o que fazer, ou fazer que já não tivesse feito.

“Todos os pecados têm origem num sentido de inferioridade, também chamado ambição”. E sua consequência: “A dificuldade de praticar o suicídio está nisto: é um ato de ambição que só pode ser realizado depois de superada toda a espécie de ambição”. Diz-se que Pavese se matou em seguida a ter escrito algo no papel. Com a serenidade de quem sempre considerou essa hipótese, tendo chegado a ela depois de uma vida dedicada a superá-la, desviando-se de um final que sempre estivera nas suas cogitações, como a dar a sua aprovação à conhecida frase de Albert Camus: “Existe apenas um único problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida significa responder à questão fundamental da filosofia”.

O grande Cesare Pavese merece ser lembrado, apreciado e admirado.

Fonte: LÚCIO FLÁVIO PINTO

Editor do Jornal Pessoal. Com foto de Libreriano



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