“Josué de Castro: cidadão dos mangues e do mundo” foi o sugestivo título dado à Semana Josué de Castro, realizada em Recife, entre os dias 6 e 12. Através dela, o Centro de Estudos e Pesquisas Josué de Castro promove anualmente um debate sobre o desenvolvimento humano sustentável no Brasil e, em particular, no Nordeste.
Neste ano, o enfoque foi sobre “as dimensões políticas relacionadas aos aspectos naturais e à intervenção humana nos mangues do Recife”. A programação apresentada era excelente, convidativa. Infelizmente, porém, Josué de Castro parece estar se restringindo a Pernambuco.
Esse localismo contrasta com a prioridade que Lula, ainda como candidato à presidência da república, disse que daria ao combate à fome. Praticamente tudo que seu governo (muito) anunciou e (pouco) fez, Josué de Castro já havia antecipado, depois de uma reflexão sobre o problema que permanece atual até hoje, sólida na sua fundamentação e impressionante na sua denúncia, na sua indignação.
No início da década de 50, quando já era uma autoridade internacional reconhecida, mesmo ao ser combatida, Josué de Castro propôs a criação de um Fundo Internacional de Emergência e de uma Campanha Mundial contra a Fome, propostas que nosso presidente apresentou agora como sendo uma ideia original. O projeto do cientista pernambucano não era um lance improvisado que tirou da cartola.
Com seus estudos, ele criou um novo ramo da geografia, a geografia da fome, em seguida desdobrado na geopolítica da fome, quando teve que ampliar seu trabalho do plano regional, brasileiro, para a amplitude universal, por encomenda que uma grande editora americana lhe fez, apenas três anos depois da publicação de seu primeiro grande livro, “Geografia da Fome”, em 1948 (os anteriores são preparatórios para essa obra).
Sucessivas edições, de milhares de exemplares, foram tiradas desses dois livros de Josué de Castro na Europa e nos Estados Unidos. O que impressiona na leitura dos dois trabalhos, então e em qualquer época, é a robustez dos dados que ele levantou em uma extensa e atualizada bibliografia, em quatro línguas (efetivamente lida e não apenas citada, como é comum nos trabalhos acadêmicos atuais).
Essa densidade garante a força demonstrativa de suas teses, mas também dão embasamento ao libelo em que essa pesquisa verdadeiramente científica se tornou através do espírito solidário (com a pobreza) e indignado (com suas causas) desse geógrafo, que foi, primeiro, médico (e, em seguida, nutricionista, filósofo, professor e sociólogo).
Pela contundência da repercussão, que colocou os neomalthusianos colonialistas em polvorosa e os homens de boa vontade (e lucidez) em festas, em muitas partes do mundo, Josué de Castro foi escolhido para presidir (por quatro anos) o conselho da FAO, a agência especializada da ONU para alimentação e agricultura.
Tinha uma carreira estupenda pela frente. Subvertendo – no melhor dos sentidos – a velha geografia, dedicada a exaltar as grandezas humanas, por uma nova ciência, empenhada em identificar e enfrentar suas misérias, Josué de Castro deu conta da especificidade do meio natural sem nunca esquecer o meio humano, combinando-os numa dialética que iluminava o contexto político, sem prevenções nem predisposições.
Fundou um novo ramo da ciência, frondoso e fértil. Ou, como ele ressaltou, ao inaugurar a geopolítica da fome, “um método de interpretação da dinâmica dos fenômenos políticos em sua realidade espacial, com suas raízes mergulhadas no solo ambiente”.
Esse brasileiro amável e cordial de Pernambuco teve as edições americana e européia do seu primeiro livro universal prefaciadas por dois prêmios Nobel (a americana Pearl S. Buck, de literatura, e o lorde inglês John BoydOrr, da paz) e por um professor da Sorbonne de Paris (um dos maiores geógrafos de então, Max Sorre).
Autora de romances que vendiam como água, Buck começa sua apresentação declarando que aquele era “o mais encorajador, o mais esperançoso e o mais generoso livro que eu já li em toda a minha vida”.
Sorre ressaltava que Josué de Castro, com todo seu humanismo, ou justamente por isso, não escreve em abstrato: “Ele culpa os erros dos homens, o espírito de ganância e imprevidência, como responsáveis por todo o mal” da fome. Mas quem podia censurar o brasileiro “por falar tão acaloradamente sobre temas que são essenciais para a humanidade?”
Lorde Orr pedia, em complemento, que os políticos de todas as nações esquecessem por um momento seus conflitos políticos para ler o livro, que, como previa a ficcionista americana, “será um facho de luz iluminando o futuro caminho da humanidade”.
Mas essas generosas expectativas se desfariam na própria pátria de um dos raros brasileiros que conquistou seu lugar na história da humanidade. Em 1964, aos 56 anos de idade, Josué de Castro foi cassado pelo novo regime militar, um dos golpeados pelo primeiro dos atos institucionais, de abril, como subversivo.
Foi igualmente demitido do cargo de embaixador brasileiro junto aos organismos da ONU sediados em Genebra. Só voltou ao Brasil 10 anos depois, para ser enterrado. Continuou cheio de glórias, mas nunca mais foi feliz. Morreu amargurado e a amargura antecipou seu fim.
Homem do mundo, tinha seu umbigo depositado nos mangues do Beberibe e do Capibaribe, que agora o homenageiam. Um dos grandes cientistas brasileiros de todos os tempos e um dos raros a ser reverenciado internacionalmente, não se satisfez com a ciência pura: foi para as ruas, realizou obras concretas (como a rede de restaurantes populares do SAPS, de saudosa memória, apesar dos desvirtuamentos) e se comprometeu com a sorte do seu povo, elegendo-se duas vezes deputado federa (pelo PTB de Getúlio Vargas), na segunda vez como o mais votado de todo Nordeste.
Se essa dupla condição de homem da academia e do mundo constitui subversão, santa foi a subversão de Josué Apolônio de Castro. Numa época em que se volta a falar em combate à fome, esquecê-lo, exatamente 30 anos depois de sua morte, não significa que ele se tenha diminuído, mas que são pequenos, demasiadamente pequenos, os que o esquecem.
Lúcio Flavio Pinto